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Julián Fuks

Às vezes, nada é mais límpido do que a vida sob a tempestade

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Julián Fuks

05/12/2020 04h00

Porque a tarde era farta e vaga, e porque caminhávamos a esmo, e porque o vento já começava a nos incomodar, foi que nos abrigamos naquele teto, foi que paramos para tomar um sorvete. O acontecimento é simples, absolutamente banal, e no entanto guarda em si algum matiz de excepcionalidade, desses que exigem das palavras a precisão que elas nunca conseguem alcançar. Já terminávamos o sorvete quando desabou a chuva impetuosa, a discursar com seus sussurros incompreensíveis, a esbravejar contra as árvores, o telhado, a calçada.

Nada a fazer a não ser esperar, eu disse, e minha filha aceitou a orientação com incomum tranquilidade. Por alguns segundos só olhou as gotas próximas que respingavam em seus sapatos. Depois estendeu as mãos e sentiu a frieza dos pingos em suas palmas. Deu então um passo à frente e molhou os braços, e logo os ombros, as escápulas. Sentiu como pouco a pouco os cabelos iam aderindo à testa, às bochechas, à nuca. Estou molhada, papai, vai ficar frio, é melhor a gente ir para casa. Sua lógica me pareceu irrefutável.

A tarde agora era uma torrente fria a eriçar os nossos poros. Corríamos pela rua saltando as poças menores, hesitando um segundo ante as maiores, sem atentar à inutilidade do cálculo, como se não soubéssemos que a chuva logo cobriria por completo os nossos corpos. Tulipa apertava a minha mão com uma pressão inesperada, mas não se importava em molhar também os dentes, que exibia num sorriso largo. Quem a via passar também sorria, somava ao dela o seu riso - não só para mim ela era nesse instante a própria encarnação da alegria, do prazer, da jovialidade.

Sua alegria se fizera minha e eu também era mais jovem. Sentia que a chuva que me molhava no presente era feita de chuvas remotas, que um tempo fluía de outro tempo e tudo eram águas passadas. A tormenta já não rugia, percutia nas pedras da calçada uma cadência animada, a tormenta festejava, e eu tentava acompanhar o seu ritmo com passos vivos e desastrados. "Vai desabar água", Gero Camilo cantava de trás de alguma janela insondável, e uma massa animada respondia de dentro dos meus ouvidos, "desabar água pra lavar o que tem que limpar, pra lavar o que tem, vai desabar água e é pro nosso bem".

Insolitamente, indubitavelmente, o que vivíamos era um carnaval particular, o fim eufórico de mais um bloco, a acabar em tempestade como todo bloco tem que acabar. Minha filha me puxava adiante e exigia uma música a mais, era por seus dedos que Caetano entoava, "não se esqueça de mim, não se perca de mim, não desapareça". E com meus dedos eu cumpria a promessa, não desaparecia, em vez disso seguia a sua toada e sussurrava também uns versos, "a chuva tá caindo, e quando a chuva começa, eu acabo de perder a cabeça." E de repente já não eram só nossos os dedos entrelaçados, eram muitos os amigos que nos acompanhavam na rua desolada, muitos os abraços que se renovavam, os corpos com que agora eu me embalava, e me embolava, e me molhava de chuva, suor e sorvete.

Em casa chegamos só nós - Caetano e toda a multidão encharcada preferiram ficar do lado de fora. Logo estávamos secos e aquecidos e recompostos, o fim mais confortável que sucede o fim de todo bloco. Era uma terça entre outras terças laborais, e eu me sentei à escrivaninha disposto a trabalhar, como faria no dia seguinte, e no dia seguinte, como faço hoje. Mas não posso, sinto que não sou capaz de escrever o texto habitual, sinto que, ante a memória, o presente é de uma indigência atroz. Nada mais tenho a dizer sobre a pandemia, nenhuma vontade de falar sobre a promessa de vacina, e já percebi que precipitar palavras novas sobre os velhos homens que nos governam é chover no inundado, no lamacento, no afogado.

Em vez disso extravio o olhar no vazio, passeio entre estantes, folheio livros. Num volume amarelado, me deparo com uma crônica breve de Rubem Braga, uma crônica em que ele afirma haver outro céu por cima do breu de uma tempestade, por cima das nuvens torpes, um céu límpido, perfeito, imaculado. Faço a ele uma reverência antes de discordar: às vezes, nada é mais límpido do que a vida sob a tempestade.