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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para o Estado brasileiro, vale se distrair de um genocídio com uma chacina

07.mai.2021 - Moradores protestam contra a operação da Polícia Civil que deixou 25 mortos na favela do Jacarezinho, ontem, na zona norte do Rio de Janeiro - WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO
07.mai.2021 - Moradores protestam contra a operação da Polícia Civil que deixou 25 mortos na favela do Jacarezinho, ontem, na zona norte do Rio de Janeiro Imagem: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO

Julián Fuks

Colunista do UOL

08/05/2021 06h00

Estive a ponto de não mais ver, de não mais ouvir, de desligar a televisão quando tudo se mostrou tão sinistro, de escapar das notícias e me abrigar num mundo menos bruto, menos triste. Minha vontade era escrever hoje sobre algo leve, explorar pequenezas íntimas, buscar a beleza simples que tem redimido tantos dos meus dias. Mas não consigo, o Brasil não deixa, o Brasil é demandante e explosivo. O Brasil nos exige alerta máximo, é um país impossível para devaneios. Ser brasileiro é, às vezes, uma síndrome incompatível com a vida.

Para o Estado brasileiro, insaciável em sua pulsão destrutiva, não eram suficientes as milhares de mortes diárias causadas pela letalidade de um minúsculo vírus e uma maiúscula negligência. Para o Estado brasileiro, era preciso ainda invadir uma favela com farto armamento de guerra, era preciso abrir fogo no meio das avenidas, das ruas, das vielas, era preciso caçar até o limite algumas dezenas de meninos negros, era preciso, ao que parece, executá-los sumariamente. Para o Estado brasileiro, a melhor maneira de se distrair de um genocídio é com uma chacina.

Todos vimos. Foi manchete nos grandes jornais, ocupou longos minutos nos noticiários televisivos, gerou comoção mundial e repúdio por toda parte. E, ainda assim, sinto que vivemos numa sociedade preparada para se indignar e então seguir, sem mais nenhuma palavra, sinto que há décadas nos preparam para isso. Já aceitamos a função lesiva da polícia. Já entendemos que, em certos espaços de exceção, ela passa por cima de qualquer poder e qualquer direito. Num mesmo instante, ela define as leis, ela investiga, julga e executa a pena - sempre a mais desumana, sempre a mais cruel. Depois ela mesma apura a própria conduta e conclui que agiu bem, que foi soberana e justa: a polícia é generosa consigo mesma, como todo totalitarismo se permite ser.

Agamben já o disse no início do século, já descreveu como se dá o exercício do arbítrio no nosso tempo, em tantos lugares simultaneamente, em tantos regimes: "O totalitarismo moderno pode ser definido como a instauração, por meio do estado de exceção, de uma guerra civil legal que permite a eliminação física não só dos adversários políticos, mas também de categorias inteiras de cidadãos que, por qualquer razão, parecem não integráveis ao sistema." Não é preciso nenhum esforço para adaptar a declaração à nossa realidade e ao nosso momento: nesse trecho está descrita não só a contínua ação policial nas favelas a perpetrar a matança da juventude negra, mas também o franco desejo do presidente de aniquilar a todos os que ele despreza.

Como acomodamos esse excedente de violência, como somos capazes de tolerar esse grau de intolerância, como seguimos vivendo entre tanta morte cotidiana? O espaço de exceção talvez explique essa tendência geral à aceitação e ao esquecimento: aceitamos porque a invasão se dá a certa distância das nossas casas intocadas, se dá na precariedade do bairro pobre, do bairro negro. Vista de longe, a favela parece subsumida numa violência difusa, podendo acolher com tranquilidade mais um tiroteio, mais um morticínio. Vista de longe, a vida ali parece tão sofrida que, no julgamento sumário das consciências levianas, nem valeria a pena.

Há, no entanto, maneiras de galgar essa distância, maneiras de romper a segregação e desembrutecer sensibilidades. Uma delas, a mais indireta, é habitando esse espaço ficcionalmente, é frequentando-o pela literatura. Acabo de traduzir "Forças especiais", um romance da chilena Diamela Eltit que retrata de forma dura e potente uma comunidade sitiada por forças policiais, fustigada pela truculência, assombrada pelo medo. Ali, como aqui, a violência oficial é pervasiva e ininterrupta, é diária e inescapável, é parte de uma rotina carregada de coturnos e cassetetes, não é apenas algo que desponta nas notícias nos dias extremos.

A presença policial não oferece, no livro como na vida, nenhuma espécie de segurança, de conforto, de alívio em relação a outras violências. Pelo contrário, sua violência específica e enérgica vai se mostrando, a cada página, a cada dia, a mais inaceitável, a que mais provoca desesperança e desnorteio. A que se infiltra mais lentamente na pele de suas vítimas, a que cala mais fundo em seus ossos leves. Aquela que produz a raiva mais entranhada, e por isso se perpetua, por isso se replica infinitamente.

E, no entanto, há vida além dessa violência, ali a vida também se entranha e se perpetua, também se replica. Ali, como aqui, o estado de exceção encontra o seu contraponto num direito que nunca consideramos, um direito que a lei não contempla: o direito à resistência. É Agamben quem o busca na formulação criada para a Constituição italiana, depois descartada: "Quando os poderes públicos violam as liberdades fundamentais e os direitos garantidos pela Constituição, a resistência à opressão é um direito e um dever do cidadão." Eis o que nos resta neste país que nos rouba o direito à beleza, o direito ao devaneio: passamos então ao dever da resistência.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL