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Eduardo Carvalho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Crônica reparação

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Imagem: iStock
Eduardo Carvalho

Edu Carvalho é jornalista. Coleciona em sua bagagem de 22 anos participações em eventos como Onda Cidadã, a Bienal do Livro no Rio, Flip e Flup, mostrando seu trabalho ao retratar assuntos do dia-a-dia em sua escrita sobre o Rio e o Brasil. Indicado ao Prêmio Faz Diferença; Vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2019. Atuou como integrante da equipe de criação do Conversa com Bial, série Segunda Chamada e foi repórter na CNN Brasil.

03/11/2021 06h00

Eu sei, você não jogou bola comigo no Aterro do Flamengo. Também não teve tempo para comandar a churrasqueira num domingo de sol a pino na laje sem camisa, preparando pra ver o jogo do Fla. Não soltou aquelas baboseiras que geralmente homens, quando pais, soltam, como por exemplo o comentário sobre a ida num prostíbulo, ou sobre a patética frase "guardem suas cabritas porque meu bezerro está solto" e outras tantas.

Com você, passei a tomar gosto pelos prazeres simples de uma vida, fossem eles varrer uma casa ao som de Altemar Dutra e Maria Bethânia ou pagar uma conta.

Com a barriga no fogão, comentando alguma receita da televisão ou criando uma própria, me trazia todos os episódios de machismo que passaram e sobre o quanto devo melhorar enquanto homem em relação ao gênero feminino.

Aprender a dizer não para todos os preconceitos em razão da negra pele, e para reagir, não deixando ninguém passar por cima. Não posso me esquecer das lembranças que contava sobre os preconceitos por conta do gênero.

Passado algum tempo, como tio-pai da Luísa, acredito que só consigo ser minimamente uma referência boa pois tive você. Os seres humanos são constituídos de referências, exemplos, espelhos, muito além do que se sabe e vê. E todos valem e importam muito, merecendo o reconhecimento.

A gente comete algumas injustiças durante a vida. Às vezes, a gente não dá crédito ao que realmente deveria. Devo confessar que demorou muito pra que eu pudesse entender isso, não vou mentir. A análise (salve ela) me deu um "up". Inclusive, salve Freud e não só, mas a mãe dele.

Por muito tempo encasquetei com a falta paterna, sobre não ter alguém que pudesse chamar de "pai". Não suportava ouvir o Fábio Júnior cantando a figura que eu achava não ter, quando na verdade, tinha. Obrigado por ter sido o maior exemplo de pai sendo mãe.
Afinal, é o que todos nós precisamos, como canta Caetano, Moreno, Zeca e Tom.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL