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Julián Fuks

Maradona: mais que jogador, um dos maiores artistas subversivos do século

Maradona comemora gol da Argentina contra a Grécia na Copa do Mundo de 1994 - Brian Snyder/Reuters
Maradona comemora gol da Argentina contra a Grécia na Copa do Mundo de 1994 Imagem: Brian Snyder/Reuters
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

28/11/2020 04h00

Alguns insistem em equipará-lo aos deuses, esses seres grandiosos e exigentes que inventamos. Eu sinto mais potente preservá-lo entre os humanos, esses seres que não conseguimos inventar, que não entendemos por completo, não assimilamos, esses seres que oscilam a cada ato entre o encantador e o infame. Maradona foi mais um entre nós, foi imensamente humano, e por isso capaz de expandir a percepção que temos dos nossos limites, e da nossa potencial imensidade.

Sim, não foi muito mais que um jogador de futebol, com fulgurante e explosiva personalidade. Mas às vezes basta se aferrar a uma atividade menor, mais uma entre as distrações dominicais, para alcançar enorme impacto, para tocar a história. Não será isso toda arte, uma forma de ação enviesada? Uma intervenção no mundo realizada de maneira tortuosa, presa aos limites sempre expansivos de sua linguagem, mas ainda assim capaz de provocar paixão e sobressalto? Nesse sentido, Maradona talvez tenha sido um dos grandes artistas do século passado, e ainda não terminamos de entender a dimensão de sua obra.

Maradona foi sobretudo um artista engajado - e aqui importam pouco as fotos que tirava com líderes mundiais, as tatuagens de Fidel Castro e Che Guevara, as camisetas provocativas que usava, as declarações que fazia, por vezes simplistas e histriônicas. "Se não tivesse sido um jogador, ele teria sido um revolucionário", quem afirma é o cineasta Emir Kusturica, mas também essa declaração parece insatisfatória. O engajamento do artista se manifestava sobretudo na execução de sua obra, e não fora dela. Maradona não ficou aquém de ser um revolucionário: foi um guerrilheiro, um subversivo dentro de campo.

À diferença de outros jogadores grandiosos, Pelé e Messi por exemplo, Maradona não se sobressaía em todos os jogos, não jogava alheio às circunstâncias. Tinha uma percepção aguda do momento, e deixava que seu próprio corpo fosse atravessado pelas tensões do contexto histórico. Concebia o futebol politicamente, concebia o mundo politicamente, e sua ação em campo era resposta a essa premência do político, e não a simples busca de uma eficácia esportiva. Levava ao campo a agitação e a euforia que regiam sua vida, mas ali, paradoxalmente, o que realizava era a explosão da contenção, jogadas suntuosas feitas de movimentos precisos, de toques sutis e agudos como pinceladas.

Sua obra maior tem sido justamente exaltada: os dois gols que fez pela Argentina contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986, no primeiro enfrentamento entre os países desde a Guerra das Malvinas. "Jogávamos pelos mortos", é Maradona mesmo quem diz, "era uma guerra futebolística a que travávamos". O primeiro dos atos memoráveis foi seu gesto mais perfeito de subversão, o punho em riste com que venceu o goleiro rival - numa quebra das regras do jogo como jamais conseguiria repetir, desastrado em contravenções posteriores. O segundo ato, cinco minutos depois, foi o gol mitológico que reencarnou a própria guerra alterando o seu final: era um só frágil combatente argentino contra o poderoso exército inglês, vencendo com cortes certeiros todo o pelotão adversário. A obra é a um só tempo a representação da guerra e sua sublevação pela estética, sua sublimação.

Mas, claro, Maradona não chegaria a ser um poderoso artista político se tivesse realizado uma única obra. Foi muito além, em incontáveis circunstâncias. Instalou seu ateliê principal no estádio do Napoli, e ali se pôs a executar sua guerrilha diária, sua encenação futebolística de uma luta contra o poder central. "Havia a sensação de que o Sul nunca poderia ganhar do Norte", Maradona explica o contexto de sua chegada a Nápoles, revelando assim a transgressão de opressões que se tornara seu horizonte, e que ele logo se mostraria capaz de realizar. Não é arbitrária sua escolha de palavras: Sul e Norte vão além da Itália, e transcendem o futebol. São categorias geopolíticas maiores, abarcam outros desequilíbrios, outras desigualdades que a cada jogo ele se empenhava em debelar.

Eis um traço marcante de sua grandiosidade. Maradona foi o maior jogador de seu tempo, há quem o veja como o maior da história, e no entanto jamais se deixou assimilar pacificamente pelo centro, pelo poder que ele julgava indecoroso. Preferiu sempre a posição de insurgente, rebelde, outsider, afrontando noções consabidas, afrontando a própria FIFA, autoridade maior de sua atividade - num gesto que hoje sabemos justo, e que lhe rendeu consequências pesadas. Eis um traço maior do mito que ele soube se tornar.

Vemos agora a comoção a tomar as ruas, incontestável, a se espalhar pelo mundo inteiro nas capas dos jornais, ante a triste notícia de sua morte. Quantos artistas de nosso tempo, quantos ativistas políticos, serão capazes de gerar tamanha paixão, tal grau de engajamento? Acho que podemos prescindir, por ora, das comparações técnicas e das exaltações divinizantes. Foi-se mais um homem comum que podemos admirar ou rechaçar; foi-se um artista singular cuja obra permanece indevassável