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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O fim do fim do mundo: dias melhores nos aguardam

Pai e filha caminham no mar - pixdeluxe/Getty Images
Pai e filha caminham no mar Imagem: pixdeluxe/Getty Images

Julián Fuks

Colunista do UOL

17/07/2021 06h00

Sente-se um fim, não se sente? Tenho adivinhado sob as máscaras sorrisos discretos, tenho visto nos olhos de muitos um brilho improvável, uma alegria furtiva. Há nas ruas um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como, e tem feito uma parte da dor arrefecer. Não é? A dúvida não se desgarra do sentimento, mas não o invalida: é quase nítida a sensação de que vivemos dias um pouco melhores, ou que dias muito melhores já não demoram a acontecer. Está claro que nada acabou, que ainda há razões para penar, se proteger, se indignar, e que tais razões não se anulariam de repente. Mas, não sei, sinto que já começou: que nada acabou, mas tudo começa a acabar.

Talvez seja porque tomei a vacina, e assim vejo desaparecer em mim um sutil medo da morte, que me habitava quase imperceptível, e vejo aparecer diante de mim um mundo renascido. Talvez seja pelo desfile virtual dos amigos protegidos, celebrando a vacina que enfim receberam, cada um deles a salvo, professando palavras de luta, confessando uma emoção incontível. Vejo seus rostos, ouço suas vozes, e sinto que se fazem palpáveis os abraços que logo nos daremos. Talvez seja pelos números que se amenizam, pelas curvas dos gráficos em acentuado declínio, e já aprendemos que as curvas não são curvas, que os números não são números: que há nos algarismos vidas insondáveis, vidas que já não serão descartadas tão massivamente. Incertas e esquivas têm sido as palavras, mas há, sim, algo nisso tudo que se aproxima do alívio.

O fim do mundo está chegando ao fim. Por isso, por esse paradoxo que se faz vívido, a palavra "fim" não chega a dar conta do sentimento, quase que o contradiz. Vínhamos presenciando um mundo saturado de fins, carregado de destruições cotidianas e prenúncios mortiços. Um mundo em que o fim acontecia por toda parte, ou podia acontecer a qualquer instante — sendo essa, justamente, uma das definições modernas para a noção de crise. Se lentamente vamos saindo dessa crise é porque já não vislumbramos alguns dos desfechos mais soturnos, ou porque já os enfrentamos em nossas piores noites, e agora começa a amanhecer o dia seguinte. O que desponta, então, não é um desfecho, e sim um início possível, uma aurora de contornos indistintos.

Se me deixo assumir essa percepção tão tênue é por uma razão maior, motivo de um sorriso menos discreto: porque vejo a se desmontar a grande máquina produtora de fins, esse governo feito de homens trágicos e destrutivos. Eles ainda estão lá, ainda nos governam, ocupam os mesmos cargos, repetem suas barbaridades tão conhecidas, desempenham dia a dia seus ofícios sombrios. Nada disso esconde o fato de que eles estão perdidos e desamparados, eles definham, uma condição que o presidente chega a manifestar com ruído em seu próprio corpo, sintomaticamente. O que lhes falta não é o poder, e sim a promessa de poder futuro, sem a qual todo governo perece.

Uma promessa de futuro: eis o que o fim desses dias atípicos há de nos restituir, eis o que nos vai sendo pouco a pouco devolvido. Por mais de um ano todo futuro pareceu duvidoso, uma projeção inocente e irrealista. A própria literatura, onde costumamos abrigar alguns de nossos anseios mais felizes, fez-se a expressão de um futuro inexistente, assolado pelos temores do presente. Nas primeiras ficções pandêmicas, o futuro oscilou entre duas versões igualmente terríveis. Que, encerrada a quarentena, todo desejo estaria vencido e ninguém mais iria querer sair, como no conto de Etgar Keret do Projeto Decamerão. Ou, o contrário disso, que todos acabaríamos nos entregando a uma histeria coletiva, uma festa infinita e mortífera, "um fim travestido de reinauguração", como bem descreveu Bernardo Carvalho em O último gozo do mundo.

Não sei, embora ainda relevantes e expressivas, já não sinto realistas essas leituras extremas, sinto que algo de melhor o futuro nos reserva. O possível fim do fim do mundo, ou ao menos o prenúncio de fim do fim do país, talvez nos permitam ficções mais serenas. "A imaginação se encontra sempre no final de uma era", escreveu o poeta Wallace Stevens. Se agora uma era começa a encontrar seu fim, será tempo de fundar um mundo bem diferente deste que nos mantém cativos. Será tempo de imaginar outros caminhos, outros destinos, abraços palpáveis, brilhos improváveis, alegrias furtivas. Sim, eu acho que se sente um fim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL