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Julián Fuks

Sobre o medo e a coragem: a dinâmica de um tempo de sobressaltos

Getty Images
Imagem: Getty Images
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

10/10/2020 04h00

Com uma brevíssima anedota, Eduardo Galeano define o que é o medo. Conta de um porquinho-da-Índia que ganhou de presente certa manhã, preso numa gaiola. Ao meio-dia, o escritor abriu a gaiola e foi embora. Quando voltou, já era noite, e o animalzinho continuava ali no mesmo lugar, "agarrado às barras, tremendo pelo susto da liberdade".

Leio a história e me deixo tomar por um desejo remoto, nostálgico, um desejo de simplicidade. Que bonito seria que tivéssemos essa possibilidade, que vencêssemos o medo e nos fizéssemos livres apenas abrindo a porta e partindo mundo afora. A vida, o que ela quer da gente é coragem, citaríamos a mais célebre frase de Guimarães Rosa e cairíamos na estrada, dispostos a retomar tudo o que nos roubou o inexorável medo da morte. Mas não, os tempos simples, os tempos heroicos, se alguma vez existiram, já pertencem ao passado. Hoje, sair ou não sair da gaiola pressupõe um cálculo complexo de riscos pessoais e comunitários, cujo resultado final envolve o dano possível que infligiremos ao outro no ansiado exercício da nossa liberdade.

Nestes tempos de aflição e sobressalto, o medo talvez seja fácil demais de definir, visível como está, palpável por toda parte. Definir a coragem é tarefa muito mais complicada, numa realidade que parece tornar insensato todo ato mais óbvio de valentia, toda ação intempestiva ou eufórica. O que a vida tem querido da gente, muito menos que coragem, é uma dose elevada de calma, de paciência, e o máximo controle da ansiedade. Se ao falar do medo Galeano consegue contemplar um dos nossos mais íntimos sonhos, ao falar da coragem ele nos perde por completo: lista os gestos heroicos de guerrilheiros, generais, ministros revolucionários; afasta-se de vez da miríade de decisões ínfimas e banais que cada novo dia exige de nós.

Coragem é mais uma entre as palavras que perdemos num debate público que insiste em se brutalizar. Tornou-se bordão vazio de empreendedores, ou exortação repetida ao infinito por intrépidos conselheiros motivacionais. Em sua pior face, tornou-se algo mais atroz: é a palavra que impera no autoelogio dos desbocados, dos prepotentes, dos despóticos. Creem-se corajosos os que alardeiam velhos dizeres preconceituosos, os que emprestam sua voz à replicação de equívocos históricos, realizando com sua falsa coragem nada mais que a propagação do medo. É o ponto exato em que a coragem se converte em opressão, em que coragem e covardia se tornam uma coisa só, indiferenciável.

Mas não, não é aceitável que o termo se deixe assim conspurcar, não cabe abdicar sem luta de uma palavra forte e valiosa. Poucas coisas têm sido tão necessárias quanto a coragem, aliás, num mundo que faz do medo e da morte suas faces mais frequentes - ou, mais precisamente, num país que adotou o medo e a morte como políticas de Estado. Cumpre, então, estabelecer a clara distinção entre coragem e violência, entre coragem e irresponsabilidade. Coragem é ato de equilíbrio, guarda tanta distância do medo quanto da temeridade, se é preciso retornar a Aristóteles. Corajoso, hoje, pode ser também o olhar capaz de capturar a complexidade, as infinitas nuances de uma situação problemática que não apresenta saídas súbitas ou fáceis. Corajoso é o discurso com adversativas, sem adversários desnecessários.

Não sei por que me pus a escrever este texto, acho que não foi pelas palavras de Galeano, e sim por uma cena muito mais trivial. Minha filha a subir ao topo do trepa-trepa de um parquinho próximo, num passo de liberdade que nos autorizamos, seus braços rijos, seu rosto compenetrado como poucas vezes pude testemunhar. Havia tensão em seu maxilar, medo em seus olhos, mas ainda assim ela escalou até o final, apenas para gritar do ponto mais alto: "Eu fui corajosa, não fui, papai?" E então a alegria que tomava suas feições, o visível prazer que agora dissolvia o medo, a satisfação de cumprir o que ela mesma estabelecera como seu dever.

Pensei ali, talvez iludido, que a coragem raramente se manifesta nos gestos extravagantes, que a grandiosidade é sua distorção, e não sua representação máxima. Pensei ali que o dia quase nunca pede a realização do irrealizável, mas que pode muito bem se beneficiar de um esforço concentrado, do empenho em executar um pouco melhor cada uma das nossas tarefas módicas. A vida se contrai e se expande proporcionalmente à nossa coragem, quem diz é Anaïs Nin, e de novo me vem à memória o rosto da minha filha, o prazer que lhe produziu essa expansão inesperada. Eis o prazer que haveremos de sentir, num dia cada vez mais próximo, quando pudermos romper de vez as nossas gaiolas, físicas e metafóricas.