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Kelly Fernandes

"Mundo é diferente da ponte para cá": o que o rap ensina sobre mobilidade

Edson Lopes Jr./UOL
Imagem: Edson Lopes Jr./UOL
Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

04/12/2020 04h00

Tentando resgatar raízes, lembrei do quanto aprendi sobre mobilidade urbana com o rap. Entre as primeiras músicas que, ao entrar pelos ouvidos, abriram os olhos, está "A Ponte", faixa do álbum "Tarja Preta", de autoria de GOG - Genival Oliveira Gonçalves. Ao contar a história da construção da Ponte Juscelino Kubitschek, o rapper e poeta nascido em Sobradinho/DF relembra "que o mundo é diferente da ponte para cá", usando trecho da música de mesmo nome dos Racionais MC's.

A obra viária no Distrito Federal foi realizada com a intenção de conectar três áreas - Centro, São Sebastião e o Paranoá - passando por cima não só do Lago Paranoá, como também de vidas e barracos, canta GOG. Lembrando que as desapropriações e expulsões de pessoas empobrecidas são marcas da realização de obras de infraestrutura de transporte no país. A letra conta que as obras da ponte foram iniciadas depois do início da construção do metrô do Distrito Federal, mas terminaram antes e custaram o dobro do preço previsto no projeto.

O metrô do DF, apesar de não ter sido adotado como símbolo de união entre Brasília e o Sertão, como a Ponte JK, junto com o sistema de ônibus forma o laço que aproxima Plano Piloto e Ceilândia.

Em São Paulo, os trilhos do metrô e do trem, com a presunção de dar conta das distâncias físicas e sociais, também fazem a conexão entre o centro e a periferia, além de conectar a capital paulista com municípios da Região Metropolitana como Osasco, Itapevi, Franco da Rocha e outros. "Assim que é", começa a música "O Trem", do RZO, sigla para Rapaziada da Zona Oeste, que conta um pouco da saga de pessoas que dependem do sistema de trens da capital paulista.

A música chama atenção para a realidade que espera trabalhadores e trabalhadoras nas estações: vagões lotados até o teto, "onde centenas vão sentados e milhares vão em pé" e pessoas ficam presas na porta "tomando borrachada" enquanto a marmita amassa na bolsa. Ao final de um verso, a pergunta: "Como se pode ter um dia lindo?"

Apesar disso, curiosamente, junto aos trilhos, o berço do Hip-Hop paulistano expandiu-se após migrar da esquina da Rua 24 de Maio com a Praça Dom José Gaspar para a Estação São Bento do metrô, mudança induzida pelo aumento da repressão policial que recaiu com força sobre corpos jovens e periféricos. Assim, essa estação que era o meio ou início da volta para casa, ganhava cor, movimento e acolhimento através de versos, rimas e passos de dança.

No documentário "São Paulo é o Berço do Hip-Hop", o rapper Rooneyoyo e o DJ Alam Beat contam como descobriram o movimento no caminho entre os cursos de qualificação profissional que faziam no centro e a periferia. Homens e mulheres, em sua maioria jovens, em vez de seguirem direto para casa, ficavam por ali até o horário do último trem, metrô ou ônibus.

A julgar pela rede noturna atual da capital paulista, certamente parte deles passou a noite em bancos, em balcões de bar ou com a cabeça recostada em algum degrau de uma escadaria, à espera de transporte disponível para levá-los de volta para casa.

Aliás, "A volta pra Casa" é título da música de Rincon Sapiência, rapper da Zona Leste de São Paulo, na qual ele narra o trajeto que conecta, e por vezes separa, mulheres de suas casas: "Trabalhadora voltando pra casa/ Perguntando pra Deus:/ Por que não tenho asas?/ Pra voar pelos ares e voltar para o lar". E essa dor da volta não termina com a chegada na estação ou no ponto de ônibus mais próximos de casa, pois no caminho a rua escura e o medo da violência ainda precisam ser superados.

Violência que também vem do Estado, como lembra Preta Rara, na música "Falsa Abolição": "Branco correndo tá atrasado/ Preto Correndo tá armado/ E é tiro de polícia pra todos os lados". Violência que fez Dina Di - vocalista do grupo de Campinas/SP "Visão de Rua" -, chorar em "Periferia É o Alvo": "Periferia, noite e dia, tristeza e alegria", enquanto pergunta "cadê a cura, o remédio e cadê a vacina" para curar o vírus da pobreza?

Pobreza que não é de ninguém, porque ninguém é pobre, e sim empobrecido pela ação ou inação deliberada do Estado. Situação, segundo Dina Di, expressa na calamidade, no alagamento, nas ruas de terra esburacadas e mal iluminadas - "pesadelos da população". Mas ela também canta que periferia não é só tristeza.

As periferias são ponto de comunicação com o mundo, não estão à parte dele, como rima BK, rapper carioca em "Castelos & Ruínas": "Tô de rolé pela minha rua de olho no mundo/Tô de rolé pelo meu bairro de olho no mundo". Prova disso são os saraus e slams se espalhando pelas periferias e assumindo mais uma vez o protagonismo na produção cultural, literária e musical que perpassa dos corpos e se assenta nos territórios como raízes.

Hoje estou distante das periferias para ficar perto do trabalho, mas sempre com saudade e medo de me perder do lado de cá. O rap é minha Ponte. E, se eu fosse batiza-la, certamente não seria com o nome de um político, como a Ponte JK. Provavelmente a chamaria com um nome que traga o saber das letras de grupos de rap e poetas citados ao longo deste texto, entre outros mais, como Slam das Minas, Faces do Subúrbio, Djonga, Linn da Quebrada, Drik Barbosa, Karol de Souza, Froid e Emicida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.