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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Neste país negro e terrivelmente racista, um congolês morreu

O jovem congolês Moïse Mugenyi Kabagambe - Reprodução/Facebook
O jovem congolês Moïse Mugenyi Kabagambe Imagem: Reprodução/Facebook
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

02/02/2022 06h00

No país negro e racista, na zona oeste da cidade maravilhosa, um congolês morreu - espancado até a morte. Foi, depois, amarrado e, em seguida, deixado estendido numa escada que leva à areia da praia. Ele foi cobrar um direito seu, o salário. Duas diárias de R$ 200. E fazemos o quê com a vida que se foi?

No país negro e racista, na zona oeste da cidade maravilhosa, um congolês morreu - espancado até a morte. Foi, depois, amarrado e, em seguida, deixado estendido numa escada que leva à areia da praia. Ele foi cobrar um direito seu, o salário. Duas diárias de R$ 200. A revolta do irmão, o choro descompassado da mãe nas entrevistas?.Quem vai secar essas lágrimas?

No país negro e racista, na zona oeste da cidade maravilhosa, um congolês morreu - espancado até a morte. Foi, depois, amarrado e, em seguida, deixado estendido numa escada que leva à areia da praia. Ele foi cobrar um direito seu, o salário. Duas diárias de R$ 200. E daí se haverá posts em quadrado preto nos perfis de pessoas brancas e famosas?

No país negro e racista, na zona oeste da cidade maravilhosa, um congolês morreu - espancado até a morte. Foi, depois, amarrado e, em seguida, deixado estendido numa escada que leva à areia da praia. Ele foi cobrar um direito seu, o salário. Duas diárias de R$ 200. O que diremos aos possíveis refugiados? O quê diremos em específico aos congoleses? E seus sonhos, suas vontades? Vamos matá-las?

No país negro e racista, na zona oeste da cidade maravilhosa, um congolês morreu - espancado até a morte. Foi, depois, amarrado e, em seguida, deixado estendido numa escada que leva à areia da praia. Ele foi cobrar um direito seu, o salário. Duas diárias de R$ 200. O quê a gente faz com os outros pretos que estão morrendo nesse mesmo segundo enquanto você lê esse texto?

No país negro e racista, na zona oeste da cidade maravilhosa, um congolês morreu - espancado até a morte. Foi, depois, amarrado e, em seguida, deixado estendido numa escada que leva à areia da praia. Ele foi cobrar um direito seu, o salário. Duas diárias de R$ 200. Como a gente responde à barbárie? Será que responde? É brutalidade? Me diz, por favor, o quê a gente faz? Eu estou clamando.

No país negro e racista, na zona oeste da cidade maravilhosa, um congolês morreu - espancado até a morte. Foi, depois, amarrado e, em seguida, deixado estendido numa escada que leva à areia da praia. Ele foi cobrar um direito seu, o salário. Duas diárias de R$ 200. Quem vai ser punido, quem vai pagar? E será que paga? Será que vai chegar no nível da vida ceifada pelas mãos?

Desculpem por hoje. Eu realmente tentei escrever algo na coluna de volta das férias que trouxesse alguma análise com mais profundidade sobre o que aconteceu. Mas não dá, não deu. E nem sei se deveria ser cobrado, me cobrar, por qualquer que seja a reflexão em um momento como esse, em que um jovem de 24 anos cai ao chão, abatido pelas mãos. Dez mãos. Espancado, depois amarrado e deixado jogado numa escada que leva à praia. Imagino cada grito seu, cada suor de sangue, cada pedido de socorro feito a fórceps ou mesmo os que ele engoliu para não dar prazer ao seu assassino.

Só consigo pensar que dói. E dói bastante. Para aliviar, juntos, um ato está marcado para o próximo sábado, no local do crime. Se algo lhe tocou, vá. E toda vez que alguém ousar dizer que não existe racismo contra pretos no Brasil ou em qualquer canto, lembre-se sempre: neste país negro e terrivelmente racista, na zona oeste da cidade maravilhosa, um congolês morreu - assim como morrem, a cada 23 minutos, pessoas com as mesmas características desse jovem. Ele foi cobrar um direito seu, o salário. Duas diárias de R$ 200. Fim.