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Estudo internacional diz que covid-19 no Brasil mata mais pardos e negros

20.mai.2020 - Ala voltada para pacientes com coronavírus em UTI no hospital Gilberto Novaes, em Manaus - Michael Dantas/AFP
20.mai.2020 - Ala voltada para pacientes com coronavírus em UTI no hospital Gilberto Novaes, em Manaus Imagem: Michael Dantas/AFP

27/05/2020 16h48

Um estudo divulgado hoje no Reino Unido aponta que critérios étnicos e sociais são um fator de peso nas taxas de mortalidade dos doentes de covid-19 no Brasil. Segundo a pesquisa pilotada pela Universidade de Cambridge, pessoas pardas e negras, principalmente no norte e nordeste do país, têm mais chances de morrer vítima do novo coronavírus.

A população mais vulnerável ao novo coronavírus no Brasil — hoje a segunda nação mais afetada pela pandemia, depois dos Estados Unidos — pode ser identificada pela cor da pele e o endereço. As desigualdades sociais históricas registradas pelo país estão patentes nos números de mortos pela doença em hospitais, segundo o estudo "Variação étnica e regional na mortalidade por covid-19 em hospitais no Brasil", realizado pela Universidade de Cambridge, em parceira com a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

O documento inédito alerta que negros e, sobretudo pardos, estão mais sujeitos ao risco de morte, e que as populações do norte e nordeste têm taxa de mortalidade mais alta. Eles também apresentam mais comorbidades do que no resto do país - o que explica, em boa medida, o número de óbito nestes estados.

"Ser pardo é o segundo maior fator de risco, depois da idade, no Brasil", afirma à RFI Mihaela Van der Schaar, professora de Inteligência Artificial e Medicina do Centro John Humphrey Plummer da Universidade de Cambridge, uma das autoras do relatório.

Para a surpresa dos especialistas, embora esteja em uma faixa de desenvolvimento sócio econômico mais alta, com um percentual maior de brancos entre a população, o Rio de Janeiro mostrou-se um ponto fora da curva. O estado tem uma das mais elevadas taxas de risco de morte pela doença (1.82), semelhante às de Pernambuco (2.0), Amazonas (1.93) e Ceará (1.10), que registraram os piores indicadores para o Brasil. Quanto mais distante da média 1, maiores os riscos. O Paraná teve o melhor índice, com 0.56.

"A combinação da intensidade do surto, das falhas do governo para implementar intervenções não-farmacêuticas e da composição social e étnica complexa faz do Brasil um país particularmente importante e interessante para o estudo do impacto da covid-19", diz o documento.

O trabalho, que começou a ser elaborado pelos pesquisadores há quatro semanas, surgiu justamente da preocupação de avaliar a potencial vulnerabilidade de uma população tão diversa como a brasileira.

"Nosso relatório confirma que a etnicidade, infelizmente, é particularmente um risco proeminente para a mortalidade por covid-19. Os grupos étnicos de pardos e negros em especial estão mais sujeitos a riscos", afirma Van de Schaar.

Sistema federativo instável contribuiu com situação

O impacto do coronavírus sobre as populações menos favorecidas e de minorias étnicas não chega a ser uma novidade. As estatísticas revelam desigualdades enormes nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo. No entanto, os autores acham que o Brasil é um caso ainda mais interessante a ser estudado, dada sua diversidade racional e social. Além disso, Van der Shaar destaca que o país é dos poucos a tornarem público esses dados, o que facilita a vida dos pesquisadores.

Brasileiros hospitalizados nas regiões norte e nordeste tendem a apresentar mais comorbidades do que no Centro-Sul (Sudeste, Sul e Centro-Oeste), com proporções similares entre os vários grupos étnicos. Para os autores do estudo, os fatores de maior risco de mortalidade entre pardos e negros têm implicações sociais consideráveis e precisam ser levados a sério, uma vez que esses grupos, menos atendidos pelas redes de proteção social, têm menos possibilidades de ficar em casa ou de trabalhar a distância. Esse universo de pessoas inclui uma significativa parcela de trabalhadores das áreas de saúde e serviço social, o que implica uma questão ainda mais séria para o país, por se tratar exatamente do contingente de profissionais que estão na linha de frente do combate ao vírus.

"Contribuíram para o impacto da doença (no país) um sistema federativo particularmente instável e situação socioeconômica frágil", destaca o texto.

No norte do país, somente asma e doenças de imunossupressão são as únicas enfermidades que matam menos de 70% dos pacientes internados. Doenças renais (81,2%), diabete (80,1%), doenças neurológicas (78,8%) e obesidade (77,6%) estão no topo da lista. Enquanto isso, na região Centro-Sul, somente as doenças renais e as neurológicas se mantêm acima de 70%, com percentuais de 72,8% e 70,3%, respectivamente.

Menos acesso ao sistema de saúde

O estudo evita especular as razões que explicam todas essas diferenças, mas lembra que a população da região norte, que apresenta o maior número de óbitos entre os pacientes hospitalizados, tem indicadores piores de saúde e um menor grau de acesso à saúde ou disponibilidade dos serviços (CTI, por exemplo) para pardos e negros.

"Parece que há diferenças étnicas substanciais na proporção de pacientes admitidos nos CTIs, e isso varia também entre as regiões Norte e Centro-Sul. Deve-se destacar ainda que a maior parcela de mortes de pacientes que não foram admitidos nos CTIs é de pardos", diz o estudo, que prossegue: "Isso deve refletir os níveis mais altos de acesso ao sistema particular de saúde de brancos em relação aos pardos, na medida em que as políticas de admissão nos CTIs são conhecidas pelas diferenças entre as redes de hospitais públicas e privadas".

Dados de quase 100 mil pacientes

O estudo considerou os dados epidemiológicos de 99,5 mil pacientes brasileiros, que, depois de filtrados pelos critérios desejados (etnia, idade, sexo, geografia, sintomas e comorbidades), resultaram na análise de 11,3 mil pacientes hospitalizados. Segundo Van der Schaar, esses dados vão continuar a ser atualizados durante a pandemia. "Esta uma primeira análise. No futuro, fatores culturais e socioeconômicos devem adicionar valor aos dados", diz a professora. O documento divide em cinco as etnias brasileiras, que são autodeclaradas pela população: branca, parda, negra, amarela e indígena.

"Essa análise motiva um esforço urgente por parte das autoridades brasileiras para considerar como a resposta nacional à covid-19 pode proteger melhor os pardos e negros brasileiros, assim como as populações nos estados mais pobres do país", conclui a professora.

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