Eduardo Carvalho

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Opinião

Será que teremos Maceió até o Carnaval?

Foi o play no álbum de sambas-enredo lançado no Dia Nacional do Samba, no último sábado (2), para ecoar em minha cabeça os versos que serão desfilados na Sapucaí durante o próximo Carnaval. E qual não foi a minha surpresa ao ouvir que a escola Beija-Flor de Nilópolis levará à avenida uma homenagem a Maceió, horas depois das redes sociais mostrarem a exatidão, naquele dia, de como o local que será exaltado no maior espetáculo a céu aberto da Terra verdadeiramente se encontra no agora.

Enquanto eu escrevo e você me lê, por lá, os bairros Pinheiro, Mutange, Farol, Bebedouro e Bom Parto afundam, vítimas do descaso da grande operadora Braskem, o episódio marca, mais uma vez, nossa sina em ser 'a casa das tragédias'. Ops! Tragédia não, afinal, o crime ambiental está em curso há cinco anos, e uma hora a bomba ia estourar ou, na verdade, as casas iam submergir.

A extração de sal gema na Lagoa Mundaú fez com que mais de 60 mil pessoas fossem obrigadas a deixarem suas casas, como se nada pudessem fazer a não ser aceitar a imposição de que ali não dava mais pra ficar. Apagamento de toda uma vida, de repente, assim, como se fossem descartáveis. Pelas mãos do poder, se tem dinheiro, esquece o resto e recomeça, seja lá qual valor caía na conta bancária. E não existe motivo para reclamar com uma recompensa assim, né?

''Era uma vez o clube regi-regi'', ''tantos momentos felizes, histórias, lembranças…'', ''foram tantos dias vividos, tantos sonhos destruídos''. Com a distância que me afasta das Alagoas, foi difícil ver o influenciador Álvaro, conhecido pela graça e leveza, agora em outro lado: o da denúncia ao gravar como as localidades estão. Num mix de cenário antes e pós-guerra, o vazio em cada curva, acrescido de placas que explicam detalhadamente o que fazer para fugir.

Me causa aflição só de pensar no que ou como reagiria se na situação estivesse. E além deste sentimento, me dá raiva pelo desconhecimento até aqui do que acomete a região, na culpa que faz de nós, comunicadores, partes do processo - bem salientado pelo colunista Rodrigo Ratier aqui em Ecoa.

Não há como não pensar que se fossem os bairros do Leblon e Ipanema, no Rio, a Faria Lima, de São Paulo, ou o Campo Grande, na Bahia, haveria comoção a ponto de líderes e entidades se deslocarem para lá no mesmo minuto. Mas o que se teve até aqui foi uma lavagem de mãos, que unidas às da empresa, devem ser responsabilizadas.

Para o Brasil que vai para a COP 28 cobrar de autoridades internacionais atitudes positivas ao mundo, encarar as múltiplas realidades dentro de nossa própria casa deveria ser o desafio número um antes de apontar aos outros o que fazer. Ou assumimos nossa incapacidade de gerir catástrofes anunciadas, onde a corrupção, a voragem imobiliária e o dinheiro apitam mais fortes sobre nosso dia a dia, sem qualquer responsabilização.

Rezo que até fevereiro, quando exaltada durante a passagem da Beija-Flor pelo Sambódromo, ainda exista Maceió.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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