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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que será da escrita sem solidão? Reflexões a partir de Marguerite Duras

Marguerite Duras em 1981 - AFP/Gerard Fouet
Marguerite Duras em 1981 Imagem: AFP/Gerard Fouet

Julián Fuks

Colunista do UOL

18/09/2021 06h00

Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém ainda é capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatado, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimo, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo. Às vezes me bate um medo: nunca mais estarei só, ninguém nunca mais estará só, no abrigo de si mesmo.

Andei lendo Marguerite Duras, seu relato de como construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. "A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada", ela diz. "Aquilo sem o qual já não vemos nada. É uma forma de pensar, de raciocinar, mas só com o pensamento cotidiano". Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoal seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.

Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroço que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonado do meu pai, me exilei em outro país no apartamento dos meus avós mortos, assaltei a casa de alguns amigos em férias, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversão, um segredo. Foi o mais próximo que cheguei da clandestinidade em que meus pais viveram durante a ditadura argentina. Buscar a solidão para escrever talvez tenha sido minha maior resistência ao ruído do mundo, e minha única forma de aventura.

A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja. Fecho uma porta e é como se nada fechasse: o mundo está aqui dentro comigo, aflito, estridente. Quando consigo ignorar seus apelos, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase da vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével.

Já ninguém escreve só, em todo caso, por mais isolado que se creia. Por anos acreditei na figura do escritor solitário, soberano, decidindo com autonomia o tema de seu livro, sua forma, seu estilo. Hoje escrever se fez ato coletivo, dialógico, debatemos entre muitos o que é cabível, desejável, digno de repúdio. Acho que criaremos uma literatura melhor nesse processo, mais humana, mais sensível. Mas também perderemos muitos livros, perderemos a experiência que Duras descreve com entusiasmo, o escritor ainda sem tema diante de uma imensidão vazia. A escrita de mãos vazias, de mente vazia, aberta à aventura do livro por vir, desconhecido. Hoje há escritores que não escrevem porque aguardam uma aprovação prévia, própria ou alheia, que não lhes chegará nunca.

"Escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos", chego à frase mais célebre de Duras, quase no fim de seu ensaio, quando ela já sabia o que escrevera. Tem razão ela, escrever pode ser isso, como foi hoje para mim, decidindo eu mesmo o que escreveria, sem atender ao apelo das notícias, sem responder a um presumível anseio coletivo. E, no entanto, vejo agora que tinha pouco a dizer, que inventei algo a escrever enquanto escrevia só para fruir da solidão que enfim criei, precária e fugidia. Só para fazer da escrita um exercício prazeroso e intempestivo, fútil e livre.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL