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"Esse ano é praticamente impossível vacinar 'pessoas comuns", diz cientista

O cientista Gustavo Cabral tentou ganhar R$ 1 milhão no Caldeirão do Huck, mas deixou o programa com R$ 50 mil - Reprodução TV Globo
O cientista Gustavo Cabral tentou ganhar R$ 1 milhão no Caldeirão do Huck, mas deixou o programa com R$ 50 mil Imagem: Reprodução TV Globo

Do VivaBem

23/08/2020 12h33

O cientista baiano Gustavo Cabral, que lidera uma pesquisa da USP (Universidade de São Paulo) para a produção de uma vacina brasileira contra o coronavírus, encarou um desafio diferente ontem (22). Ele participou do quadro 'Quem Quer Ser Um Milionário?', do Caldeirão do Huck.

Durante o programa, além das questões para tentar ganhar R$ 1 milhão, o pesquisador teve de responder ao apresentador Luciano Huck a verdadeira "pergunta do milhão" neste momento em que vivemos: quando as "pessoas normais" vão receber a vacina capaz de proteger da covid-19?

"Na minha opinião, esse ano, seguindo todos o padrões (de pesquisa), para pessoas comuns (a vacinação) é praticamente impossível", disse o cientista da USP. Cabral explicou a Luciano Huck que o trabalho científico leva tempo, pois precisa ter muitos cuidados antes de liberar uma nova vacina, já que ela deve proteger sem causar nenhum dano.

Para ter a vacina licenciada, é necessário completar a fase 3 dos estudos, uma das mais críticas —em que estão algumas vacinas pesquisadas nesse momento, entre elas a de Oxford, testada no Brasil. "Nessa fase, precisamos utilizar milhares de pessoas em um teste que deve seguir duas situações: ser randomizado (escolher aleatoriamente quem recebe a vacina ou placebo) e duplo-cego (nem o médico nem os voluntários sabem quem tomou a vacina ou placebo), pois aí não tem interferência humana nenhuma (nos resultados)."

Ele explicou que esses testes devem ter, no mínimo, um ano de acompanhamento para saber se a imunização é eficaz e segura. "Claro que vão encurtar (o prazo), mas isso é perigoso não só pela questão dos efeitos colaterais, mas por outro fator bem básico que as pessoas não pensam: 'E se a vacina não funcionar'?".

Cabral explicou a Luciano Huck que a justificativa para testar a vacina em humanos já foi acelerada, após resultados de um estudo em que ela protegeu macacos da covid-19. "Ao ver os pormenores dessa pesquisa, a vacina foi utilizada em apenas oito macacos. Eles não tiveram a doença, mas o vírus foi encontrado em secreções nasais e o teste durou só 28 dias." Ou seja, o tempo de pesquisa foi pequeno e os resultados deixaram dúvidas.

Quando Huck comentou que existia o risco de acelerarem a produção da vacina por pressão social e política, Cabral declarou que as pesquisas já estão mais aceleradas do que deveriam. "Os EUA, por exemplo, já aceitam que a vacina seja licenciada com apenas 50% de proteção. Mas, com 50%, pode ser que a imunização funcione em você e não em mim. Ou seja, eu posso tomar a vacina e dispersar o vírus ainda mais" (por acreditar estar seguro com a imunização e deixar de adotar medidas de proteção).

Eu espero, de coração, estar totalmente errado. Espero ter uma vacina 100% eficiente o mais breve possível. Mas, cientificamente falando, esse ano não devemos contar com uma vacina

Desafios desde a infância

Trabalhar para encontrar uma vacina contra o coronavírus provavelmente é o maior desafio de Gustavo Cabral, mas desde de pequeno ele está acostumado a encarar adversidades. O cientista cresceu no pequeno povoado de Creguenhem, na zona rural da Bahia, que tem menos de três mil habitantes. Vendeu frutas na infância, trabalhou em um açougue na adolescência e só completou o ensino médio aos 21 anos, pois ficou alguns anos fora da escola por não conseguir conciliar os estudos e o trabalho.

Com o dinheiro que juntou trabalhando, terminou o colegial e graduou-se em ciências biológicas na Uneb (Universidade do Estado da Bahia), tornando-se o primeiro da família a completar o ensino superior. Depois, fez doutorado na USP e pós-doutorado na Universidade de Oxford, na Inglaterra, e na Suíça. Ele só retornou ao Brasil recentemente, pouco tempo antes de a pandemia explodir, e assumiu a liderança da pesquisa da USP para encontrar uma imunização eficiente contra a covid-19.

Ah, só para saber, infelizmente Gustavo Cabral não conseguiu ganhar R$ 1 milhão no Caldeirão de Huck. Ele conquistou R$ 50 mil, após responder errado quantas medalhas olímpicas o nadador americano Michael Phelps conquistou na carreira.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, Gustavo Cabral terminou o ensino médio aos 21 anos e não o ensino fundamental

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