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Obsessão por alimentação saudável pode virar doença: reconheça a ortorexia

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Imagem: iStock

Samantha Cerquetani

Colaboração para o VivaBem

11/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • A ortorexia nervosa causa uma preocupação excessiva com a qualidade dos alimentos consumidos e restrições alimentares
  • É mais frequente em quem faz dietas restritivas, segue modismos alimentares, atletas, perfeccionistas e ansiosos
  • Muitos ortoréxicos apresentam sinais de desnutrição, anemia ou alterações na frequência cardíaca
  • A ortorexia pode levar ao sofrimento emocional, isolamento e frequentemente está associada a diferentes transtornos alimentares
  • O tratamento envolve terapia comportamental, sessões de orientação alimentar e medicamentos

Todos os dias ouvimos sobre a importância de manter uma alimentação saudável para prevenir doenças e aumentar a qualidade de vida. Mas, existem pessoas que passam a ter comportamentos obsessivos em relação à dieta, buscando a perfeição alimentar, e surge uma fixação pela qualidade dos alimentos ingeridos.

Esse quadro ficou conhecido como ortorexia nervosa e quem sofre com esse problema apresenta uma rigidez alimentar acentuada e obsessão pelo alimento "'biologicamente" puro para o bom funcionamento do organismo. Nesses casos, o consumo de alimentos considerados inadequados causa sentimentos de ansiedade, culpa exagerada, sensação de impureza e vergonha.

"A ortorexia ainda não foi reconhecida como um transtorno alimentar pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que é considerado o guia da psiquiatria. Porém, muitos relatos científicos já concluem que se trata de um transtorno, cuja a principal preocupação não é com a forma física e sim com a pureza dos alimentos ingeridos", destaca Marcella Garcez, nutróloga e diretora da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia).

O termo ortorexia foi descrito pela primeira vez na década de 1990 e ainda há poucos estudos relacionados ao tema. Estima-se que afete entre 1% e 7% da população em geral, sendo mais comum em mulheres. Além disso, sabe-se que quem faz dietas restritivas, segue modismos alimentares ou os atletas estão mais propensos a ter esse problema. Outros fatores de risco incluem tendências ao perfeccionismo, organização em excesso, ansiedade e necessidade de controle.

Riscos para a saúde

Seguir essa visão de alimentação saudável mais radical pode resultar em perda excessiva de peso. E pelo fato de a dieta ser mais restritiva, a pessoa passa a eliminar grupos alimentares importantes para o organismo. Muitos apresentam sinais de desnutrição, como perda de cabelo, problemas de pele ou interrupção da menstruação. Além disso, podem ter anemia ou alterações na frequência cardíaca.

Essas pessoas costumam perder muito tempo examinando os alimentos e são mais criteriosas na hora de comprar algum item. Também ficam preocupadas na fabricação ou produção dos alimentos e se são usados conservantes artificiais, pesticidas e hormônios, além de ficarem de olho na forma de preparo das refeições.

"Os pacientes apresentam acentuado sofrimento ao evitar os alimentos 'ruins' e pela procura de alimentos considerados extremamente saudáveis. Muitos podem ter uma restrição de repertório social, evitando comparecer a eventos em que não há alimentos que correspondam a suas especificidades", explica André Felipe Martins, psiquiatra do Hospital Israelita Albert Einstein.

É importante esclarecer que não há problema em ter hábitos saudáveis e preferir alimentos naturais. Mas, o comportamento se torna patológico quando essas escolhas são realizadas de forma extrema e quando há restrições alimentares importantes que atrapalham a saúde e causam sofrimento emocional e psicológico. Outro sinal é a necessidade de explicar e ensinar tudo o que sabem sobre alimentos e suas propriedades nutricionais, por exemplo.

Os tipos de restrições alimentares estabelecidas por quem tem ortorexia variam muito. Alguns ficam obcecados pela quantidade de sal presente nos alimentos e passam a selecioná-los minuciosamente com base na quantidade de sódio presente nos rótulos. Outros tentam cortar açúcares ou gorduras da dieta. Há também quem vá somando restrições: primeiro cortam a proteína animal, depois glúten e por fim determinam que só podem comer grãos desde que germinados.

Veja como identificar a ortorexia

Por não ser considerada uma doença oficialmente, não existe um diagnóstico formal para a ortorexia. "É importante se atentar aos sinais e sintomas apresentados. Para falar que alguém tem ortorexia, ela precisa ter consequências físicas e/ou psicossociais e ficar comprovado que esse comportamento está impactando a sua vida diretamente", explica Marle Alvarenga, nutricionista e idealizadora do Instituto Nutrição Comportamental.

É comum que passem a maior parte do tempo pensando, escolhendo e preparando uma alimentação saudável. E esse comportamento começa a interferir nos relacionamentos, no trabalho e nos estudos. Além disso, quem tem ortorexia, ao comer algo que não considera saudável, pode se sentir muito mal psicologicamente, com culpa por achar que está contaminado. E, às vezes, só pelo fato de estar perto desse alimento, há um incômodo. O estado de espírito e autoestima também mudam de acordo com que se come.

Elas evitam comer fora de casa ou em situações sociais com medo de consumir alimentos "contaminados" ou "impuros". E não são nada flexíveis na dieta e tentam fazer com que os outros sigam seu exemplo de comer da forma "certa''.

Frequentemente não conseguem relaxar em ocasiões especiais como em casamentos, aniversários, passeios ou na ceia de Natal, pois precisam seguir as regras da alimentação saudável o tempo todo. É comum que elas façam listas de restrições alimentares e eliminem alguns itens da dieta por conta própria tentando promover a saúde.

Associação com outros distúrbios alimentares

A ortorexia pode estar associada a outros transtornos alimentares. E os sintomas também são comuns em outras condições de saúde mental, principalmente em quem já tem TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo).

Geralmente, esses "rituais alimentares" se iniciam com o intuito de melhorar a saúde, para prevenir doenças ou perder peso. Com o tempo, essa dieta vai ampliando, passando a ser o objetivo de vida do ortoréxico. Mas, apesar de o foco da ortorexia ser manter a saúde, não é incomum elas "migrarem" de transtornos ao longo da vida. Assim, durante alguns anos, elas podem ter ortorexia, que acaba virando uma anorexia ou bulimia.

Lembrando que quem tem anorexia realiza uma restrição severa de alimentos e pratica exercícios físicos com muita frequência para manter a forma. Já a bulimia é caracterizada pela compulsão alimentar seguida de eliminação dos alimentos por meio de vômitos e/ou uso de laxantes.

"As pessoas com anorexia podem apresentar um olhar ortoréxico para a comida. Por isso, são mais seletivas na hora de consumir algum alimento. Antigamente, não se falava que a ortorexia tinha a ver com a estética corporal e a busca pelo corpo perfeito, mas hoje já se discute se essa questão está relacionada com esse tipo de comportamento obsessivo", afirma Alvarenga.

Geralmente, os ortoréxicos não apresentam distorção de imagem corporal, como é possível acontecer com quem tem anorexia. Sendo assim, eles logo percebem que estão emagrecendo, mas relutam em modificar suas restrições alimentares com base na crença de que deixarão de ser saudáveis. É comum também que incluam em suas dietas o uso indiscriminado de suplementos alimentares.

O tratamento da ortorexia envolve uma equipe multidisciplinar, geralmente composta por médicos, psicoterapeutas e nutricionistas especialistas em transtornos alimentares. Em casos de perda de peso significativa ou desnutrição, o ortoréxico poderá passar por tratamentos mais rígidos e, em situações extremas, ser internado para recuperar suas condições de saúde. Geralmente, precisam de psicoterapia, sessões de orientação alimentar e medicamentos.

"Talvez o maior desafio no tratamento da ortorexia nervosa seja o de demonstrar que os comportamentos são disfuncionais e inadequados. Isso porque, assim como acontece na anorexia nervosa, muitas vezes os pacientes negam que tenham problemas, pois se consideram apenas saudáveis e disciplinados", afirma Thais Pericelli, nutricionista da Clínica de Estudos e Tratamento em Transtornos Alimentares e Obesidade da Santa Casa da Misericórdia do RJ.

Qual é a influência das mídias sociais?

É bastante frequente entrar em uma rede social e encontrar imagens de refeições saudáveis, dicas alimentares, conselhos nutricionais e corpos "perfeitos". E, de acordo com os especialistas, esse comportamento vem contribuindo para difundir e encorajar a ortorexia.

"Quanto mais o indivíduo acessa ou se expõe em alguma mídia social, aumenta-se o risco de algum comportamento relacionado a distúrbios alimentares. Pode ser uma obsessão por comida saudável ou aumento de dietas restritivas. Muitas vezes, os conteúdos são propagados por quem não é da área da saúde e a pessoa acaba seguindo e desenvolvendo uma relação mais perturbada com a comida", relata Ana Carolina Pereira Costa, nutricionista e supervisora da equipe de Nutrição do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP (GAHTA-AMBULIM).

Um estudo concluiu que seguidores de perfis no Instagram que mostram fotos de alimentos saudáveis têm mais chances de desenvolver ortorexia. De acordo com os pesquisadores da University College London, as mídias sociais podem causar efeitos negativos na imagem corporal, depressão e desordem alimentar.

Os resultados da pesquisa sugerem que o uso do Instagram pode aumentar os sintomas de ortorexia, influenciar as pessoas no desenvolvimento de transtornos alimentares e prejudicar a sua recuperação. Porém, mais estudos precisam ser realizados para entender qual é a real influência das mídias sociais nos distúrbios alimentares e o que precisa ser feito para minimizar esses problemas de saúde.

Referência: Ortorexia nervosa: reflexões sobre um novo conceito

Revisão técnica: Thais Pericelli.

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