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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Podemos sofrer lavagem cerebral? Se sim, estamos em risco?

Malcolm McDowell em cena de "Laranja Mecânica" (1971), filme de Stanley Kubrick - Divulgação
Malcolm McDowell em cena de "Laranja Mecânica" (1971), filme de Stanley Kubrick Imagem: Divulgação

Marcelo Testoni

Colaboração para o VivaBem

13/02/2022 04h00

Quem nunca ouviu alguém dizer que fulano mudou tão radicalmente sua forma de pensar, ver o mundo, que parece ter sofrido uma lavagem cerebral? Embora pareça que o cérebro foi lavado com água e sabão e todas as convicções do sujeito escoaram pelo ralo, essa expressão não deve ser entendida de maneira literal. Lavagem cerebral, reforma do pensamento, ou ainda reeducação forçada são, na verdade, sinônimos para manipulação, persuasão, coerção.

No passado, durante guerras, acreditava-se que com torturas físicas e psicológicas se era capaz de mudar crenças, atitudes e comportamentos de prisioneiros, fazendo-os confessar crimes, sentirem-se culpados e torná-los descrentes de seus ideais. Hoje, o entendimento é de que estando extremamente vulneráveis e em perigo mortal, podemos agir completamente diferente do nosso normal. Mas não há consenso de que a lavagem cerebral funcione, deixando-a mais para a ficção, como no filme "Laranja Mecânica", no qual o líder de um grupo violento é submetido ao método para se tornar pacífico.

Agora, pessoas podem, sim, ser influenciadas por outras sorrateiramente, sem que percebam. Todos estão sujeitos a isso, sobretudo os mais fragilizados, com problemas, que não se sentem parte de uma comunidade, ou que preferem achar culpados a ter de se esforçar e arriscar soluções. O processo para esse tipo de lavagem ocorrer é gradual, com muito consumo de uma mesma informação, teorias e interação com pessoas que pensem igual, levando a uma radicalização.

Como o cérebro é "lavado"

Nossas mentes, instintivamente, buscam por padrões em tudo, o tempo todo, e quando isso dá certo é difícil de ignorar. Sabe quando se enxerga o formato de um rosto numa fruta ou numa rocha, por exemplo? É exatamente isso. Para sobreviver, nossos ancestrais precisavam associar sons na mata com a possível presença de um predador, cheiros e tons estranhos com algo que pudesse fazer mal à saúde e por aí vai. Sem esse mecanismo, estaríamos enrascados.

O lado ruim é que ele pode ser manipulado. Assim, ao se deparar com alguém que tenha um jeito, uma forma de pensar diferente, desagradável, pode-se achar que isso represente uma ameaça e requer ser combatido. "Ainda mais quando se deseja pertencer a uma seita, um partido, uma ideologia. E pessoas que se unem movidas por reações emocionais correm risco de parar de refletir, de se questionar, é o famoso Maria vai com as outras", aponta Liliana Seger, doutora em psicologia pelo IPUSP (Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo).

Nessas condições, é muito fácil se considerar um revolucionário, um ser especial, com poder para mudar tudo, além de ter fortes empolgação e convicção. A mudança no comportamento ocorre porque a pessoa aceita e passa a agir de acordo com os estímulos recebidos, como se não tivesse mais atitudes próprias, como se os pensamentos não fossem mais dela. Isso pode começar a vir por meio de mensagens subliminares e extensivas de gente influente.

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Negacionistas sofrem essa "lavagem"?

Quando, de maneira generalizada, a sociedade perde a confiança em crenças, instituições científicas, governos, veículos de comunicação, independentemente dos motivos que possam estar por trás, grupos extremistas e conspiracionistas ganham força e persuadem com mais facilidade. O objetivo deles é muito simples: dividir as coisas e pessoas em lados opostos por meio de narrativas simples e acessíveis, acompanhadas de uma explosão de informações.

"Pela repetição, gera-se condicionamento, pensamento fixo, convicção de que tal coisa agora seja melhor do que antes, ou vice-versa. São utilizados métodos agressivos, propagandas, e o sujeito se deixa levar por marketing, movimentos políticos, religiosos. Renuncia referências, mas não por desejar, por incapacidade de lidar com situações", diz Myriam Albers, psicóloga especializada pela Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas) e da Clínica Maia (SP).

E aí também entram as redes sociais, que reforçam a "lavagem", opinam as especialistas. Liliana Seger, do IPUSP, explica que palavras relacionadas a emoções e princípios individuais atraem muito mais nossa atenção do que as neutras, e quanto mais se procura, consome conteúdos fáceis de se indignar, sobretudo envolvendo boatos, opiniões partidarizadas, provocações, por conta dos algoritmos, mais redirecionados somos e presos a isso ficamos.

Escapar exige empenho e ajuda

Para não ser a próxima vítima de uma grande pressão externa que quer lhe reeducar para mudar seu senso de identidade interior, a primeira recomendação é se informar, sobre diferentes assuntos, mas com fontes confiáveis, e acompanhar também o que se passa ao redor do mundo. Como o cérebro gosta de padrões, respostas e histórias prontas, é necessário tirá-lo da zona de conforto e isso exige pensamento crítico, cético, curiosidade e investigação.

Agora, se o cérebro foi "reprogramado" e o comportamento evoluiu para uma compulsão, por compras, pessoas, grupos, será necessário "desprogramá-lo". "Serão necessárias estratégias de psicologia/psiquiatria, usadas como quando se trabalha um vício, para modular a mente e fazer o dependente perceber que, embora haja prazer, aquilo é prejudicial, e fazê-lo mudar", informa Júlio Pereira, médico pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) e neurocirurgião.

Obsessões levam indivíduos transformados em marionetes a temerem ser abandonados por quem é igual ou está com eles. Por isso, quando se trata de amigos, familiares, não entre em embate, isso só piora o problema. Faça com que se sintam parte do seu grupo, para "resgatá-los", ajudá-los a compreender os fatores que os fizeram a se juntar a grupos específicos, ou ter ideias tão avessas. Só assim será possível reconstruir suas vidas e fazer as devidas reparações.

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