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Julián Fuks

Nossos ídolos serão sempre os mesmos -- sugiro que os abandonemos

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

24/10/2020 04h00

Nossos ídolos estão nus, e poucas coisas em nosso tempo parecem mais reveladoras do que essa nudez. Um grande jogador condenado por um crime hediondo, outro preso no exterior por alguma trama obscura envolvendo falsos documentos, um terceiro tão enredado em sucessivos problemas que é mais capaz de colher indignação do que apreço - para ficar apenas no âmbito futebolístico, embora pudesse seguir por outros meios. Nossos ídolos estão nus, e os únicos suspiros que provocam são de derrisão e lamento.

Diante de tal constatação, seria razoável aderir à nostalgia costumeira e afirmar que temos escolhido os ídolos errados, que já soubemos definir melhor os objetos da nossa adoração, que no passado éramos mais capazes de distinguir entre os íntegros e os sórdidos. Mas me pergunto se não existirá uma questão anterior, se não haverá algo de errado na própria concepção de ídolo. Um equívoco conceitual, talvez, em julgar que alguém exímio no que faz, excepcional em seu ofício, seria mais virtuoso e mais digno que os demais em todos os outros aspectos. Um engano do pensamento, uma ilusão que nos permitimos, a ideia de que tais sujeitos deveriam nos servir de exemplo e fazer por merecer a nossa admiração irrestrita.

Infeliz o país que não tem heróis, poderia lastimar alguém, ecoando as palavras de um personagem de Bertolt Brecht, insinuando que uma terra sem ídolos é um arremedo de país, a meio caminho de se constituir. Ao que responderia um outro personagem de Brecht, Galileu Galilei, na sentença que se fez mais célebre: "Infeliz o país que precisa de heróis". Difícil negar que precisamos de algo neste momento, que precisamos de sonhos, quimeras, utopias, mas o personalismo e o culto à celebridade que temos visto nos nossos dias não poderiam estar mais distantes desse anseio coletivo.

Em teoria, já há alguns séculos abandonamos a frágil visão de mundo que diferencia heróis e vilões, ou que traça uma linha intransponível entre os reles mortais e os grandes ídolos. O romance, gênero literário que melhor encampou o espírito da modernidade, teve como um de seus traços fundantes o abandono dessas separações irreais. Esforçou-se em dispensar todo maniqueísmo de assimilação fácil, e se comprometeu ao máximo com a complexidade, com a compreensão do indivíduo em suas infinitas nuances, generosas e mesquinhas, valorosas e execráveis. A partir de então não faria sentido a distinção prévia entre bons e maus: cada sujeito seria estimado ou desprezado por suas ações, já não por sua inapreensível natureza, por sua suposta essência.

Heróis não são verossímeis para a sensibilidade do presente. A falibilidade do ser humano, sua imperfeição crônica, é uma das poucas certezas que fomos capazes de preservar ao longo desses séculos. Me pergunto então por que esse estranho hábito de constituir idolatrias, de incensar sujeitos tão falíveis e acompanhar com tal minúcia suas jornadas heroicas. Inevitável que nos frustremos com tudo isso, que nos sintamos traídos, ou ainda, na atrocidade do caso de Robinho, que fiquemos chocados com a desumanidade daquele que seguimos desde a primeira demonstração de virtuosismo. Secretamente, sempre esperamos que um ídolo desminta a nossa rara certeza e se mostre além do humano; quando fica aquém, nossa decepção é profunda.

A indignação tão justa nesse caso recente, a tão necessária mobilização da opinião pública, não chega a esconder um outro aspecto do nosso insólito culto a heróis tão pouco heroicos: o gozo com que derrubamos aqueles que alçamos aos postos mais altos. Algo que se aproxima da morbidez, e se manifesta na tremenda atenção que dedicamos a cada detalhe da queda, a cada passagem de sua morte simbólica. Será para isso que constituímos os falsos heróis? Não para que reinstaurem nossa fé na perfeição do ser humano, mas para vê-los caídos e assim sentir desmentida a nossa inferioridade, nós que não somos ídolos, que não passamos de seres ordinários, distantes da excepcionalidade?

Eis então mais uma dimensão em que nos mostramos falíveis, agora não tanto como indivíduos, mas como coletivo, numa cultura disposta a produzir e consumir o máximo de informações sobre alguns de seus sujeitos mais repreensíveis. Mais lúcido, mais razoável seria realizar agora, como sociedade, mesmo que tardiamente, aquilo que há tempos o romance se empenhou em fazer em seus domínios: romper o culto às supostas figuras extraordinárias e voltar nossa atenção aos homens comuns, às mulheres comuns, em sua procura comum por algum sonho, uma quimera, uma utopia, em sua batalha comum por justiça, em sua comum humanidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.