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Jejum intermitente não reverte pré-diabetes, mas ajuda a controlar glicemia

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Imagem: iStock

Carol Firmino

Colaboração para o VivaBem

15/01/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Estudos que observam os efeitos do jejum intermitente em indivíduos com diabetes ainda não são 100% conclusivos
  • A defesa do método se deve à sua contribuição para melhor funcionamento das células do corpo
  • Análises pré-clínicas em animais mostram influência positiva no tratamento de algumas doenças crônicas, como a obesidade

Os efeitos do jejum intermitente, que preconiza grandes intervalos de tempo entre refeições, em indivíduos com diabetes ainda não são totalmente conhecidos pela ciência. Por mais que essa seja uma prática milenar, estudos sobre o tema ainda não são 100% conclusivos, além de serem muito recentes. Mas isso não quer dizer que a dieta não possa trazer benefícios em estágios anteriores à doença, como o pré-diabetes.

O termo pré-diabetes é utilizado para indicar que um paciente apresenta risco alto para desenvolver diabetes tipo 2. É um estado intermediário entre uma pessoa saudável e alguém que tem a doença, mas que já é capaz de gerar complicações como o pé-diabético e problemas nos olhos, além de estar ligado à hipertensão e problemas renais.

No pré-diabetes, a glicemia (nível de açúcar no sangue) começa a ficar alta. Quando o resultado em jejum é maior ou igual a 100 mg/dl, é um sinal de que o paciente pode ter a condição —no diabetes tipo 2, esse valor fica acima de 125 mg/dl. Felizmente, o problema pode ser revertido com um estilo de vida saudável, como ter uma boa alimentação, perder peso, fazer exercícios físicos, dormir direito. É nessa lista de métodos para controlar as taxas de glicemia que entra o jejum intermitente.

A relação entre o jejum e a glicemia

Em um artigo de revisão publicado em 2019, Mark Mattson, que estuda o jejum intermitente há 25 anos, é neurocientista e professor da Universidade John Hopkins (EUA), e Rafael de Cabo, chefe da Unidade de Envelhecimento, Metabolismo e Nutrição do Instituto Nacional de Envelhecimento em Baltimore (EUA), reuniram algumas evidências sobre as vantagens da dieta.

Nas palavras dos autores, a restrição provoca respostas celulares nos órgãos e atua na regulação da glicose, no aumento da resistência ao estresse e no combate à inflamação. No período de jejum, ocorre ainda uma alteração metabólica que faz com que o organismo passe a queimar ácidos graxos, o que resulta na autofagia, um processo de regeneração celular.

Para se ter ideia como isso funciona, é preciso entender que seguir um padrão alimentar sem incluir o jejum faz com que o organismo dependa da glicose encontrada nos carboidratos para obter energia. Ao jejuar, porém, esses estoques de glicose acabam, forçando o corpo a se reabastecer energeticamente a partir de outro tipo de gordura, os triglicerídeos.

Diabetes - Noppawan Laisuan/iStock - Noppawan Laisuan/iStock
A condição de pré-diabetes pode durar até 15 anos, mas há grandes chances de revertê-la
Imagem: Noppawan Laisuan/iStock

Esse tipo de mudança no metabolismo —que costuma ter início depois de 10 a 12 horas de jejum — é que reforça os benefícios de maneira geral, pois o excesso de triglicerídeos está diretamente ligado à formação das placas de gordura nos vasos do coração. Então, quanto mais alto esse nível, maior o risco de doenças cardiovasculares e problemas no pâncreas ou no fígado.

Os autores ainda defendem que jejuar repetidamente promove respostas adaptativas duradouras, como o crescimento de defesas antioxidantes, reparo do DNA, controle da qualidade das proteínas. Além disso, indicam, a partir de exemplos de estudos pré-clínicos em animais, a influência positiva no tratamento de algumas doenças crônicas, como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, cânceres e doenças cerebrais neurodegenerativas.

Por outro lado, o fato de boa parte dessas evidências não resultar de pesquisas com humanos está entre as críticas que alguns especialistas fazem ao jejum intermitente. Um ensaio, por exemplo, conduzido pela Universidade de Auckland, analisou os efeitos dessa dieta e suplementação de probióticos em pessoas com pré-diabetes e não chegou a resultados positivos sobre a prevenção da doença.

Já outra pesquisa, feita com homens pré-diabéticos e publicada em 2018 no periódico Jornal Cell Metabolism, mostrou que o jejum intermitente, além de aumentar a sensibilidade à insulina e reduzir a pressão arterial, também diminuiu o estresse oxidativo, que é um tipo de inflamação causada por um desequilíbrio entre os radicais livres e antioxidantes. Para chegar a esses resultados, os participantes comeram a mesma quantidade de calorias que estavam acostumados, mas restringiram essas refeições a uma janela de seis horas no começo do dia.

Fazer ou não fazer?

Pessoas com pré-diabetes podem recorrer ao jejum intermitente como alternativa de controle dos níveis de glicemia, desde que ele seja feito da forma correta e com acompanhamento profissional. Mas há outros fatores a serem levados em conta. Um deles é a continuidade do jejum: de acordo com nutricionistas, as mudanças na composição corporal só tendem a acontecer se a restrição de calorias se repetir por muitas semanas.

É aí que está o problema: um longo período de restrição poderia induzir a hipoglicemia, que é a queda dos níveis de glicose no sangue, e trazer consequências mais graves. Além disso, alguns grupos de pessoas correm maior risco de efeitos negativos associados ao jejum, que podem incluir dores de cabeça, tonturas e incapacidade de concentração.

A contraindicação se faz no caso de pessoas idosas, crianças e gestantes, enquanto aqueles que usam medicamentos controlados ou insulina precisam adequar a rotina alimentar à medicação. O método de jejum mais comum é feito em dias alternados ou em período específico do dia (que pode variar de 10 a 24 horas de restrição alimentar total). Nas horas em que a alimentação está liberada, o mais adequado é seguir com a restrição calórica, ou seja, controlar a quantidade de carboidratos, proteínas e gorduras boas.

Lembrando que com ou sem jejum, uma pessoa com pré-diabetes, necessariamente, precisa seguir uma dieta restrita em carboidratos e gorduras para diminuição de 5 a 10% do peso corporal, praticar exercícios físicos regularmente e dormir, pelo menos, sete horas por noite. Somente com um controle total desses hábitos há chance de reverter a situação, com as taxas de sucesso podendo chegar a 60%.

Fontes: Débora Palos, nutricionista da Clínica Dra. Maria Fernanda Barca, graduada pelo Centro Universitário São Camilo (SP), especialista em terapia nutricional e nutrição clínica pelo Ganep Nutrição Humana (SP) e pós-graduada em nutrição clínica funcional pela VP Consultoria Nutricional (SP); Maria Fernanda Barca, doutora em endocrinologia pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), membro da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e da SEE (Sociedade Europeia de Endocrinologia); Páblius Staduto Braga, médico especialista em Medicina do Esporte pela SBMEE (Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte), reumatologista pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), com clínica médica pela PUCSP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), atualmente é diretor do Laboratório de Ergoespirometria e Calorimetria Indireta do Hospital Nove de Julho.