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Julián Fuks

As crianças perdidas por Trump: do choque à luta contra o esquecimento

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

31/10/2020 04h00

É chocante como tem durado pouco nosso compromisso com o choque. A cada semana somos arrebatados por um novo acontecimento enfurecedor, uma ação violenta, uma frase violenta, o projeto de uma violência futura, e no entanto logo sobrevém o próximo acontecimento para nos fazer esquecer o anterior. Nossa indignação se faz efêmera, as notas de repúdio se acumulam umas sobre as outras e já não alcançam o impacto costumeiro, por tudo os executores da violência passam ilesos, triunfantes, indiferentes. Nenhuma culpa recai sobre eles, como se suas ações tão brutais não passassem de provocações menores, sem peso, sem história.

E então, por vezes, rompendo a estridência do presente, uma ação do passado ressurge e mostra seus danos reais, seu efeito nefasto sobre vidas muito concretas. Foi o que se viu há alguns dias numa notícia internacional que não recebeu a devida ênfase: das milhares de crianças arrancadas de suas famílias na fronteira entre Estados Unidos e México, quando essa prática grotesca era o cerne da política antimigratória de Donald Trump, 545 ainda não puderam reencontrar seus pais, correndo o risco de ficarem abandonadas para sempre. A separação das famílias foi proibida pela justiça estadunidense, e o governo não investiu recurso nenhum em promover o reencontro. Pelo contrário, continuou a prender e deportar os imigrantes sem atenção alguma aos filhos que ficavam, chegando a perdê-los de vista por completo.

Ler uma notícia dessas é ser devolvido às imagens da época, muito menos longínquas do que indicaria o nosso sentimento. É voltar a ver os barracões apinhados de crianças aos prantos, desnorteadas, encolhidas em camas provisórias que agora se faziam perenes, ou agarradas às paredes de uma prisão insensata, distópica em sentido pleno. É recordar o homem que tentara atravessar a nado um rio bravo, com sua filha amarrada às costas, apenas para morrerem ambos afogados na margem oposta, incapazes de alcançar sequer um novo solo, que dirá um novo sonho. É lembrar também o sorriso triste que nos foi autorizado, com as gangorras instaladas através do muro da fronteira, crianças que subiam e desciam uma de cada lado daquela ignóbil barreira.

Agora chegamos a mensurar a dimensão e a natureza da catástrofe. Valeria Luiselli já usara essa palavra, já tentara nos avisar com seu "Arquivo das crianças perdidas", um romance poderoso e disruptivo que retrata sem crueza a violência crua dessa zona fronteiriça. Um romance que retrata também a vida rica e movimentada dos que permanecem alheios a tantas dores e sofrimentos, dos que seguem na mansidão de seus dias, compreensivelmente, sem atentar às muitas tragédias circundantes. "Caminhamos até a Broadway, no fim da manhã, e a cidade estava alvoraçada, os prédios altos e sólidos, o céu de um azul imaculado, o sol reluzente - como se nada de catastrófico estivesse acontecendo".

O que Luiselli narra é também uma tomada de consciência: a passagem de uma noção difusa do horror que domina o nosso tempo a um conhecimento imediato de suas consequências, de sua concretude aterradora. Num quadro desses, quase paradoxalmente, revela-se não só o tamanho exato da violência, mas também o que ela tem de imensurável, as formas invisíveis como vai atingindo tantas outras pessoas, tantas famílias não localizáveis. Toda uma horda de imigrantes que não estão presos nas fronteiras, que não foram destituídos de seus pais ou de seus filhos, mas cujas vidas são afetadas duramente pela política de tolerância zero à diferença.

Devo ser sincero: há outra razão para que eu tenha resolvido escrever sobre essa notícia distante. O número de crianças perdidas me remete sem demora a outras crianças arrancadas de seus pais, a outra violência oficial, aos quinhentos bebês sequestrados pela ditadura argentina. Desde que algo comecei a compreender, sobre a trajetória da minha própria família e sobre o trauma daquele que é também o meu país, acompanho com toda a atenção a busca das Avós da Praça de Maio, a tentativa incansável de mitigar a dor longeva das vítimas. Não consigo expressar exatamente por que, mas há algo de maior nesse acontecimento atroz, e há algo de maior na luta que essas mulheres empreendem, algo que eu insisto em querer absorver.

Ali, como agora nos EUA, como também de muitas maneiras no Brasil, não está em questão apenas a vida das vítimas, e a necessidade imperiosa de reparação a cada uma delas. O que está em jogo é o destino de cada país, a tensão entre forças opostas, o tremor de sua fronteira interna. A longa disputa entre um projeto sistêmico de supressão de tudo o que se julgue indesejável e subversivo, e uma resistência contra essa intolerância e brutalidade política. É nessa resistência, nessa luta contra o esquecimento, que eu confio para nos purgar das falhas da nossa memória recente, para superar o imediatismo do nosso choque e da nossa indignação, para nos devolver à busca imemorial por justiça.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.