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Débora Garofalo

Educação é a chave para termos uma sociedade antirrascista

Reconhecer o racismo estrutural é a primeira maneira de combatê-lo - Bryan Thomas/The New York Times
Reconhecer o racismo estrutural é a primeira maneira de combatê-lo Imagem: Bryan Thomas/The New York Times
Débora Garofalo

Com foco em educação criativa, traz dicas e insights sobre como driblar obstáculos de falta de estrutura, tempo e material para encantar alunos e alunas na sala de aula

25/11/2020 04h00

Fiz toda a minha escolarização em escolas públicas estaduais em São Paulo e conclui os anos iniciais e finais na Escola Estadual Maestro Callia, localizada no Jardim Lallo, periferia da zona Sul da cidade de São Paulo.

Lá fiz amigos para uma vida, em sua maioria negros e de perto convivi com suas dores. Em nosso grupo, eu era a única branca e em nossas saídas para estudos em bibliotecas e ou saída para passeios culturais sempre havia algum deles que era abordado por policiais e mesmo estando com eles nunca fui abordada. Aprendi rápido, que o racismo é estrutural e a educação e a única forma de combate-lo.

Já em sala de aula e atuando em periferias, foram várias vezes que convivi de perto com o racismo estrutural e muitas vezes me senti imponente. Infelizmente passei pelo luto perder estudantes negros e em alguns trabalhos realizados com as turmas, vi muitos de meus alunos não se reconhecendo como pessoas negras, porque negar sua cor era ter a possibilidade de fugir de preconceitos e a certeza que a Educação é um caminho para reverter isso.

No ano de 2019, tive o prazer de conhecer pessoalmente a Professora e Filosofa e professora Djamila Ribeiro, que havia recém lançado o livro um Pequeno Manual Antirracista, que é finalista no prêmio Jabuti, na categoria ciências humanas. Na obra, ela trata estas e outras questões e afirma que negar o racismo é negar que ele exista e que para combatê-lo precisamos ter ação antirracista. O livro é uma aula e serve de inspiração para um aprofundamento do tema.

Dados

Para corrigir anos de desigualdades e políticas de exclusão, é necessário o fortalecimento de movimentos negros, fortalecimento da história e mais do que isso, reconhecer que erramos e continuamos errar em sociedade.

Dados recentes realizados pelo IEDE (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional) a pedido do jornal Folha de S. Paulo, apontam que estudantes negros têm desempenho de dois anos a menos de aprendizado que estudantes brancos já nos anos iniciais.

Dados ressaltam que, desde o início da trajetória escolar, estudantes negros têm um menor acesso a educação e suporte pedagógico. E quando olhamos para o ensino médio esses dados também são alarmantes, como mostram dados do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), em que 44% de jovens negros não finalizam o ensino médio e 33% de jovens negras não chegam a realizar o Ensino Médio, sem contar dados sobre a mortalidade e violência que atinge a população negra. Compreender esses dados e ter a oportunidade de mudar essa realidade e combatê-la também em sala de aula.

Educação para transformação de uma sociedade antirracista

Diante dos dados e fatos do cotidiano, a Educação tem um papel fundamental de consolidar uma sociedade antirrascista. Temos marcas profundas acarretadas em mais 300 anos de escravidão, que modularam a história, relações e costumes e é através da educação que temos a possibilidade concreta de reverter isso.

Abordar o letramento racial e desenvolver em sala de aula uma educação antirracista promove relações mais saudáveis e valoriza a nossa própria história. Nossos estudantes têm o direito de conhecer sobre suas origens, seus antepassados e principalmente de oportunizar recursos para criticar e combater o racismo estrutural.

Para isso, temos alguns caminhos, conforme sugestões a seguir.

Reconhecendo o racismo estrutural

Reconhecer o racismo estrutural é a primeira maneira de combatê-lo. Estudar, pesquisar sobre o assunto, trazer artigos de opiniões, vídeos é importante. Um vídeo que trabalhei com os estudantes foi Vista Minha Pele que traz a questão do racismo sob uma outra ótica.

Fazer valer o currículo

A lei 11.645/2008, foi um grande avanço na história e inclui a história e a cultura afro-brasileira e indígena como temáticas obrigatórias ao currículo da educação básica. Temos uma vasta gama de obras que precisam estar na sala de aula, desde livros infanto-juvenis que trabalham com o pertencimento ao resgate da história, um deles, "O Mundo no Black Power de Tayó", da autora Kiusam de Oliveira. A obra apresenta Tayó uma menina negra que tem orgulho do cabelo crespo com penteado black power, enfeitando-o das mais diversas formas. A autora apresenta a personagem cheia de autoestima, capaz de enfrentar as agressões dos colegas de classe e de combater o racismo. Além de obras e materiais didáticos que merecem uma atenção especial em todas as áreas do conhecimento.

Pertencimento

Resgatar a história dos estudantes e da comunidade escolar, ajuda a trazer pertencimento. Em uma das muitas atividades realizei com os estudantes, uma sempre tinha um destaque no meu planejamento, tratava de um "museu de memórias itinerantes", em os estudantes organizava um espaço na escola, para que pudesse fazer um memorial de histórias, com depoimentos, histórias e objetos aberto a comunidade. Um espaço para se reconhecerem e preservarem suas histórias e também falarem sobre juventude negra.

Com a pandemia todas essas sugestões podem e devem ser adaptadas, mas de fato trabalhada com os estudantes. Esse é um trabalho contínuo, que precisa ser realizado sempre, independente do mês de novembro. A escola de fato detém possibilidades de transformar uma sociedade e possamos cada vez mais promover uma educação integral e que seja a todos.

Um abraço,

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.