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Com histórias emocionantes, livro de médica reforça a importância do SUS

A realidade difícil de dezenas pacientes atendidos no SUS é narrada poeticamente pela médica Júlia Rocha em "Pacientes Que Curam" - Átila Souza/Divulgação
A realidade difícil de dezenas pacientes atendidos no SUS é narrada poeticamente pela médica Júlia Rocha em "Pacientes Que Curam" Imagem: Átila Souza/Divulgação

Giulia Granchi

Do VivaBem, em São Paulo

21/12/2020 04h00

Qual é o instrumento mais importante de um médico? Estetoscópios, receitas de medicamentos e até os tratamentos mais modernos se tornam obsoletos se quem vai prover o cuidado não escuta quem precisa dele.

Escutar e compreender o paciente —não só seu problema de saúde, mas toda a realidade na qual está inserido— é a porta de entrada para um cuidado efetivo e, muitas vezes, a arma mais poderosa de um profissional da saúde.

É o que nos mostra "Pacientes que curam: O cotidiano de uma médica do SUS", o novo e primeiro livro da médica de família e comunidade Júlia Rocha, mineira, cantora e "especialista em gente", como é descrita em sua coluna no UOL Ecoa.

Com histórias curtas e poderosas de pessoas que passaram pelo seu consultório na UBS (Unidade Básica de Saúde), na UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) ou receberam a médica em suas casas, a autora deixa de fora os termos técnicos da medicina para expor mazelas que os brasileiros conhecem bem, mas nem sempre refletem sobre, como o racismo, o machismo, a miséria, o etarismo e o abandono, para citar alguns.

Trecho livro Pacientes Que Curam - capítulo 7 - vertical - Reprodução/Pacientes Que Curam - Reprodução/Pacientes Que Curam
Imagem: Reprodução/Pacientes Que Curam
Trecho livro Pacientes Que Curam - capítulo 7 - vertical - Reprodução/Pacientes Que Curam - Reprodução/Pacientes Que Curam
Imagem: Reprodução/Pacientes Que Curam

Ao VivaBem, a médica conta que, a princípio, publicar um livro não estava em seus planos. "Comecei postando as histórias nas redes sociais. Para preservar a identidade, trocava o contexto, idade e a profissão dos pacientes. Com o tempo, os relatos tomaram uma proporção maior do que eu esperava —cheguei a ter 40 mil compartilhamentos. Aí começaram a me cobrar: 'por que você não escreve um livro?'", lembra.

Filha de pai médico e mãe cantora, Júlia absorveu os dons dos pais como quem quer aproveitar tudo que há de bom no mundo —e com uma vontade grande de oferecer o que desenvolveu de melhor de volta a ele.

Ela atribui a sua forma de escrever, leve e com uma impressionante riqueza de detalhes nas histórias, descrevendo desde o som dos chinelos se arrastando no corredor da unidade de saúde aos cheiros que os pacientes deixavam na sala, ao seu lado poético. "Como cantora e compositora, tendo a ter esse olhar sensível para as cenas", conta.

Para lembrar das impressões que desejava passar aos leitores, ela desenvolveu um hábito na escrita. "Atendia de manhã e escrevia à tarde. Colocava as palavras no celular mesmo, para não esquecer, e até como uma forma de buscar o aprendizado com um olhar mais afastado, para me reavaliar, entender quais foram minhas condutas. Pelo curto espaço de tempo, as emoções e os episódios ainda estava muito quentes na memória", conta.

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Imagem: Reprodução/Pacientes Que Curam

Apesar de tratar de temas difíceis e na maioria das vezes, histórias de pacientes com problemas que não são facilmente resolvidos com uma consulta, o livro de Júlia Rocha é leve e mantém um tom de esperança ao longo das 304 páginas escritas, colocando a autora como representante daqueles que ainda insistem em acreditar em deixar o mundo um lugar um pouquinho melhor a cada dia.

Ao mesmo tempo, há um lembrete sutil de que como cada paciente é singular, cabe ao indivíduo tomar suas próprias decisões —que muitas vezes não são capazes de mudar a realidade por falta de uma estruturação mais justa da sociedade— e há um limite para as fronteiras que os médicos podem atravessar.

"Com as histórias, quis mostrar que o SUS é essencial, o maior sistema público de saúde do mundo e que pode significar vida ou morte para muitas pessoas. Ele não é um presente, foi uma conquista, e hoje considero que é nossa obrigação moral lutar por ele", diz a autora.

Em um ano tão importante para a saúde quanto 2020, no qual o Brasil e mundo puderam refletir sobre a importância do acesso à saúde, o livro de Julia vem como a confirmação da necessidade de uma atenção primária forte, com profissionais preparados, e ainda oferece uma visão mais ampla da medicina de família e comunidade, que busca amparar os pacientes de forma integral.

"Eu dei a esse livro uma missão: a de levar a importância de lutar por um sistema público e universal que seja capaz de amparar brasileiros que precisam para ter uma vida digna. É o maior grito de 'lutemos pelo SUS' que eu poderia dar", reflete.

Como precisou deixar muitas boas histórias de fora do livro, a médica conta que já planeja uma nova publicação para o próximo ano. "A ideia é lançar um novo volume no primeiro semestre de 2021", diz.

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Imagem: Divulgação

Título: Pacientes que curam: O cotidiano de uma médica do SUS
Autora: Júlia Rocha
Editora: Civilização Brasileira
Páginas: 304

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