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Caçador de carros: Por que a Chevrolet deve ficar no Brasil?

Chevrolet Omega: para muitos, o melhor carro já fabricado no Brasil. GM jogaria história fora se abandonasse o país - Arquivo/Folha de S. Paulo
Chevrolet Omega: para muitos, o melhor carro já fabricado no Brasil. GM jogaria história fora se abandonasse o país Imagem: Arquivo/Folha de S. Paulo
Felipe Carvalho

Felipe Carvalho é administrador de empresas, consultor e primeiro "caçador de carros" profissional do país. Seu canal no YouTube dedicado a avaliações de achados automotivos tem mais de 100 mil inscritos. www.youtube.com/CarrosdoPortuga

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

08/02/2019 13h00

Resumo da notícia

  • Donos de Opalas e o Omega não podem ficar órfãos
  • Monza e Vectra redefiniram o mercado
  • Marca teve carros dos quais os donos se orgulham
  • Kadett, Tigra, Calibra foram esportivos marcantes
  • Marca vendia desejo em forma de carro

No mês passado, recebi um "meme" que dizia que a Chevrolet estava de saída do Brasil. Confesso que não me atentei, nem lembro qual era a piada, mas fazia alguma relação com o atual governo. Passou batido como tantos outros "memes" que recebemos todos os dias no celular.

Horas mais tarde, nas tradicionais lives do YouTube que faço todas as noites, me perguntaram o que eu tinha para dizer sobre essa possível saída da General Motors. Fiquei sem saber o que dizer. Então, apesar do "meme", aquilo era um assunto sério?

O ponto é que a GM parece não estar feliz com os resultados da sua marca Chevrolet no Brasil, mesmo sendo líder de mercado nos últimos anos, com o Onix batendo recordes de vendas. Por conta disso, a bomba de que poderia parar com as operações, caso não houvessem mudanças por parte do governo e dos sindicatos.

Deixo essa parte política e administrativa de lado, você já se inteirou disso aqui em UOL Carros. Na verdade, quero mostrar alguns motivos para que a General Motors jamais saia do Brasil. Todos eles ligados à essência da marca que, a meu ver, parece ter se perdido nos últimos anos.

Donos de Opalas e o Omega não podem ficar órfãos

O Opala é um dos carros antigos mais queridos do Brasil. Mesmo depois de quase três décadas do final de sua produção, é objeto de desejo da maioria dos amantes de carros.

Recentemente, escrevi sobre ele, no mês em que comemorou 50 anos do primeiro modelo fabricado no Brasil. Procurei por alguns donos que me fizeram entender as razões de tamanha paixão. São inúmeros fãs-clubes do Opala espalhados pelo Brasil, além de presença obrigatória em qualquer evento de carros clássicos. Que empresa não gostaria de ter um produto tão marcante? 

Parece que a GM não dá tanto valor para isso, basta ver que no último Salão do Automóvel de São Paulo, nenhum Opala estava no estande para celebrar os 50 anos. 

Depois de 24 anos de produção, o Omega entrou em seu lugar e manteve a clássica configuração de motor 6-cilindros em linha com tração traseira, adicionando refinamentos técnicos de um carro atualizado. A boa fama do "Absoluto" se mantém até hoje: para muitos, é o melhor carro nacional de todos os tempos. 

Quem acompanha os preços dos carros antigos, percebeu que o Omega já é um clássico, com preços cada vez mais elevados. Essa categoria dos grandes sedãs não faz mais parte do mix  de produtos da General Motors do Brasil, ou seja, a marca abriu mão desse público, o que para mim não faz o menor sentido quando observo esse histórico.

Monza e Vectra redefiniram o mercado

No início dos anos 1980, existia uma lacuna entre o pequeno Chevette e o grande Opala, que foi preenchida com o Monza. Um dos maiores sucessos de vendas do Brasil, chegou a liderar por alguns anos o ranking dos mais vendidos, superando vários carros de entrada mais baratos. Uma primazia jamais conseguida por outro carro médio brasileiro. Ainda hoje, o Monza aparece em qualquer lista dos carros usados mais vendidos, mostrando que seu projeto simples e robusto tem a cara do Brasil.

O Vectra entrou em seu lugar de forma tímida, tanto que ainda dividiram espaço por alguns anos nos show rooms das concessionárias, mas bastou lançar a segunda geração para voltar a dominar o mercado dos sedãs médios. Na terceira geração, fomos enganados com um Astra com nome de Vectra e o consumidor não aprovou, tanto que as japonesas começaram a ganhar mercado com seus Corolla e Civic, algo que se mantém até hoje.

Felizmente essa categoria está bem representada pelo atual Cruze, que inclusive eu considero superior aos japoneses citados, mas que ainda não reconquistou o mercado perdido.

Chevrolet teve esportivos marcantes

Opala SS, Monza SR, Kadett GSi, Corsa GSi, Vectra GSi, Calibra e Tigra foram algum dos esportivos mais legais do nosso mercado.

Todos eles tinham apelo visual, com cores chamativas e motores empolgantes para nossa realidade. Comprar um Chevrolet esportivo nos dias de hoje, só se você tiver mais de R$ 300 mil reais para dar num Camaro. Falta um Onix GSi ou um Cruze SS para realimentar esse mercado.

Propagandas da GM vendiam desejo

As atuais propagandas de carros parecem focar somente nos preços e nas condições de pagamento. Dificilmente vejo alguma que foca mais no valor que o carro entrega, e nisso a Chevrolet era muito boa.

Todos os carros citados acima ainda são desejados porque apostavam forte na emoção desses produtos. As imagens faziam o consumidor desejar um Chevrolet. Até as músicas dessas propagandas eram marcantes.

"Orgulho em ter um Chevrolet"

Em 1994, quando meu pai trocou um Fiat Tempra por um Omega, lembro de quanto orgulho sentiu quando se viu dentro do "Absoluto". Não faz muito tempo, era comum ouvirmos isso dos donos de Chevrolet.

A qualidade construtiva, a simplicidade mecânica, o desempenho, o ronco do motor, o conforto, o acabamento e a excelente liquidez faziam dos Chevrolet carros desejados. Isso foi se perdendo ao longo dos últimos anos. Ninguém se orgulha em ter um Agile ou um Cobalt, por exemplo. São apenas bons carros racionais, que jamais se tornarão clássicos.

Me parece que a imagem da Chevrolet era muito melhor quando era segunda ou terceira em vendas. Agora que é líder, vende bem, mas ninguém deseja ou se orgulha em ter um Chevrolet na garagem.

Para finalizar, deixo aqui minha percepção de que ela vai continuar as operações no Brasil e que isso não passa de um blefe. Assim como a Ferrari, que várias vezes ameaçou deixar a Fórmula 1, mas no fim das contas parece não viver sem ela e continua sendo a única escuderia presente em todos os campeonatos, a Chevrolet com sua operação gigantesca e uma história de respeito, não vai conseguir viver sem os brasileiros.

Tabela Fipe

Você sabe quanto variou o preço do seu carro nos últimos meses?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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