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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vem pro barulhinho: engajar juventude ao voto ajuda a fortalecer democracia

No Lollapalooza, Marina Sena incentivou público jovem a tirar o título de eleitor  - Reprodução/Multishow
No Lollapalooza, Marina Sena incentivou público jovem a tirar o título de eleitor Imagem: Reprodução/Multishow
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

30/03/2022 06h00

Não faz muito tempo, ou até faz. Só sei que tá fresco, não sai da memória. Era o dia de completar meus 16 anos, cada vez mais próximo aos 18 e, portanto, de uma maioridade. ??Maior?? e ??idade??, separadas ou juntas, são palavras que conjugam ações de responsabilidade. Representavam a mim a saída da adolescência, onde os nervos fervem, para um quê de maturidade calcado em atitudes de gente grande (o que eu já era com a altura). Entre todos os fardos, o que mais me causava brilho e expectativa: votar.

Lembro-me de por anos invejar minha mãe frente à urna, ainda que ela me dissesse as teclas onde apertar o número de seu candidato daquela vez. Era eu quem exprimia sua escolha, mas no fim, era ela. Guardava em mim a vontade de transformação coletiva, a partir do pessoal, pelo não tão simples sentimento cidadão de ir lá, num domingão, optar por alguém que fosse cuidar de você e de um resto. Por quatro anos seguidos — e tendo a chance de ficar mais quatro, veja lá.

O importante não era receber ??parabéns??, e sim a ida ao Tribunal Regional Eleitoral, que tem como prazo dois dias antes do meu aniversário, como se fosse presente adiantado. Pra quê? Para tirar o título, cabeção, e na sequência, me responsabilizar pelo ato de, não votando, também votar, afinal de contas escolher é uma decisão, e não escolher, também.

Acumuladas partes da coluna que doem ainda mais a cada dia, também estão unidas na carteira os cartuchos que simbolizam a quantidade de vezes em que exerci minha cidadania, na ??festa da democracia??. Sentimento de pertencimento que a cada giro de dois anos me vem em abundância. Talvez por ter também feito parte de uma juventude política, que apreendeu as discussões das ocupações estudantis de 2016 para toda a vida, e que permanece com o intuito de continuidade para que os ?adoles? de hoje sintam o mesmo desejo.

??Desejo, necessidade, vontade??. Há pouco mais de um mês do prazo estipulado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para a retirada do título para as eleições de 2022, apenas 854 mil jovens haviam feito o rito. Em março, uma semana foi direcionada especificamente para a campanha da faixa etária, onde foram emitidos 96.425 novos títulos em todo o Brasil e no exterior para jovens com 15 a 18 anos. Segundo o TSE, a procura maior foi entre pessoas do gênero feminino: 52.561 pessoas.

O assunto tomou as redes sociais, numa mobilização bonita de ver que uniu o ator americano Mark Ruffalo a cantora Anitta, chegando até aos palcos do festival Lollapalooza (eu disse Lolla, ok?). ??Se você tem de 15 a 18 anos, tira a porra do título de eleitor??, bradou Emicida. Marina Sena também mandou a letra. ??Bora votar, que é o único jeito mínimo de mudar alguma coisa. A gente precisa mesmo tirar o título e ir lá votar, pelo amor de Deus??.

Em paralelo, surge a campanha ??Olha o barulhinho??, que explica o passo a passo do processo (que pode ser feito online). No Brasil de 2022, entre mandos e desmandos que nada mais são do que censura, engajar a juventude é o primeiro passo de "reesistência" (sim, resistir duplamente) aos arroubos autoritários de líderes sem qualquer primor pela democracia. Ativar os mais jovens através de influenciadores e dancinhas, ainda que pareçam "mico", pode trazer benefícios para um projeto de país não muito longe.

Vamos galera, jovens.