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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Colapso da linguagem: o que nossa escrita diz sobre o mundo em convulsão

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Julián Fuks

Colunista do UOL

20/03/2021 04h00

Seria possível contar uma história do nosso tempo apenas pelas indiscretas transformações na nossa linguagem cotidiana. Ou mais: talvez de nenhuma outra maneira a história recente seja contada tão dramaticamente quanto pelas alterações do modo como escrevemos, na grande convulsão que se vê nisso que julgamos supérfluo. A profusão caótica dos sinais de pontuação seguida de seu desaparecimento, o desmantelo do período em frases desconexas, a abundância de ícones e imagens em meio aos diálogos: tudo parece expressão de um tempo em que as palavras se fizeram imprecisas e insuficientes, esquivas e impertinentes. Um tempo de múltiplos colapsos em que muito mais eficaz tem sido falar sem palavras.

O primeiro traço de que me lembro desse alvoroço formal foi a explosão das exclamações. Algum dia, na euforia das novas mídias, difundiu-se o hábito de encerrar cada mínima frase com uma sequência incontável de exclamações, como se assim o leitor assimilasse todo o entusiasmo ou a indignação que motivava a mensagem. Já fazia décadas desde que Theodor Adorno, em seu ensaio "Sinais de pontuação", comentara quanto a exclamação se parece a um dedo em riste ameaçador, quanto é insuportável mesmo avulsa, por arrogar importância e autoridade às mais rasteiras banalidades. E então agora, nas redes sociais, as banalidades se faziam insistentes, vociferantes, enfáticas, como se ali para ser entendido fosse preciso sempre gritar.

Pouco ou nada posterior há de ter sido a proliferação das reticências, ao fim de cada frase ou mesmo antes do fim, atravessando o sentido e a respiração. Sobre as reticências, Adorno dissera ser a forma preferencial "para se deixar uma frase aberta e sugerir a infinitude de pensamento", ou a melhor forma de "simular essa infinitude" quando ela falta ao autor. Como conceber, pois, aqueles novos parágrafos pontilhados de pontilhados, em que as reticências se disseminam quase como uma corrosão? Ali o pensamento se fez tão infinito que se esgarçou, tornou-se vago e erradio, já não deixou muitas possibilidades para a coerência e o rigor.

Até aquele momento, o excesso parecia ser a marca central da nova comunicação, mas de repente os sinais de pontuação começaram a escassear. Exclamações e reticências não desapareceram de vez, é claro, mas passou a ser mais comum nas redes o diálogo rápido sem qualquer pontuação, prescindindo de vírgulas e pontos — já quase sem resquício de outros sinais mais sisudos, os professorais dois pontos, o excêntrico ponto-e-vírgula, o intrusivo travessão. E, para possível surpresa de algum leitor, à medida que foi perdendo espaço o ponto final, tornou-se sintomaticamente mais frequente a expressão "e ponto final" (em geral não sucedida de um ponto final), forma antipática e autoritária de encerrar uma questão.

"Quando se sacrifica o período, o pensamento perde o fôlego", diz de novo Adorno. Talvez para tentar cobrir o possível vazio de sentido que se abria com tal sacrifício, ou a incomunicação resultante dessa forma apressada e fragmentária de comunicação, foi que surgiu uma nova exuberância, um novo pendor pelo excesso.

Agora não mais de palavras ou de sinais conhecidos, mas de imagens e ícones. De um discreto início com sorrisos feitos de dois pontos e parêntese fechado (um código que, confesso, por alguns meses me resultou incompreensível), a ideia logo foi incorporada pela máquina na composição de um alfabeto de expressões faciais em círculos amarelos. O elemento kitsch e um tanto infantil da proposta não foi empecilho para que ela se propagasse nos contextos mais diversos.

Até então não passavam de manifestações rudimentares, ícones que aliviavam uma rispidez eventual, que concediam certo pesar a mensagens apressadas, que sutilmente flertavam — símbolos ainda subordinados às palavras. Era apenas o prenúncio de uma crise maior, da transformação bem mais radical que passaria pela emancipação das imagens. De fato, não haveria razão para que nos limitássemos aos símbolos oferecidos pela máquina, para que não nos permitíssemos criar as nossas próprias imagens, fixas ou móveis, mudas ou sonoras. Com a liberdade e a criatividade próprias dos períodos convulsivos, deu-se então a explosão de memes, figurinhas e gifs, numa feroz invasão de espaços antes dominados pelas palavras.

"A história se sedimentou nos sinais de pontuação, e é justamente essa história (...) que a partir deles nos olha de frente, congelada e ainda um pouco trêmula", Adorno resume. Num mundo de sentidos corroídos, da improbabilidade de qualquer concórdia, num mundo em que as palavras se fizeram quase sempre repetidas, convencionais, dogmáticas, falar não tem bastado, escrever tem sido um exercício inócuo. Por ora, em seus melhores momentos, enquanto elas próprias não se tornam impotentes e obsoletas, as imagens têm conseguido dizer o que as palavras não alcançam. São risíveis e clamam seu riso, são irônicas e alardeiam sua ironia, para que não escape a ninguém o seu sentido. Pode ser o colapso de certa linguagem, sim, mas não deixa de ser também a forma mais eloquente de expressar o mundo em colapso em que estamos imersos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL