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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O dia em que a poesia derrotou a calamidade

Cartas "A poesia está na rua" de Maria Helena Vieira da Silva - Reprodução
Cartas "A poesia está na rua" de Maria Helena Vieira da Silva Imagem: Reprodução

Julián Fuks

Colunista do UOL

26/06/2021 06h00

Algo em nós definha, eu sinto em meu próprio corpo, a cada noite que passamos discutindo as linhas de um contrato de vacinas, ou contando mortos com minúcia de algarismos, ou maldizendo a última declaração de um homem desprezível. Sei que tudo isso é imperioso, sei que o país nos exige a vigília. Sei que tantos precisamos ser, a cada noite, sentinelas insones a guardar o intangível. Mas, não sei, há momentos em que me vem a suspeita contrária: de quanto é necessária a distração, a abstração, o devaneio. Ou, se nada disso, de quanto é necessária a poesia.

A poesia tem sido convocada diversas vezes à frente de batalha. "Na luta de classes", dizem os versos tão difundidos de Paulo Leminski, "todas as armas são boas: pedras, noite e poemas." Versos célebres têm composto há tempos os cartazes das passeatas, sagazes e assertivos, dizendo o que não diríamos em nossas palavras diárias. A poesia luta e sabe lutar, sabe ser lâmina a ferir o peito do desastre, mas ainda não é isso, desconfio, o que a torna necessária. Não é para a luta que serve o poema, objeto de esquiva finalidade. É a luta que se serve do poema, para não enrijecer, para não empedrar.

E, no entanto, "um poema não é mais do que uma pedra que grita" — foi o que descobri ao roubar algumas horas do noticiário e me pôr a ler o novo livro de Ana Martins Marques, Risque esta palavra. Livro vasto de pouco mais que uma centena de páginas, obra maior de uma poeta menor grandiosa, que em nada deseja fugir à sua menoridade. O grito de suas pedras não é um grito de luta, não é palavra de ordem, retórica, enfática. É a palavra em ordem, é a ordem da palavra renovada, um grito paradoxal em que cada palavra "se parece com um buraco cheio de silêncio".

Talvez esteja ali o silêncio de que precisávamos. Há luto em suas páginas, a morte abre a porta e se senta à mesa, a morte é uma visita prevista, embora ainda indesejada, entre os livros e discos, entre as plantas e os gatos ao sol. O luto que é de todos nós reluz ali com brilho improvável, desponta com surpresa e sensibilidade, em tudo o que tem de indizível, de incomensurável. "Quem sabe tudo o que morreu com quem morreu?", pergunta a poeta, e o leitor se cala. Mas a poeta então escapa ao luto e procura a vida em sua contraface, risca a palavra luto e abre outra possibilidade: "Quem sabe o que essa morte trouxe à vida?" A conclusão já se lia nos primeiros versos de "Finados": "Estava a morte por perto e por isso a vida armou sua vingança".

A vida que se vinga nas páginas do livro é a desforra dos que andam desvalidos, assombrados, dos que "não têm mais pátria, seja porque se exilaram, seja porque o país se exilou de nós e toma a forma dos nossos pesadelos". Para eles, para nós, Ana envia seus "postais de parte alguma", a nos devolver os lugares que já esquecemos, os lugares perdidos, desconhecidos, inexistentes. Para eles, para nós, Ana expõe suas "noções de linguística", poemas que pensam a própria língua em que estão escritos, e as tantas línguas estrangeiras em que ainda não existem, e assim revelam o mistério do mundo ao mesmo tempo em que o emudecem.

Na poeta, em suas palavras, em seus objetos cativos, em suas xícaras e colheres reluzentes, a humanidade inteira chega a resplandecer num breve relance, que se confunde com o rosto dela ou com o nosso rosto, e então desvanece. Ana logo retorna ao silêncio, e nos devolve ao ruído do presente, do país, das nossas vozes estridentes. Poderia ser o caso de acusar sua deserção, o desamparo em que ela nos deixa, entregues sem mais remédio, sem mais vacina, à indigência do nosso tempo. Mas não há nada a acusar aqui, e sim a agradecer.

Em minha estante vejo um livro que nunca li, O dia em que a poesia derrotou um ditador, e por um átimo lamento a grandiloquência de seu título, sua pretensão desmesurada. Mais módico e mais discreto é o que espero da poesia, o fundamento de sua necessidade. Creio enfim entender como vence quando vence a poesia. Nesse dia ao menos, no dia em que li Ana Martins Marques, a poesia derrotou a calamidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL