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Paciente toca violão durante cirurgia no cérebro. Quando isso é indicado?

Luciano Nagel

Colaboração para o VivaBem

08/12/2019 04h00

Geralmente, quem toca um instrumento musical faz do objeto seu xodó e companheiro inseparável, até mesmo nas horas mais difíceis. E com o mecânico Márcio Andrade, 41 anos, isso aconteceu bem ao pé da letra. No último mês, ele foi submetido a uma cirurgia delicada para a retirada de um tumor da cabeça.

O procedimento durou cerca de quatro horas e o paciente tocou violão enquanto os médicos "mexiam" em seu cérebro. Mas como é possível e quando é necessário fazer uma operação assim?

Quando cirurgia "acordado" é indicada

De acordo com o médico Gustavo Isolan, chefe de neurocirurgia do Hospital Universitário da Ulbra (Universidade Luterana do Brasil), em Canoas (RS), e um dos responsáveis pela operação de Márcio, esse tipo de cirurgia no cérebro, em que o paciente é acordado no meio do procedimento e responde a certos estímulos comandados pelo médico-cirurgião, ocorre em casos bem específicos.

"Ela é realizada quando a pessoa apresenta um tumor procedente do tecido cerebral muito próximo da região que controla a motricidade ou a linguagem, por exemplo. Caso contrário, não há necessidade de despertar o paciente'', disse Isolan. No caso do mecânico e músico gaúcho, o tumor estava em uma área responsável pelo movimento da mão.

''Há alguns anos, tumores na região motora eram considerados inoperáveis devido ao alto risco de sequelas, como o paciente ficar sem mexer a mão ou com um lado do corpo paralisado'', disse.

Atualmente, já é possível fazer a cirurgia evitando ou minimizando ao máximo o risco de sequelas. Para isso, o neurocirurgião precisa identificar e delimitar milimetricamente a área do cérebro responsável pelos movimentos —ou linguagem — antes de retirar o tumor. No caso de Márcio, para saber se a região onde teria que mexer iria comprometer ou não os movimentos do músico, a equipe médica decidiu testar isso enquanto o paciente tocava violão.

"Após verificar a área onde estava o tumor e estimular o córtex cerebral, observamos que não havia nenhuma alteração motora. Ou seja, a mão dele seguiu tocando violão e nós retiramos o tumor com segurança'', disse Isolan, que comentou orgulhoso que Márcio foi o 44º paciente operado no Hospital Universitário da Ulbra nesta situação, acordado, e em nenhum dos casos os pacientes saíram com sequelas.

Como é feita a operação

O procedimento é realizado com uma anestesia geral. Em meio a cirurgia, um tubo é colocado na traqueia do paciente para que ele receba oxigênio. Também são inseridas drogas anestésicas para fazer a craniectomia —operação cirúrgica em que um retalho ósseo é temporariamente removido do crânio para acessar o cérebro.

Depois que é feita a craniectomia, o paciente é acordado. Então, o neurofisiologista conversa com a pessoa e explica que será retirado o tubo de oxigênio. A partir daí, o operado fica apto a responder a todos os questionamentos do médico durante o procedimento cirúrgico e executar comandos, como tocar um instrumento musical, escrever etc.

"Enquanto o paciente realiza a ação, usamos na região que será operada uma caneta especial, que dá uma pequena descarga elétrica e simula uma lesão cerebral. Se mesmo com a 'lesão' a pessoa seguir 'tocando o violão', o médico sabe que aquela parte do cérebro ou tumor poderá ser ressecado sem causar danos, sequelas."

Como o cérebro é insensível a dor, o paciente não sente qualquer desconforto durante a cirurgia, que praticamente todas as pessoas toleram muito bem.

A descoberta do tumor

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Márcio Andrade contou ao VivaBem que começou a perceber que algo estava errado com seu corpo há alguns meses, quando passou a sentir formigamentos na mão dieita e ter dificuldade de segurar objetos.

''Sou músico amador e, quando tocava guitarra em uma apresentação em um baile, comecei a errar as notas musicais e não consegui segurar a palheta", afirma o mecânico.

Inicialmente, ele pensou que deveria ser algum problema muscular ou algo assim. Porém, as dificuldades motoras e o gaúcho um dia sofreu um ataque epilético. Então, fez exames e descobriu o tumor.

"Não desanimei em saber que tinha um problema e passaria por uma cirurgia no cérebro. Numa hora dessas, temos que ser fortes e lutar'', desabafou Márcio, que confirma que no momento da cirurgia não sentiu dor alguma. "Fiquei consciente de tudo que estava ocorrendo e tive muita fé."

O gaúcho recebeu alta do hospital três dias após o procedimento. Sua recuperação está ocorrendo bem, informou ou neurocirurgião do mecânico, que recomendou repouso por dois meses — tempo esse que certamente Márcio passará ao lado de seu companheiro inseparável, o violão.

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