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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A revolta da mentira

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) discursa em tom golpista na Avenida Paulista, em São Paulo - Bruno Rocha/Enquadrar/Estadão Conteúdo
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) discursa em tom golpista na Avenida Paulista, em São Paulo Imagem: Bruno Rocha/Enquadrar/Estadão Conteúdo

Julián Fuks

Colunista do UOL

11/09/2021 06h00

Entrará para a incrível e triste história do nosso continente o dia em que milhares foram às ruas para defender seu insofismável direito à mentira. Historiadores o relatarão com um sorriso discreto nos lábios, escritores versados em realismo insólito o narrarão entre a galhofa e a melancolia. A horda pálida e sedenta por sórdidas fantasias tomou desde cedo as capitais do mais vasto país e, com gritos de decifração difícil, pôs-se a exigir que lhes deixassem mentir, e ouvir suas mentiras antigas, e propagar suas novas mentiras, e adorar seus mentirosos prolíficos. Os cartazes, em bilinguismo falso, naturalmente mentiam: o que pediam era a liberdade de dizer verdades impávidas sem serem cerceados, punidos, malquistos.

Para isso, pelo direito de continuar a ludibriar a si mesmos, resolveram atacar todo resquício de democracia que ainda exista nestas paragens, agredir o sistema eleitoral, pedir a dissolução do Supremo Tribunal Federal, convocar a intervenção militar que décadas antes já fizera sua hedionda alegria. Uma tal turba, que poderíamos julgar desamparada e perdida, foi acolhida pelo líder máximo da nação, não por acaso também o líder máximo da revolta da mentira. Em seu discurso, em indignação falsa, ele naturalmente mentiu: louvou a verdade, a vontade do povo oposta aos juízes que o investigam, afirmou que não mais acataria as decisões da Justiça. Jamais saberemos se acreditava no que dizia: um grande ideólogo da mentira está sempre no tênue limiar entre enganar os outros e enganar a si.

O ponto culminante de toda essa farsesca celebração da farsa deu-se nas horas seguintes. Revoltosos reunidos de vários cantos do país, atentos às notícias que recebiam em suas redes de intrigas, urraram, silvaram, emocionaram-se com a tomada do poder. O simulacro de presidente declarara enfim, diziam, o tão almejado estado de sítio, significando que assim atribuía a si poderes suplementares, que logo distribuiria com generosidade entre os heróis da conquista. Não houve registro, até onde se sabe, do exato momento em que a vitória da mentira foi desmentida. É possível que, em algum lugar do país, os insurgentes continuem a urrar e a silvar e a chorar lágrimas turvas.

No dia seguinte, a reação foi a esperada: a sequência interminável das demais autoridades do país afirmando que tudo aquilo havia sido inaceitável, intolerável, inadmissível. Algo que não demorou a se revelar, por si próprio, uma mentira, uma vez que tais autoridades, terminadas as suas declarações assertivas, já se viam de imediato dispostas a aceitar, a tolerar, a admitir tudo até a próxima desfeita. Na próxima oportunidade nada disso escapará impune, disseram muitos com o dedo em riste, versados também eles no imemorial exercício da pantomima.

Baixada a euforia, o aprendiz de ditador se sentou em seu gabinete a fim de retomar a rotina. Mandou um áudio à frente insurreta dos caminhoneiros pedindo que desbloqueassem as estradas e voltassem para casa, mas o áudio foi julgado falso e ali eles permaneceram. Achegou-se à escrivaninha para escrever uma nota à nação, uma carta sensata e bonita que apaziguaria os ânimos e o devolveria à normalidade já tão hostil. Mas nenhuma palavra lhe sobreveio, como seria de se prever: escrever não chega a ser um talento seu, e menos ainda se o que lhe exigem são mentiras mais sutis, não as bravatas ruidosas que constituem de fato o seu domínio.

Antes que sua mente se fundisse diante daquela ominosa página em branco, ele encontrou enfim a solução e fez voar até si o antigo presidente ilegítimo, mestre em resolução de crises golpistas e doutor em escrita mesoclítica. Não se importou naquele instante com os memes que decorreriam do convite, com o vídeo em tempo invertido que o mostraria devolvendo a faixa presidencial ao velho homem que agora o salvava de sua carência criativa. Só o que importava era que a grita se dissolvesse, por um momento apenas, quiçá por algumas semanas, até que ele possa idear uma forma nova e vociferante de agredir a república e transpassar os limites da democracia, rumo ao falso golpe que um dia surpreenda a todos e a si e se revele efetivo.

Infelizmente, dirão os historiadores futuros perdendo por um instante o sorriso, infelizmente toda essa estapafúrdia teia de mentiras é real demais para que possamos rir. A realidade é uma doida varrida, dirão os escritores futuros ecoando Eduardo Galeano, mas dos doidos, para segurança de todos, é sempre importante ouvir os delírios.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL