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Enfermeira está há 1 ano atuando em UTI de covid: "Uma guerra por plantão"

Assessoria Hospital Albert Einstein
Imagem: Assessoria Hospital Albert Einstein

Carlos Madeiro

Colaboração para Viva Bem

26/02/2021 04h00

A enfermeira Luciene Pontes, 41, nunca imaginou que viveria os últimos 12 meses da forma que viveu: na linha de frente de um hospital cuidando de pacientes graves com covid-19, em meio a uma pandemia que já matou mais de 250 mil pessoas.

Com 15 anos de profissão, ela atende pacientes infectados com coronavírus desde o primeiro caso no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, que também foi o primeiro do Brasil —exatamente há 1 ano. Neste depoimento ao VivaBem, Luciene conta detalhes, aprendizados dores e esperanças que teve ao longo desse período em que vem tratando pessoas internadas na UTI (Unidade de Terapia Intensiva)

O começo

"O primeiro momento foi assustador. Havia muito medo do desconhecido, de não saber cuidar do paciente, de pegar e passar a doença. Nós tivemos um grande apoio da comissão de controle de infecção hospitalar, que nos tranquilizou e ensinou como se paramentar e desparamentar. Isso foi muito importante para nos apoiar.

Na verdade, colocamos toda nossa confiança nos EPIs (equipamentos de proteção individual). Lembro como se fosse hoje a enfermeira nos reunindo, dizendo que íamos receber os primeiros pacientes e tentando nos explicar o que deveria ser feito.

Lembro do primeiro paciente, era um senhor. Recordo que, quando tive de entrar no quarto, veio aquela sensação: chegou a hora de atender. Naquele momento, apesar de tudo que passa na cabeça da gente, o soberano é o cuidado com as pessoas.

A gente sabe que está entrando numa zona de risco, em um ambiente infectado, mas quando você olha para ele, vence o medo.

As mudanças

Na verdade, quando começou a chegar pacientes, os mais afetados eram os idosos com várias comorbidades, que tinham doenças preexistentes. Era assustador ver o avanço pela forma como se dava o óbito. Eram idosos que sempre internavam com a gente. Mas não é comum as pessoas morrerem de forma tão aguda, como a covid-19 faz. Foi triste.

Com o tempo, isso foi mudando. Hoje esse perfil engloba todo tipo de população, a faixa etária foi diminuindo. Obviamente, ainda existem os predominantes, mas mudou muito o perfil. Sempre falo que hoje a covid tem mais o alvo. A gente não sabe como nosso corpo vai se comportar diante do vírus, é imprevisível.

E nessa nova fase, nessa segunda onda, os pacientes já chegam graves e estão ficando mais graves, com questões como a insuficiência renal, as tromboses, o AVC (acidente vascular cerebral).

Tem paciente que consegue desenvolver tudo de uma vez só, são múltiplos eventos agudos. Ficamos o tempo todo correndo atrás do prejuízo em relação àquela pessoa que já está muito grave, algumas vezes com necessidade de respiração mecânica.

No meio disso ainda temos os crônicos pós-covid, que ficam internados por muito tempo. Tem paciente que passa semanas, até três meses. Tem aquele paciente que demora para negativar, que passa um mês para isso. E quando bate essa data, o corpo já está consumido, não tem mais músculo. Como foi muita sedação, não sabemos o nível de consciência. Só o tempo vai dizer como ficarão, como serão as sequelas, a sobrevida.

Expertise com prática

Enfermeira Luciene Pontes 2 - Assessoria Hospital Albert Einstein - Assessoria Hospital Albert Einstein
Imagem: Assessoria Hospital Albert Einstein

Começamos a adquirir uma expertise nas prevenções, e nos adiantamos para possíveis agravamentos. Então o paciente que tem trombose, que está usando anticoagulante, a gente fica sob vigilância intensa de qualquer sinal de sangramento em qualquer parte do corpo para possíveis agravamentos.

A gente viu, com o passar do tempo, que a covid afeta outros órgãos, atua de outras formas além dos pulmões. Aí você começa a ter uma vigilância maior, qualquer suspeita e já ficamos ligados.

Não diria que, com isso, se salva mais gente. O que acontece é que a gente consegue localizar as possíveis complicações, e com isso tenta corrigir. Não quer dizer que a pessoa vá sobreviver a isso. E o que vejo é que, se continuar do jeito que está, vai morrer mais gente! O vírus continua e está mais contagioso, como vemos com essas mutações.

É muito comum familiares falarem de arrependimento. Eu atuo com pacientes graves, poucos chegam conscientes. O que ouço são muitos relatos de familiares que ficaram arrependidos porque levaram a doença para dentro de casa —e aí não é mais possível fazer nada.

Isso é o que eu mais vejo: a culpa ser maior do que a tristeza, do que a perda. Eles relatam muitas vezes também que eram idosos que não obedeciam, eram teimosos, que a família lutava para ele se proteger, mas o paciente não aceitava.

A vacina chegou, mas...

Vacina AstraZeneca - Tânia Rego/Agência Brasil - Tânia Rego/Agência Brasil
Imagem: Tânia Rego/Agência Brasil

Agora, com a vacina, por mais que esteja a conta-gotas, há uma luz no fim do túnel. Eu fiz parte do estudo e não recebi placebo, foi vacina. Então, estou imunizada desde setembro, e nunca peguei antes. Mas mesmo vacinada, sei que posso transmitir, tenho de cumprir as medidas de prevenção.

Mas sem dúvida isso nos aliviou, não só por nós, mas por ter começado a vacinação geral. Temos a consciência de que se trata de um plano muito falho de imunização, mas pelo simples fato de ter iniciado, o clima está um pouco melhor para nós, da linha de frente.

Mas digo que continua muito cansativo, exaustivo. É uma guerra a cada plantão. São muitos pacientes graves, que demandam muitos cuidados. Essa segunda onda talvez seja decorrente das festas de fim de ano, e agora a gente já se prepara para o pós-Carnaval.

E é trágico que a população ainda tenha esse comportamento suicida. E não só: que pode pegar, passar e matar um familiar, um amigo, um colega de trabalho, alguém no mercado.

Recado

Eu só queria saber o que se passa na cabeça das pessoas. Estamos em um caos mundial, em que várias pessoas estão morrendo, com uma tristeza sem fim; e ela, por um motivo pessoal, por um prazer, porque quer continuar indo a uma festa, esquece de tudo.

Queria entender que sociedade é essa que a gente está vivendo. Não me parece nada com aquela que diz e prega viver em prol dos seus próximos. Isso não é um julgamento meu às pessoas, só queria entender o que se passa.

Vejo que em relação aos nossos governantes também temos problemas. A sociedade depende de uma liderança em quem confiar, para escutar soluções. Quando não se tem isso diante de uma pandemia, o resultado é desastroso.

Essas pessoas estão morrendo também por direções erradas que são dadas. A informação errada te leva a um caminho perigoso, o inimigo é invisível; isso leva muitas vezes à morte. Todos precisam entender que essas pessoas da linha de frente estudaram, conhecem, sabem como se prevenir, como se proteger.

Nosso Ministério da Saúde não tem condições de dar ordens porque não são pessoas da área. Como vai orientar pessoas se não sabe como se prevenir? Como fazer um programa nacional de imunização?

Resumo isso como inabilidade e incompetência, e as pessoas vão em direção a isso porque é a liderança. Enquanto houver a voz da liderança contrária, vão morrer mais e mais pessoas."

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