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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


O que pode ser?

Cifose: quando coluna arqueada para a frente é normal ou problema de saúde

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Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para o VivaBem

26/11/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Cifose é uma leve curva para a frente (plano sagital) da coluna, que é natural e observada em todas as pessoas
  • O problema só é uma "doença", chamada de hipercifose, quando a curvatura é acentuada (acima dos 60 graus)
  • A causa mais frequente do aumento da cifose é a má postura
  • Mudanças de hábito, prática de exercícios, fisioterapia, uso de colete ortopédico e até cirurgia são as opções terapêuticas disponíveis

Quando se fala em cifose, as primeiras imagens que nos vêm à cabeça são o Corcunda de Notre Dame e as arqueadas bruxas dos contos de fada. O termo é usado de forma generalizada para definir toda deformidade na parte superior das costas, o que é um equívoco. O correto diagnóstico do personagem francês seria cifoescoliose, enquanto as idosas malvadas teriam artrose na coluna, conhecida como desequilíbrio sagital.

Aliás, cifose nem é doença, mas uma leve curva para a frente (plano sagital) da coluna, que é natural e observada em todas as pessoas. Portanto, cifose é apenas a descrição de um tipo de curvatura. Quando ela é acentuada demais acentuada, aí sim, estamos diante de uma patologia que é chamada de hipercifose.

A hipercifose, uma doença óssea, acomete cerca de10% dos meninos e meninas em idade escolar. Em uma das suas variações, a doença de Scheuermann, a adolescência é o período da vida no qual ela é mais frequente.

Por que a coluna não é totalmente reta?

As curvas na coluna ajudam no equilíbrio do peso do seu corpo e ainda conferem flexibilidade. Ao olhar para uma pessoa de lado, você notará que existem quatro curvaturas na região das costas: a lordose (uma ligeira curva para trás) cervical, a cifose (ligeira curva para frente) torácica, a lordose lombar e a cifose sacral.

O padrão de normalidade da cifose deve respeitar os limites de 20 a 45 graus; acima dos 60 ela já é classificada como hipercifose.

Conheça as causas da cifose

A origem mais comum do aumento da cifose é a má postura, especialmente entre os adolescentes —trata-se da cifose postural.

Os médicos se referem a ela como cifose flexível —porque basta levantar o tórax para que a coluna volte ao seu estado normal. Mas existem outras causas, confira:

- Doença de Scheuermann Afeta a estrutura da coluna, é rígida, tem um componente hereditário e é mais comum entre meninos;

- Cifose Congênita Malformação das vértebras desde o útero;

- Pós-traumática Decorre de fratura que levou ao achatamento da vértebra;

- Processos degenerativos Osteoporose ou artrose, por exemplo;

- Doenças neuromusculares Mais raros, decorrem da paralisia cerebral, mielomeningocele, distrofias musculares, poliomelite, ataxias entre outras.

Os sintomas e sinais da cifose

A cifose não costuma apresentar sintomas. O sinal mais comum é a mudança postural ou a deformidade. Algumas pessoas podem sentir dor nas costas leve e persistente.

"Embora seja mais raro, nos casos muito avançados, em que a curva é muito acentuada, pode haver dificuldade respiratória e alterações neurológicas, já que os nervos passam por toda a coluna vertebral", esclarece Eduardo Murilo Novak, presidente da Regional do Paraná da Sbot (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e professor dos cursos de Medicina da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná).

Quando procurar ajuda médica

Toda vez que perceber alguma mudança postural na criança ou adolescente, consulte um ortopedista. Quanto mais cedo for a providência, mais fácil será tratar ou prevenir a progressão da curva, especialmente nos casos em que a causa não é meramente postural.

Os pais ou profissionais de educação física podem ser os primeiros a notar alguma diferença na forma como a criança posiciona a coluna. Orlando Righesso Neto, ortopedista, especialista em cirurgia da coluna, membro da SBC (Sociedade Brasileira de Coluna), ensina como detectar alguma anormalidade:

  1. Posicione a criança em pé, com os dois pés juntos
  2. Peça que ela incline o corpo para frente.

"Quando há cifose, não se vê nas costas uma curvatura simétrica, regular. Haverá um aumento da curvatura, uma concavidade, que pode ser a hipercifose e precisa ser avaliada", diz o especialista.

Como é feito ao diagnóstico?

Diante da suspeita do problema, o médico vai ouvir a história do paciente e fazer o exame físico para observar as condições da coluna.

O diagnóstico será confirmado por meio de exame de imagem, ou seja, de radiografia panorâmica em pé (ortostática). A prática é essencial porque é com ela que o médico poderá observar as condições das vértebras. Quando a curva acentuada decorre apenas da má postura, os ossos da coluna estarão intactos.

"Já nos casos da doença de Scheuermann, visualizamos um encunhamento, isso é, a vértebra deixa de ser retangular e toma a forma de um trapézio, fica achatada. A parte de trás cresce mais, o que leva ao aumento da curva", explica Fernando Herrero, docente da Divisão de Cirurgia de Coluna do Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo) e cirurgião de coluna do Grupo de Ortopedia do Hospital Sírio Libânes em Brasília.

Como tratar a cifose e a hipercifose

A estratégia terapêutica dependerá do nível de gravidade da curvatura.

Quando o problema for de origem postural, a mera correção do posicionamento resolverá a questão, o que se faz por meio da indicação de mudança de hábitos, com a inclusão de prática de atividade física e fisioterapia. Os exercícios mais recomendados são os que melhoram as condições de alongamento, como a natação e o pilates.

Nas curvas menores que 60 graus, mesmo na doença de Scheuermann, a melhor conduta é observar o paciente. A fisioterapia, nesses casos, é útil, porque aprimora o alongamento e o fortalecimento muscular.

Nos casos em que a curva está entre 60 e 80 graus, o médico deve ter atenção a dois parâmetros: a idade do paciente e a curvatura detectada. Quando a pessoa ainda está em fase de crescimento ósseo, é indicado o uso de colete ortopédico. Caso ele já tenha alcançado a maturidade esquelética, o uso do colete não lhe trará benefício algum.

Já nas curvaturas superiores a 70 ou 80 graus, a cirurgia poderá ser uma opção, mas isso dependerá de outros fatores que deverão ser avaliados pelo médico. Isso porque nem sempre a pessoa com uma curvatura nesses graus terá queixas que justifiquem uma intervenção cirúrgica. Quando ela é indicada, parafusos e hastes são colocados na coluna com o fim de trazer a cifose para os graus de normalidade.

Medicamentos como analgésicos também poderão ser usados, caso o paciente apresente queixa de dor.

E se a cifose não for tratada, o que pode acontecer?

Na doença de Scheuermann, até 100 graus, não há comprometimento clínico, mas poderá ocorrer uma alteração cardiorrespiratória no futuro. Casos mais graves de cifose congênita podem evoluir para a paralisia dos membros inferiores.

Dá para prevenir?

Quando a cifose decorre da má postura, sim. Nesse caso é importante estar sempre atento às formas como se senta, caminha e carrega pesos, como as mochilas, por exemplo.

Já quando se trata doença de Scheuermann, onde a cifose decorre de um problema na estrutura das vértebras, não há como preveni-la. Contudo, é possível controlar a sua progressão, especialmente se a pessoa estiver em idade de crescimento. Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, maiores serão as chances de correção ou redução da curvatura.

Fontes: Eduardo Murilo Novak, presidente da Regional do Paraná da Sbot (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e professor dos cursos de Medicina da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná); Fernando Herrero, docente da Divisão de Cirurgia de Coluna do Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo) e cirurgião de coluna do Grupo de Ortopedia do Hospital Sírio Libânes - Unidade de Brasília; Orlando Righesso Neto, ortopedista, especialista em cirurgia da coluna, membro da SBC (Sociedade Brasileira de Coluna) e presidente da Comissão de Campanhas. Revisão técnica: Fernando Herrero.

Referências: Ministério da Saúde; J. T. Mansfield; Matthew Bennett. Scheuermann Disease. StatPearls. NCBI (National Center for Biotechnology Information); OrtoInfo - AAOS (American Academy of Orthopaedic Surgeons).

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