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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pra estender a mão

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

29/12/2021 06h00

Tá preparado para um papo direto?

Pois é. Peço licença para minha editora, a equipe do site, todos do UOL. Hoje quem escreve este último texto de 2021 é o Eduardo, e não o Edu Carvalho, jornalista e colunista de Ecoa. Quem fala é a primeira pessoa, o filho da dona Lúcia, tio-pai da Luísa. Senta, divide esse café comigo e a quarta (mais uma!).

Semanalmente, reúno meia dúzia de palavras que juntas sintetizam pensamentos e análises sobre periferia, negritude, juventude e o país. Não fujo muito do meu quintal, já que, ao falar dele, falo de outras tantas tribos e lugares. É do alto da laje que me conecto com qualquer pessoa, em qualquer cobertura ou até debaixo de uma marquise.

Há cerca de um mês fui diagnosticado com ansiedade. Não é nada de anormal. Mas reconhecer o estado me gerou uma série de reflexões sobre como não podemos negligenciar o estado físico e o mental, sobretudo.

Com a vontade de agarrar o mundo, mesmo com braços curtos que só conseguem minimamente carregar bolsas do mercado ou dar o abraço em quem se ama, esqueci de mim. É que a vida acaba impondo isso, ou pelo menos não sabemos lidar com os momentos de pressão onde só resta você no jogo. É quem tá para estender roupa, bater bolo, cozinhar feijão e ao mesmo tempo levar a criança na escola, pagar o aluguel e ainda ter tempo para cantar. São vários ''homens-aranha'' num só ser, meu chapa.

Em maio deste ano, uma pesquisa feita pela ONG Gerando Falcões junto ao Instituto Locomotiva indicou que 36% das pessoas que vivem em favelas têm ansiedade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é o Brasil o país mais ansioso do mundo, contabilizando 19 milhões de pessoas com o transtorno - o que gira em torno de 9% da sociedade. A situação nas periferias supera a média nacional. Virei um alvo certo.

Entre trabalhos, projetos, família, relacionamentos, o apagamento sintomático de quem por si só não se reconhece como possível de cuidado: o homem negro. Com dificuldade de abrir-se para si e aos outros, vai se distanciando do mínimo, junto a um não sei o quê de masculinidade que impede de falar "preciso de ajuda".

''Eu cuido de mim mesmo fazendo exercícios, comendo de forma saudável, para ter um corpo e uma mente fortes para continuar criando e fazendo coisas que eu quero ver, que minhas filhas querem ver, que todo mundo queira ver. Eu acho que é extremamente importante cuidar de si mesmo, não podemos cuidar de mais ninguém. Especialmente se você é um homem de família, primeiro precisa cuidar de você", foi o que Ludacris disse ao colega de Ecoa M.M Izidoro numa conversa que teve aqui.

Entender isso leva tempo - ô se leva. Requer amadurecimento, humanidade, autoconhecimento. Saber medir as caixinhas de maneira equilibrada e certeira. Não é fácil. Não é.

Tô aqui abrindo esse espaço, bem no final do ano, porque, depois de corres tão doidos, você do outro lado pode estar na mesma situação e se perguntar: ''será que alguém me ajuda?''; ''Será que eu consigo sair dessa?''; ''Será que vou melhorar?''. E do lado de cá, estendo as mãos. ''Vai, e vai sim. Nem tudo está perdido''.

Com ajuda de quem amo e também me ama, a importância da rede de apoio. Sem ela, nada seria possível. Um amigo, uma amiga, amigos, grupos, família. Quem seja ou for. Conecte-se a pessoas, se abra e se permita. Acolha, mas também seja acolhido. Deixe-se ser acolhido. Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser e em coletivo. Partilhando.

Assim o fiz, iniciando o processo médico. Não vou dizer que muda de uma hora pra outra, não, também não é assim. Mas começa a aliviar. Pouco mais de um mês depois do tratamento, construo um novo processo. Ok, ainda com o pé manco - culpa do Flamengo - mas ciente do que quero. E de mãos dadas com quem tá comigo, independente da situação. A gente vai levando, e junto fica melhor.

Mais leve, pra ser mais bonito. Pra fazer valer a pena. Pra mim, pra você, pra mim. E depois, aos outros. Daqui, desse novo momento, é o que posso desejar. Mais saúde, mais paz e vida. E leveza em abundância. E mãos dadas com quem se quer estar.

Com as bênçãos de Nossa Senhora de Fátima, Aparecida, meus santos, santas, orixás, Meishu-Sama e quem mais houver, nos vemos em fevereiro de 2022.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL