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Para cada R$ 32 mil usados em ações pró-cigarro, um fumante morre no Brasil

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Imagem: iStock

Da Agência Einstein

08/09/2020 13h46

No carnaval paulista do ano passado, a escola de samba Gaviões da Fiel levou para a avenida enredo sobre a história do tabaco. Com título: "A Saliva do santo e o veneno da serpente", o samba trazia mensagens como "Liberdade pra você. É um raro prazer. Sabor de emoção. Mas não abuse. Que faz mal pro coração".

Este foi um dos exemplos citados pelo pesquisador do Instituto Nacional de Câncer (INCA) André Szklo durante apresentação de estudo que mede os impactos da interferência da indústria tabagista nas políticas públicas de combate ao fumo. A conta mostra que um brasileiro fumante morre a cada R$ 32,3 mil gastos em estratégias para bloquear, burlar ou atrapalhar medidas para a redução ao tabagismo.

De acordo com a pesquisa, que foi publicada na Revista Brasileira de Cancerologia, o gasto com o tratamento das doenças causadas pelo fumo é quase duas vezes maior do que o dinheiro investido em marketing pela indústria tabagista. "Atualmente, com as proibições de propaganda e outras ações explicitas de publicidade e propaganda do cigarro, as ações de interferência ou bloqueio das políticas públicas para redução do tabagismo não são tão evidentes, mas acontecem com frequência", afirma André Szklo, que atua na Divisão de Pesquisa Populacional do INCA.

Entre as diversas formas de interferência, o pesquisador destaca a pressão para influenciar decisões políticas, alianças com grupos de interesse - como por exemplo, associação de bares que poderiam ser prejudicados com a proibição do consumo de tabaco em suas dependências -, o uso de ações de marketing para moldar a opinião pública e conquistar a simpatia da marca ou do produto.

Também estão na lista propaganda por celular e internet - que são mais difíceis de serem controlados, venda casada (quando a compra de um produto está condicionada a aquisição de outro), divulgação de informações incorretas ou que amenizam os prejuízos causados pelo tabaco e até ações de Responsabilidade Social.

No caso, do samba enredo da Gaviões da Fiel, o tabaco é relacionado ao prazer, à liberdade, à cura. "Ele contempla todas as mensagens estratégicas da indústria para incentivar o uso do produto, como a sedução. Isso faz com que ela consiga moldar a opinião pública usando a mídia para promover posições favoráveis à indústria.

O especialista cita ainda ações de Responsabilidade Social, que criam empatia com consumidores em potencial. "São ações que não estão diretamente ligadas à promoção do produto em si, mas que criam situações que fazem com que a sociedade brasileira crie uma imagem positiva da empresa e do produto ligado a ela. Temos como exemplos doações de álcool gel, dinheiro para construção de hospital de campanha e máscara durante a pandemia."


Para o estudo, os pesquisadores usaram como base dados sobre o comportamento do fumante brasileiro com 35 anos ou mais retirados da edição de 2013 (mais recente) da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), da Secretaria da Receita Federal e de mortalidade relacionada ao tabagismo.

Os cálculos do custo em vidas que representam as ações de marketing da indústria tabagista brasileira tiveram como base as doenças com os maiores custos direto de tratamento: Acidente Vascular Cerebral (AVC), Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) e câncer de pulmão. No Brasil, o consumo de cigarro mata todos anos 157 mil pessoas. O custo anual para tratamento de doenças relacionadas ao hábito de fumar é estimado em R$ 57 bilhões, quatro vezes mais que o valor de R$ 13 bilhões arrecadado com impostos da indústria do tabaco.

"Não temos como atuar em todas as frentes, mas relacionar claramente o que as empresas fazem para capturar novos consumidores é uma forma de esclarecer a população e criar a consciência coletiva a respeito dos prejuízos que o tabaco traz para a saúde em todos os aspectos e que muitas vezes somos enganados por estratégias perversas de marketing", diz André Szklo.

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