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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para Chico Buarque, com admiração - um encontro à luz da sua ficção

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Imagem: Reprodução

Julián Fuks

Colunista do UOL

06/11/2021 06h00

Na primeira vez em que vi Chico Buarque, ele me recomendou uma pequeníssima casa de massas no Marais, um lugar discreto e barato que fugia à pompa local. Sua recomendação prescindiu das palavras. Era uma tarde fria quando o vi passar pela rue de Rivoli, ao lado de uma mulher esguia que insistia em manter suas feições incógnitas. Como se afetado por algum magnetismo, me pus a seguir seus passos lentos pela calçada abarrotada, virei com eles à esquerda na rue de Turenne e só o pudor me impediu de acompanhá-los porta adentro na cantina familiar de dimensões insólitas. Não entrei naquele dia, mas me tornei cliente cativo do lugar, como se ali o próprio Chico Buarque fosse o chef a preparar a massa, e também o garçom a me trazer o prato com seus olhos ternos e seu sorriso debochado.

O prédio parisiense onde Chico morava, um amigo jornalista me contara, ficava bem ali, do outro lado da Pont Marie, visível pela janela do estúdio em que eu me albergara. Por meses só lhe devotei olhares furtivos e respeitosos, procurei ignorar sua presença como ele também me ignorava. Foi na noite de réveillon, no entanto, que rompi minha contenção estimulado por uma dezena de amigos brasileiros bêbados, cruzando com eles a ponte e me somando ao coro esganiçado que, em frente à fachada de Chico Buarque, se pôs a cantar, com a incoerência e a impropriedade dos ébrios, "Apesar de você" e "Vai passar". Estávamos orgulhosos de oferecer, ao artista que tanto admirávamos, a mais estridente e lamentável das serenatas.

Mas esses são só alguns preâmbulos da história que desejo contar, muito mais notável. Algumas semanas haviam se passado quando me vi de novo diante do prédio, com meu livro mais recente nas mãos, acrescido de uma dedicatória sóbria que ressaltava, com medida despretensão, nossa vizinhança física e literária. Estava procurando uma inexistente caixa de correio junto ao portão quando senti um toque leve na escápula e ouvi sua inequívoca voz: ora, se não é o maestro do coro dos embriagados! Devo ter enrubescido ainda de costas, um rubor que permaneceu comigo por algumas horas, a ponto de fazer de mim, na improvável lembrança de Chico, um jovem a um só tempo vermelho e pálido. Detalhes desnecessários. O caso é que, com toda a tranquilidade, Chico franqueou a porta de sua casa e me convidou a entrar.

Como primeiro gesto de hospitalidade, atirou sobre a mesa de centro o livro que eu acabara de lhe dar, e aquele exemplar que eu nunca mais veria deslizou para baixo de uma pilha de revistas culturais, algumas das quais o figuravam na capa. Com a mesma displicência atirou seu próprio corpo sobre a poltrona da sala, e eu entendi que ele estava cansado e nem um pouco interessado em discutir literatura. Ainda assim, permitia que eu ocupasse um canto do seu sofá, como se me conceder seu silêncio e sua intimidade já fosse um ato de grande generosidade - e sim, claro que sim, era assim que eu sentia, e talvez de fato o fosse.

Se não queria me oferecer conselhos literários, Chico ao menos não deixou de fazer uma breve apreciação musical, afirmando sem rodeios que eu cantava muito mal, sobretudo por uma indisposição de sair do meu próprio corpo, de me ausentar de mim e me tornar um outro, e cantar sem as amarras das minhas cordas vocais. Talvez fosse ainda insuficiência de álcool, ele estimou, mas depois ponderou que nem a total embriaguez chegaria a me ajudar, já que pareço absolutamente incapaz de abdicar do controle e deixar que meus gestos existam em liberdade. Fiquei assombrado com aquele homem que, sem nem voltar seu rosto para mim, com o olhar a pairar num espaço vago entre o teto e as paredes descascadas, conseguia ainda assim me decifrar com tal precisão e profundidade.

É um exímio leitor de almas, pensei, e alguma palavra como essa pode ter me escapado, porque o ouvi em seguida bufar com impaciência, como o francês típico que ele não aceita se tornar. Há tempos vem fugindo de tudo o que querem lhe imputar, pensei, recusa-se a ser o sujeito sensível, o rapaz cândido, o poeta lírico, todas essas percepções alheias que poderiam embevecê-lo, mas que só o constrangem e o afastam do que desejaria ser. Agora não sei se era eu que pensava ou ele que dizia, mas soube que estava cansado de ser Chico Buarque, que já não suportava os pressupostos e as implicações de ser Chico Buarque, e que por isso vinha se extraviando de si em outros personagens, em outras narrativas muito mais interessantes.

Estava farto até de seu passado, e não por qualquer arrependimento ou remorso, ele fez questão de ressalvar. O passado que vivemos é um só, unívoco e enfadonho, mesmo para uma existência das mais voluptuosas. Recordar a própria experiência sem alguma dose de invenção é uma opção insossa e pobre - uma massa sem tempero e sem molho que só nos empapuça, e com os anos acaba por nos fartar. Vi que já se levantava e num gesto entre ríspido e delicado me conduzia de volta à porta, encerrando o nosso diálogo com alguma precocidade. Eis a lição de ficção que ele estava disposto a me dar, se alguma lição me interessasse: que não há qualquer razão para que um escritor se atenha aos fatos acontecidos, para que se prive dos fulgores da imaginação e se recolha nas sombras da memória.

Só agora, anos depois do nosso inexistente encontro, anos depois de não ter encontrado a caixa de correio do grande autor e ter voltado ao meu estúdio do outro lado da ponte com meu próprio livro nas mãos, dedicado a Chico Buarque, anos depois, chego enfim a entender o que Chico quis me dizer naquela noite. Vejo-me aqui, escritor insosso a empapuçar o leitor com meus fatos cotidianos, e me sinto tentado a emular o gesto libertário de sua ficção, apanhar a memória em preto e branco e tingi-la com tons mais fulgurantes. Do outro lado da porta, escuto neste mesmo instante, minhas filhas tão novas já se divertem ouvindo os saltimbancos, e eu sinto que um dia gostarão de ler a história do meu encontro com o grande autor, a tarde em que Chico Buarque desabou o corpo em sua poltrona, tomado de cansaço, e me fez ouvir suas reprimendas e suas confissões.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL