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Saúde dos idosos também passa pela boca; cuidadores têm papel fundamental

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Imagem: iStock

Rodrigo Moraes

Colaboração para o VivaBem

16/01/2020 04h00

Todo corpo tem uma boca. Parece óbvio, sim, mas nem sempre essa relação é feita entre a saúde como um todo e os cuidados com a saúde bucal. Com o avanço da idade, problemas diversos mostram o quanto os cuidados —ou a falta deles— com a boca interferem na saúde e vice-versa. Tudo está interligado.

Os cuidados como a escovação dos dentes, o uso de fio dental e as visitas regulares a um dentista são fundamentais em todas as fases da vida. Na prática, não significa que eles tenham que ser intensificados na velhice.

Katya Blat, odontogeriatra afiliada ao Programa de Assistência Domiciliar ao Idoso e do Ambulatório para Cuidadores da disciplina de geriatria e gerontologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explica que os cuidados são os mesmos durante toda a vida. O que muda é que a cavidade bucal apresenta alterações que tornam os dentes mais sensíveis e quebradiços, cáries e doenças periodontais se intensificam —em grande parte em razão do uso contínuo de medicamentos—, e a própria mudança na capacidade visual e motora da pessoa prejudica a escovação.

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a expectativa de vida do brasileiro é de 72 anos e 5 meses (homens) e 79 anos e quatro meses (mulheres). Levando isso em consideração, é comum encontrar pessoas que passam dos 90, até quase 100 anos de idade. O envelhecimento da população pelo qual o Brasil vem passando nas últimas décadas traz consigo a preocupação com a melhoria da qualidade de vida dessas pessoas.

"Existem trabalhos na literatura que fazem uma relação direta entre o isolamento social dos idosos com a ausência de dentes e próteses. É uma faixa da população que demanda e vai sempre demandar atenção com os aspectos odontológicos. Por isso três coisas são fundamentais para garantir que os problemas bucais sejam identificados: tratar, ensinar a cuidar e monitorar", ressalta Monira Kallas, especialista e mestre em odontologia e saúde Coletiva pela Faculdade de Odontologia da USP (Universidade de São Paulo) e doutora em ciências da saúde pelo Hospital Sírio-Libanês (SP).

Essa preocupação com as visitas regulares a um odontogeriatra para o acompanhamento da saúde bucal considerando a condição atual do idoso é reforçada por Denise Tibério, presidente da Comissão Técnica de Odontogeriatria do CROSP (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo).

Problemas mais frequentes

Os problemas bucais que afetam as pessoas na terceira idade impactam principalmente na alimentação, fonação, nutrição e socialização. As doenças periodontais são inflamações crônicas que podem evoluir para infecções na gengiva.

A xerostomia, mais conhecida como boca seca, é uma condição associada diretamente a redução na produção da saliva com o passar dos anos. A lista de sintomas e efeitos é grande. Ela provoca dificuldade para engolir, sensação de ardência ou dor na língua, mau hálito, irritação na garganta, lábios secos e rachados, maior número de cáries, presença de saburra (placa bacteriana que se forma na parte posterior da língua), dificuldade para falar e deglutir. A xerostomia tem relação com um desequilíbrio no organismo e, na velhice, está associada ao aumento no uso de medicamentos.

O desgaste natural dos dentes e o desequilíbrio mastigatório também são frequentes na população idosa, bem como as cáries. "Com esse desgaste a gengiva vai se afastando pela força da mastigação e, consequentemente, expondo a raiz do dente. Por isso as cáries mais prevalentes em idosos são as cáries de raiz", diz Blat.

Vale ressaltar que a doença periodontal não aparece do dia para a noite. "A maioria das vezes ela acontece em pessoas que não cuidaram bem da saúde bucal durante toda a vida. Isso favorece o aparecimento do tártaro e das inflamações e infecções. Trata-se de uma doença silenciosa que não provoca dor e, portanto, é bastante negligenciada", explica Kallas.

Câncer de boca

O câncer na cavidade oral, ou câncer de boca, tem prevalência em homens a partir dos 40 anos e representa 5% de todos os casos de câncer em homens, segundo dados do Inca (Instituto Nacional de Câncer) de 2018. A mortalidade também é alta, com 4,3% de todos os casos.

É um tipo de câncer que afeta os lábios e o interior da cavidade oral e requer atenção com as gengivas, bochechas, céu da boca, língua (principalmente as bordas), além da região embaixo da língua. É uma doença que pode ser prevenida de forma simples, desde que seja dada ênfase à promoção à saúde, ao aumento do acesso aos serviços de saúde e ao diagnóstico precoce. O Ministério da Saúde realiza campanhas periódicas de conscientização sobre a importância do diagnóstico e tratamento.

Atenção com familiares e cuidadores

Uma figura importante no cuidado com a higiene bucal do idoso é o cuidador e/ou familiar. A autoestima e a autonomia da pessoa idosa estão diretamente relacionadas à saúde bucal. Trata-se de um momento íntimo e, portanto, uma das últimas tarefas que a pessoa idosa permite que outras façam por ela. A dependência de um terceiro para auxiliar na escovação e limpeza dos dentes é complexa. A diminuição ou perda da coordenação motora interfere na saúde bucal. E isso não tem, necessariamente, relação com a longevidade da pessoa.

"Trata-se na verdade da capacidade de realizar o autocuidado, no caso a higiene oral, que exige uma série de habilidades que podem ser perdidas por diversas razões", explica Almir Oliva, especialista em odontogeriatria pelo CFO (Conselho Federal de Odontologia) e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia).

A segurança e a qualidade do cuidado com a higienização dos dentes, das mucosas e das próteses são fundamentais. A dica é escolher quem será o cuidador principal —mesmo que seja apenas para auxiliar o idoso e ele permanecer com a execução da tarefa— e oferecer a ele informações suficientes para que a higiene seja feita da maneira adequada.

O cuidador tem que estar atento. Além de cuidar da escovação em si, é preciso ter a percepção sobre os momentos em que o idoso está mais tranquilo para executar essas tarefas, ter paciência na abordagem para não provocar agressividade na pessoa e proporcionar um ambiente confortável, com um espelho e uma bacia com água em frente para que o idoso perceba que está auxiliando em todo o processo.

O odontogeriatria, explica Katya Blat, deve ter a preocupação em passar essas informações ao cuidador que irá fazer esse acompanhamento. Esse é um trabalho multidisciplinar que passa inclusive pela atuação de médicos, enfermeiros e fisioterapeutas que acompanham esse paciente idoso.

O principal desafio dos profissionais que cuidam da saúde bucal é engajar esse paciente e esse cuidador. Isso faz total diferença no tratamento.

A médica de família e comunidade, Denize Ornelas, que também é diretora de comunicação da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade) reforça essa questão do engajamento. "Pensamos muito na saúde bucal na primeira infância, na primeira troca de dentes. Depois, os adultos só se atentam ao nascimento dos dentes do siso."

Em geral as pessoas adultas só procuram ajuda profissional quando tem queixa, como dor ou alguma lesão mais grave. "Mas a saúde bucal deve ser objeto de cuidado durante toda a vida e os profissionais devem orientar os pacientes sobre prevenção, higiene e no aparecimento de qualquer lesão, mesmo as menores que persistem não mais que uma semana, não devem ser negligenciadas, é necessário procurar um profissional."

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