PUBLICIDADE
Topo

Alguns dias em Beirute -- ou o tão discreto prenúncio da destruição

Anadolu Agency/Anadolu Agency via Getty Images
Imagem: Anadolu Agency/Anadolu Agency via Getty Images
Julián Fuks

Julián Fuks é escritor e crítico literário. Nascido em São Paulo em 1981, é autor de A ocupação (2019) e A resistência (2015), livro vencedor dos prêmios Jabuti, Saramago, Oceanos e Anna Seghers. É doutor em Teoria Literária e mestre em Literatura Hispano-americana, ambos pela Universidade de São Paulo. Suas obras já foram traduzidas para nove línguas e publicadas em diversos países.

08/08/2020 04h00

Era já 2020, mas nada sabíamos, desconhecíamos a desolação que ele provocaria, ignorávamos o poder de destruição desse ano agônico que não termina. Caminhávamos inocentes pelas ruas de Beirute, observando a modernidade de suas fachadas, comentando como o centro da cidade era idêntico ao de tantas outras, com suas calçadas de ladrilho liso, seus prédios de vidro, as mesmas lojas de sempre, os mesmos letreiros tomados pela anglofilia. Já escurecia, mas escurecer não era uma metáfora. Seguíamos caminhando tranquilos, sem saber o que seria daquelas ruas em poucos meses, sem saber o que veríamos na próxima esquina.

Na próxima esquina a paisagem era mais atípica. A rua deserta dava lugar a uma aglomeração contemplativa, homens de rosto severo com as mãos nos bolsos, cinegrafistas com suas câmeras fixas em tripés, ao fundo alguns gritos, o som de um jorro líquido e de golpes ritmados de marreta. Esquivando os vultos em paralisia, chegamos ao movimento: uns quebravam as paredes de um banco, arrancando grandes nacos que logo rompiam contra o chão, municiando de pedras outros jovens indistintos que as atiravam contra o muro indiferente do Parlamento. Esses recebiam no peito jatos fortíssimos de água, recuavam alguns metros, avançavam alguns metros, todo o conjunto parecendo compor um moto-contínuo.

Nunca uma revolução esteve tão marcada pela inércia e pelo automatismo, foi o que senti. Ali os brados incompreensíveis não pareciam libertários, pareciam meros gritos de desgosto e amargura. Cada gesto era um gesto infinitamente repetido, sem que gerasse qualquer expectativa de impacto - atirar pedras contra o Parlamento era como atirar pedras num rio calmo, apenas para vê-las ricochetear na superfície. Aquele era o centésimo dia de protestos, descobrimos, o dia em que se anunciava a nova composição do governo: uma composição que a ninguém satisfaria, alteração menor que perpetuava a mesmice, a corrupção, o sectarismo - foi o que depois ouvimos.

Tatiana Salem Levy e eu lançaríamos dali a poucos dias a edição árabe dos nossos livros, e por isso nos entregávamos àquele turismo indolente, passeávamos um tanto a esmo pelos bairros de Beirute. Aos poucos a cidade ia mostrando matizes mais particulares, uma arquitetura própria, mas era difícil dar um destino preciso ao nosso olhar porque tudo estava desabitado, e nos desnorteava tanto silêncio e tanto vazio. Tudo era retrato da crise, de uma crise que até prescindia de adjetivos. Até o vasto passado libanês sobre o qual íamos lendo, a sucessão imponente de civilizações antigas no mesmo espaço exíguo, até isso guardava agora um mórbido silêncio, camadas e camadas de ruínas caídas sob os nossos pés.

Nossa passagem por Beirute não chegou a ter um fim, nada que mereça o empenho narrativo. Dissipou-se como tantos momentos na vida se dissipam, fomos embora e começamos a esquecer. Com o mais potente estrondo, porém, com a espantosa explosão que todos vimos com incrível precisão nas notícias, Beirute ressurgiu com vividez em minhas retinas, Beirute encontrou um outro, triste fim. Na onda de fogo que matou centenas, feriu milhares, e varreu os prédios, e arrancou sacadas, e estilhaçou os incontáveis vidros do centro, temi ver tudo aquilo a que não atentei, temi ver a cidade que existia e que perdi - ou toda a enormidade que perderam, eles sim, os libaneses.

As ruínas agora existem a olhos vistos, a destruição paulatina de um povo ganhou a imagem mais contundente possível, uma devastação ruidosa como jamais se ouviu. Pode ser uma interpretação excessiva, talvez não haja nada a depreender da minha breve passagem por ali, mas não consigo deixar de pensar que algo do desastre já se anunciava no abandono que testemunhei naqueles dias. Uma sociedade em profunda crise corrói a si mesma das mais improváveis maneiras, explode silenciosamente a cada dia, à espera de um estrondo literal que ninguém possa deixar de ouvir.

Olho agora a estatueta libanesa que trouxe daquela noite, o punho em riste que comprei do único improvável vendedor que permanecia na Praça dos Mártires, quando o gás lacrimogêneo já tomava o centro e começava a arder nos nossos olhos. Olho a estatueta e penso nas muitas resistências que se erguem no mundo inteiro, que erguemos também aqui, contra o exercício cada vez mais destrutivo do poder, contra a vastidão insistente da ruína. Perdoem o pessimismo do pensamento, mas, ao ver a imagem devastadora de Beirute que não esqueceremos tão cedo, não pude deixar de pensar que hoje o Líbano é também aqui, que o Líbano é em toda parte.

Achei que tinha terminado este texto, mas há pouco vi as imagens dos libaneses voltando às ruas, retomando ainda uma vez sua luta. Voltei a olhar a estatueta libanesa do punho em riste. O fim faz-se um novo início, sobre uma civilização em ruínas começa a se erguer uma nova. Esse Líbano também há de ser aqui quando chegar a hora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.