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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Trem da meia-noite

Trem noturno - shaunl/iStock
Trem noturno Imagem: shaunl/iStock
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

24/11/2021 06h00

"Talvez seja bom partir do final", Emicida canta nos meus ouvidos. Estamos por cá, prestes a parir um avião de possibilidades, defronte a esse abismo das plataformas que esperam os vagões. De mãos dadas e agora distantes, inúmeros dias de sextas-feiras trezes, ao passo de intensas semanas de trinta e um de dezembros diários. Coube também Carnaval e São João.

Ter que se despedir, só que sem "tchau". "Fica", ouso pensar, como o torcedor que não aceita o impedimento num Maracanã lotado, final de Libertadores, com o Flamengo em campo. "Não dá mais", indica o visor das viagens, informando que para o momento só resta um lugar onde embarcar, um único bilhete. Remonto rapidamente os pensamentos, onde neles as evidências estão postas. "Não há sobre o quê duvidar", dizemos um ao outro, ao mesmo tempo.

Engulamos secos às vontades, lamentando cada segundo desse triste fato. Questionar, ter quem questionar, sem quem responda. "O que a vida fez da nossa vida?", Marisa ecoa pelos corredores, em meio ao turbilhão de pessoas, que mais sintetizam os sentimentos remanescentes.

Eles todos vão se transformar, pra depois, desaparecer. É assim, um vai-vem desmedido, afinal de contas, não é esse o sentido do correr da vida? Que embrulha tudo, como cantou a pedra Guimarães Rosa: "esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta".

Permanecer não é injusto, tampouco egoísta. Ir não é sinônimo de deixar de. Há coisas que só o tempo santifica, tornando mais leve, e portanto, menos pesado. O que que permanece? O amor, esse amigo nada oculto. E que é verbo.

Solto o bilhete das mãos, para que o vento leve até você. Sem pestanejar, confesso lágrimas, suspirando desejos que já não podem ser realizados. Alguém tem que dançar sozinho e até o fim, com dejá vú. Não há intervalos.

O relógio apita. Da escuridão antes silenciosa, vemos brotar a luz. Tudo está aqui, agora e sempre. O girassol da cor do cabelo, a nascente, a sala, o quarto, a mesa. As curvas de uma estrada. Só vá, "oh vá". Te faças brotar de novo quando quiser, nesse trem da meia-noite direto para as estrelas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL