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Surpresa: levamos o Audi S4 de Ayrton Senna a um encontro de peruas; veja

Vitor Matsubara

Do UOL, em São Paulo (SP)

20/08/2019 07h00

Resumo da notícia

  • Perua fabricada em 1993 foi 1º Audi a desembarcar oficialmente no país
  • S4 Avant rodou menos de 5 mil quilômetros e é preservada pela família Senna
  • Perua tem motor 4.2 V8 com 280 cv e câmbio manual

As peruas perderam muito espaço na garagem do brasileiro, que anda apaixonado pelos SUVs. Houve um tempo, porém, em que a station wagon era o carro favorito das famílias. Não era para menos: o amplo espaço interno e a boa dose de esportividade (fosse no design ou mesmo no desempenho) conquistaram milhares de brasileiros por décadas.

O carisma delas era tão grande que até Ayrton Senna se rendeu aos encantos das peruas.

No começo dos anos 90, o tricampeão mundial de Fórmula 1 conciliava a vida de piloto com a de empresário. Em 1993, ele se tornou representante oficial da Audi, marca de luxo famosa na Alemanha, mas até então pouco conhecida no Brasil.

S4 Avant foi "mimo" dado pela Audi após assinatura de contrato - Reprodução
S4 Avant foi "mimo" dado pela Audi após assinatura de contrato
Imagem: Reprodução

Cabia a Ayrton e sua empresa Senna Import a dura missão de colocá-la em pé de igualdade com as também alemãs BMW e Mercedes-Benz, ambas referências em veículos de luxo no mercado brasileiro.

O contrato entre a família Senna e a Audi foi assinado em novembro daquele ano e Ayrton "ganhou" um presente para rodar no Brasil: uma perua Audi S4 Avant. Assim começava a história do primeiro veículo da Audi trazido pela Senna Import ao país.

Infelizmente, Ayrton teve pouco tempo para aproveitar sua perua. O carro permaneceu na família e desde então participa de eventos pelo país, ajudando a promover a marca Senna e o Instituto Ayrton Senna. O veículo fica em uma garagem ao lado do Honda NSX 1991 que UOL Carros também já avaliou no Autódromo de Interlagos.

A estrela do evento

Levar a perua S4 a um encontro de peruas era a proposta de Charles Marzanasco Filho, ex-assessor de Senna e da Audi - e que também já teve sua brilhante história contada por nós. Mas UOL Carros teve uma ideia melhor: e se a gente pudesse dirigir a perua até lá?

A perua do "Chefe", momentos antes de ser a surpresa do evento - Reprodução/Box 54
A perua do "Chefe", momentos antes de ser a surpresa do evento
Imagem: Reprodução/Box 54

Surpreendentemente não foi tão difícil convencer a família Senna. Mas vou te contar um segredo: não pudemos dirigir tanto assim. Até porque nem seria aconselhável, já que dificilmente o S4 raramente deixa a garagem para eventos, e submetê-lo a um desgaste desnecessário poderia comprometer a integridade do veículo - e a nossa também.

De toda maneira, conseguiríamos entrar com a perua no evento, propositalmente depois do começo para causar alvoroço na multidão. A surpresa estava garantida, e apenas algumas pessoas do Box 54 (local onde o evento aconteceria) sabiam da presença ilustre.

O grande dia

Tem muita coisa na vida que a gente pensa estar preparado para um grande acontecimento até o dia em que ele realmente... acontece. Confesso que tremi quando vi a capa da perua sendo retirada. Sabe aqueles poucos segundos em que você custa para acreditar no que está para acontecer? Foi isso que aconteceu.

Nunca fui fanático por Senna (até porque não tenho lembranças nítidas de suas corridas), mas sempre admirei sua trajetória e conquistas. Por isso, foi inevitável não me emocionar diante do despertar do motor 4.2 V8 da perua que um dia foi dirigida por ele.

"O Ayrton escolheu a perua porque queria um porta-malas maior para levar seus aeromodelos que ele pilotava em sua fazenda de Tatuí", revela Leonardo Senna, irmão de Ayrton e um dos responsáveis por trazer a Audi para o Brasil.

Fanáticos por Senna sabem o significado das letras "BSS": Beco Senna da Silva - Rodrigo Ronconi/Save The Wagons
Fanáticos por Senna sabem o significado das letras "BSS": Beco Senna da Silva
Imagem: Rodrigo Ronconi/Save The Wagons

Lothar Werninghaus, ex-consultor técnico da Audi e até hoje um dos "guardiões" da S4 Avant, foi um dos felizardos que tiveram a honra de assumir o volante da perua.

"Fui a última pessoa a dirigir esse carro antes do falecimento de Ayrton. Na época era supervisor de treinamento da Senna Import e fui encarregado de levar o carro até a Sorana Sul, até então a única concessionária capaz de fazer o alinhamento daquele carro. O serviço foi executado e o veículo ficou à disposição para quando ele voltasse da Europa", conta.

Gasto alguns minutos dentro de um galpão admirando a S4 Avant antes de adentrar o evento. Mesmo tratada a pão-de-ló, a perua não esconde as marcas do tempo típicas de um carro antigo, como algumas pequenas rachaduras no acabamento e os pneus ressecados pelo pouco uso. O hodômetro parece de carro novo, marcando pouco mais de 4.700 km no painel.

Entrada triunfal: a S4 Avant de Senna surge no evento de surpresa - Rodrigo Ronconi/Save The Wagons
Entrada triunfal: a S4 Avant de Senna surge no evento de surpresa
Imagem: Rodrigo Ronconi/Save The Wagons

A família Senna diz que 80% da quilometragem foi feita por Ayrton, que costumava fazer algumas viagens com a perua. O restante foi percorrido por alguns sortudos jornalistas (como eu) e em deslocamentos durante eventos.

Leonardo afirma ter poucas lembranças a bordo da S4, até por conta do pouco tempo que Ayrton pôde desfrutar do veículo. Após o falecimento de Ayrton, seu irmão diz ter dirigido a perua em poucas ocasiões, normalmente no deslocamento entre sua residência até o showroom da Senna Import, ambos localizados no mesmo bairro dos Jardins, em São Paulo (SP).

Celebridade por alguns minutos

Passava do meio dia quando entramos com a S4 Avant no encontro de aniversário da "Save The Wagons", página criada para aproximar fãs de peruas por todo o Brasil. "Não esqueça de pedir licença para o 'Chefe' (apelido pelo qual Senna era chamado por pilotos e amigos)", me aconselha Lothar.

Emocionante: Danilo Mottin não segura as lágrimas diante da S4 - Rodrigo Ronconi/Save The Wagons
Emocionante: Danilo Mottin não segura as lágrimas diante da S4
Imagem: Rodrigo Ronconi/Save The Wagons

Pedido feito, dou de cara com Danilo Mottin. Diante da surpresa o criador da página não segura as lágrimas. A emoção tinha explicação: logo depois descobri que a "Save The Wagons" nasceu por conta da admiração pela perua de Ayrton.

Conforme me dirijo ao local onde a S4 ficaria exposta vejo as pessoas comentando entre si. "É a perua do Senna!", exclamam. Aliás, muita gente reconheceu o carro pelas placas "BSS", de "Beco" Senna da Silva. Nunca vi tantos celulares apontados para mim. Muita gente registra o momento em redes sociais. Assim que saio do carro sou cumprimentado por estranhos como se tivesse acabado de vencer uma corrida - quase como acontecia com Ayrton.

Não precisa dizer que viramos (eu e a S4) a atração do evento por alguns minutos... - Rodrigo Ronconi/Save The Wagons
Não precisa dizer que viramos (eu e a S4) a atração do evento por alguns minutos...
Imagem: Rodrigo Ronconi/Save The Wagons

A hora do adeus

A S4 permaneceu no local por algumas horas devidamente acompanhada por Lothar. Paciente, ele tirou todas as dúvidas dos visitantes como se fosse proprietário daquela Avant.

Foi legal ver tanta gente emocionada por estar perto de um veículo que há tempos deixou de ser um simples automóvel. Hoje a perua virou uma forma de relembrar os feitos de Ayrton e, por que não, sentir saudades do atleta que perdemos em 1994.

Todo cuidado é pouco na hora de estacionar a perua do "Chefe" - Rodrigo Ronconi/Save The Wagons
Todo cuidado é pouco na hora de estacionar a perua do "Chefe"
Imagem: Rodrigo Ronconi/Save The Wagons

O relógio marcava 15h30 quando Lothar embarcou a S4 de volta para São Paulo, onde reencontraria seu velho parceiro NSX. Antes disso, porém, pedi licença para me despedir de minha nova colega com um beijo - no volante.

Meu primeiro contato foi breve, mas suficiente para torná-lo inesquecível. Volto para casa feliz pela sensação de ter sido um dos poucos privilegiados a dirigir a S4 Avant. E torcendo para que o reencontro não demore muito para acontecer. Autorização para o "Chefe" eu já pedi.

Todo mundo queria uma recordação ao lado da perua de Senna - Rodrigo Ronconi/Save The Wagons
Todo mundo queria uma recordação ao lado da perua de Senna
Imagem: Rodrigo Ronconi/Save The Wagons

Ficha técnica: Audi S4 Avant 1993

Ano/modelo: 1993/1994

Motor: V8, 4.2.

Potência: 280 cv.

Torque: 40,8 kgfm

Câmbio: manual de seis marchas

Velocidade máxima: 250 km/h.

0 a 100 km/h: 6,6 s

Comprimento: 4,79 m

Entre-eixos: 2,69 m

Porta-malas: 390 litros

Preço: inestimável

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