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Debora Garofalo

"Nobel da Educação", Global Teacher Prize tem três professores brasileiros

Criadora de projeto de ensino de robótica com sucata, Débora Garofalo esteve entre 10 finalistas do Global Teacher Prize em 2019 - Arquivo pessoal
Criadora de projeto de ensino de robótica com sucata, Débora Garofalo esteve entre 10 finalistas do Global Teacher Prize em 2019 Imagem: Arquivo pessoal
Débora Garofalo

Com foco em educação criativa, traz dicas e insights sobre como driblar obstáculos de falta de estrutura, tempo e material para encantar alunos e alunas na sala de aula

26/03/2020 04h00

Apesar das notícias alarmantes dos últimos dias, devido a pandemia da Covid-19, recebemos uma excelente notícia na semana passada: três professores brasileiros, estão na lista do TOP 50 do maior prêmio para professores do mundo e considerado o "Nobel da Educação", trata-se do Global Teacher Prize, anunciado pela Varkey Foundation, organizadora/patrocinadora do prêmio em parceria Unesco.

Em especial, para mim, um presente, já que fui a primeira mulher brasileira e a primeira sul-americana a chegar como finalista em 2019, no TOP 10, pelo trabalho de robótica com sucata que consiste em coletar lixo das ruas, materiais e equipamentos recicláveis em protótipos de robótica, trabalho este que me classificou entre as melhores professoras do mundo. É uma experiência incrível, que desejo muito que eles vivenciem! Nesta mesma edição, tivemos o Professor Jayse Ferreira, de Itambé, Pernambuco, entre os TOP 50, sendo o ganhador o professor Peter Tabishi, do Quênia.

Isso demonstra a importância de reconhecer e valorizar os professores. Os três brasileiros finalistas da edição 2020, Doani, Francisco e Lília são professores de escola pública e tiveram os seus trabalhos selecionados por um júri internacional. O trabalho destes professores tem em comum a inclusão de estudantes, principalmente de periferias e baixa renda, com atividades significativas e transformadoras.

Conheça o trabalho dos brasileiros finalistas

Doani Emanuela Bertan trabalha como professora bilíngue de Português e Língua Brasileira de Sinais. A escola em que ela ensina fica em Campinas, São Paulo, em uma área de privação, que lutava com altas taxas de evasão. Doani e seus colegas começaram a procurar novas estratégias para otimizar o aprendizado. Ela ensina à LIBRAS o sistema brasileiro de língua de sinais para seus alunos com deficiência auditiva e começou a promover videochamadas para responder a suas dúvidas e preocupações nas aulas diárias.

Esses tutoriais on-line se transformaram em videoaulas bilíngues, permitindo que o conhecimento se espalhasse fora do ambiente escolar. Além do uso da tecnologia como ferramenta, eles permitem tempos e espaços de aprendizado flexíveis, apoiam pais e famílias e possibilitam novas experiências educacionais.

Todas as suas aulas foram enviadas para um canal do YouTube e agora têm acesso gratuito. Sua escola se destaca por sua alta matrícula de alunos com deficiência auditiva e professores que promovem o LIBRAS como uma ferramenta eficaz de inclusão. O compromisso de Doani a levou a ir além dos horários formais de trabalho e a aproveitar as oportunidades que a tecnologia permite.

Francisco Celso de Freitas é professor de história, especialista em educação inclusiva e instrutor de mediadores sociais. Ele, trabalha no Centro Educacional da Unidade Penitenciária de Santa María, na cidade de Brasília, onde jovens privados de liberdade assistem às aulas.

Francisco é fundador e coordenador do Projeto RAP (Ressocialização, Autonomia e Protagonismo), que utiliza a musicalidade do rap e a poesia como uma ferramenta pedagógica emancipatória capaz de promover os valores de uma cultura de paz e direitos humanos com vínculos históricos.

O projeto atende cerca de 150 adolescentes (meninos e meninas), mantidos na Unidade de Hospitalização do Distrito Federal de Santa Maria, que tiveram problemas com a lei, às vezes por atos de violência, e que são propensos a autoagressão e tentativas de suicídio. Os jovens do projeto se beneficiaram da educação socioeconômica e da reabilitação, gravando vídeos, participando de festivais de música e cultura e os recursos produzidos pelo projeto, como músicas, videoclipes e e-books, foram colocados on-line gratuitamente para que outros possam usufruir dos benefícios.

Francisco recebeu amplo reconhecimento e prêmios pelo projeto RAP e participou de conferências e visitou escolas para dar palestras sobre o valor dessa forma de mediação social, ressocialização, combate ao uso e abuso de drogas, enfrentando várias formas de preconceito e a descriminalização de cultura urbana. Além disso, ele acompanhou os jovens depois de completarem seu período na Unidade Penitenciária, para que não voltassem ao mesmo ciclo de violência que os levou até lá. A maioria dos graduados conseguiu reintegrar a sociedade e alguns se dedicaram ao rap, fazendo apresentações, gravando álbuns e videoclipes com mensagens sobre liberdade e atendendo às demandas dos jovens. Apesar da dura realidade, Francisco conseguiu inspirar e motivar seus alunos para que eles entendam que a educação é o caminho para novas oportunidades na vida.

Lília Melo cresceu em uma área desfavorecida e desde a infância queria contribuir para reduzir as diferenças sociais. Ela encontrou seu caminho no ensino. Lília Melo ensina crianças e jovens pobres em uma área carente e muitas vezes violenta de Belém, no norte do Brasil, onde assassinatos, tráfico de drogas e estupro são comuns.

Para ajudar seus alunos a lidar com a situação, Lília escreveu um projeto intitulado "Juventude negra periférica do extermínio ao protagonismo" sobre o aprimoramento da arte na escola e na comunidade. Começou a oferecer oficinas de fim de semana sobre tambor, capoeira, dança, teatro, poesia, algumas na escola, outras nas ruas e praças, que formavam laços com a comunidade local. A partir de um texto de Lília na mídia local sobre seus alunos serem pobres demais para terem acesso ao filme "Pantera Negra" da Marvel, as empresas locais se uniram e financiaram 400 ingressos para que os jovens pudessem assistir ao filme.

Da coleção de fotos e vídeos que narraram o evento do filme, surgiu a ideia de produzir um documentário, que recebeu diversos prêmios. Lília decidiu reinvestir os recursos recebidos na compra de equipamentos. Eles compraram câmeras, lentes e uma nova produção foi feita por jovens estudantes da escola.

Os debates ajudaram a reforçar a mensagem do filme e a refletir sobre a importância da representação na ficção. Eventualmente, os próprios alunos se tornaram protagonistas à medida em que universidades, museus e empresas se interessaram e entraram em contato para ouvir os alunos e conhecer suas histórias, fazendo convites para realizar palestras. Em vez de ficarem quietos em um auditório, os alunos foram lá para serem ouvidos.

Todos os projetos de Lília foram realizados com pouca infraestrutura e pouco equipamento. A escola aumentou significativamente as taxas de matrícula, a taxa de evasão diminuiu e os resultados do aprendizado melhoraram. Muitos de seus alunos se tornaram líderes no campo das artes, protagonistas de sua própria história, sendo uma inspiração para sua comunidade.

*as informações sobre os trabalhos dos professores foram retiradas do site do Global Teacher Prize.

Considero que estar entre os top 50 é um presente. Eles foram selecionados entre mais de 12.000 trabalhos de 140 países e merecem todo o nosso reconhecimento. Estaremos na torcida, porque são merecedores por tudo o que vem fazendo pela Educação.

Agora, eles passam a integrar um grupo de 300 professores embaixadores mundiais, unidos aos finalistas de edições anteriores do prêmio, com participação intensa e encontro anuais em diferentes países para ampliação e troca de conhecimento.

Ser reconhecido entre os melhores professores do mundo muda totalmente a nossa concepção do papel de professor e aumenta a nossa responsabilidade em continuar a lutar por educação de qualidade e equidade a todos.

Todos os professores que passam por essa experiência continuam servindo de exemplo, entre eles, podemos destacar os professores Marcio Batista, Rubens Ferronato, Jayse Ferreira, Diego Mahfouz e Valter Pereira e tantos outros que promovem a diferença e são agentes da transformação. É preciso reconhecer, valorizar e apoiar os nossos professores. Parabéns, professores, por transformar vidas!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Debora Garofalo