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Jovens que ficam mais de 9h online têm 2,4 vezes mais risco de ansiedade

Pesquisa revela que quanto mais tempo conectado, maiores os riscos à saúde mental e física - iStock
Pesquisa revela que quanto mais tempo conectado, maiores os riscos à saúde mental e física Imagem: iStock

Gabriela Ingrid

Do VivaBem, em São Paulo

22/11/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Jovens que ficam mais de nove horas conectados têm risco 2,4 vezes maior de ter tristeza, ansiedade, angústia, estresse e problemas com aparência
  • Mais da metade dos entrevistados afirma que exagera no uso das redes e 35% já ficaram tristes ou assustados por comentários postados em seus perfis
  • Controles externos (parentais, da escola), assim como discutir a tecnologia nesses ambientes podem ser "protetores", principalmente para os mais novos

Mais da metade dos jovens brasileiros revela que exagera às vezes ou sempre no uso de tecnologias, e isso impacta suas emoções. Os dados são da pesquisa Tecnologia e o Jovem, que ainda aponta que aqueles que ficam conectados mais de nove horas por dia têm risco 2,4 vezes maior de apresentar tristeza, ansiedade, angústia e estresse, em comparação a quem fica menos de duas horas online. O levantamento, divulgado nesta sexta (22), foi realizado pela equipe do psiquiatra e blogueiro do VivaBem Jairo Bouer, em parceria com a Positivo Tecnologia, o Portal Educacional e a Katru Assessoria em Informação.

Ao todo, 3305 alunos de 53 escolas (41 privadas e 12 públicas) de todas as regiões do país foram entrevistados por meio de um questionário online, ao longo de quatro meses (de maio a agosto de 2019). Apesar de alguns números não estarem diretamente relacionados com o uso da tecnologia, o estudo traz dados que merecem atenção: 25% dos jovens já provocou alguma forma de automutilação; quatro em cada 10 já pensaram em suicídio e cerca de um em cada 10 afirmou que já tentou tirar a própria vida. Mais: 35% já ficaram tristes ou assustados por comentários postados em seus perfis; mais da metade já se sentiu desprestigiado nas redes; pouco mais de 18% já foram vítimas de cyberbullying.

"Não dá para dizer que a culpa é só da tecnologia. O impacto pode ser pessoal, familiar. Mas tem relação, sim. Apareceu de uma forma muito clara. Acho que mostra uma espécie de fragilidade", acredita Jairo Bouer. Segundo ele, há uma série de fenômenos que podem explicar essa relação: o aumento da exposição, de comentários agressivos e da sensação de desprestígio. "A sensação de que podem curtir ou não chama atenção para a autoestima. Eles já têm questões muito grandes nesse aspecto e as redes sociais pioram."

Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo de Dependências de Teconologia do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) e também blogueiro de VivaBem, diz que na juventude é normal as pessoas dependerem da opinião do outro. "A referência virtual se torna um papel preponderante. O valor privado, pessoal entra em detrimento da manada virtual."

comer no celular - iStock - iStock
O uso excessivo das redes sociais impacta os hábitos alimentares e de sono
Imagem: iStock

O problema do excesso

De acordo com Ivete Gattás, coordenadora da Upia (Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), quanto mais os jovens ficam na redes, menos vivem a vida real. "Eles acabam vivendo num mundo paralelo em que todo mundo parece feliz, adequado. Conectado, não existe a falta. Ele aperta um botão e pode ter tudo. Se não gostou, desliga. É um modo de funcionar diferente do mundo real."

O problema é que esse "mundo perfeito" vicia e faz mal. Nabuco aponta que a maioria das plataformas possui mecanismos viciantes. "Elas querem que você navegue cada vez mais, para ver comentários, likes, interação."

Esse ciclo vicioso de postar, interagir e ficar em alerta para novas interações afeta também a saúde física. O indivíduo come mal porque não quer se desconectar, para de fazer exercícios, tem privação de sono. "No dia seguinte, não vai à escola ou dorme na aula, tem prejuízo cognitivo, acadêmico. Isso gera consequência na vida e no futuro dele", alerta Gattás.

Bouer compartilha a ideia de que a conexão exagerada aumenta número de faltas, piora a nota e eleva risco de o aluno reprovar. "Apesar de ser uma geração que aprende de forma mais veloz, talvez o uso mais pesado das redes atrapalhe", diz.

O ideal é que um jovem de 13 a 17 anos durma de 8 a 10 horas por dia. É nesse momento de sono que hormônios que regulam crescimento e metabolismo são liberados e os neurônios se reorganizam para melhorar suas conexões e performance. Além disso, muitas das memórias do que foi aprendido durante o dia são registradas e guardadas à noite. Isso significa que o jovem que não dorme bem não usa o máximo de seu potencial cognitivo, além de poder engordar e crescer menos do que o esperado.

Segundo Nabuco, o cérebro só atinge plenitude da maturação depois dos 25 anos de idade, com o córtex pré-frontal (sede do raciocínio logico e onde ele exerce o freio comportamental). "O jovem tem maior vulnerabilidade, o que faria com que a perda do controle seja legítima e até normal. Mas o uso exagerado das redes coloca tudo ao quadrado, impactando a mudança de valores e de referências nem sempre de forma sadia."

Sono celular - iStock - iStock
O excesso de conexão aumenta em 3,1 vezes a chance de um jovem vir a ter impacto muito severo em algumas de suas ações cotidianas, como dormir mais tarde que o planejado
Imagem: iStock

Essa geração sofre mais?

O estudo em questão conclui que os números apontam para uma geração que parece sofrer mais. Nabuco acredita que não dá para cravar isso apenas com os dados disponíveis. "Mas temos números representativos. Desde o momento que as redes sociais se fizeram presentes no Brasil, em 1996, o número de automutilação subiu 166% nas meninas, por exemplo. Suspeita-se que o exagero dessas conexões levem a uma série de desequilíbrios físicos que cursam com outros problemas."

De acordo com Bouer, as redes sociais trazem uma comparação constante com o outro. "É um universo editado e acham que é verdade. Os jovens se acham a última empadinha amassada do pacote —magro, gordo, com braço comprido. Isso mexe com a imagem corporal de autoestima. Nas redes, as pessoas parecem estar melhores do que você."

A Associação Americana de Pediatria recomenda que os responsáveis evitem dar tablets e smartphones para crianças até os três anos. Após essa idade, o uso deve ser feito por períodos pequenos, controlados e que faça parte de outras atividades, como brincadeiras. "Hoje, essas crianças ficam oito, dez, onze horas ligados. Deixam de cultivar amigos de verdade, as relações familiares se deterioram. Isso aumenta o sofrimento, sim", reflete Gattás. Segundo a psiquiatra não é só o jovem, é o pai e a mãe.

O sofrimento também vem com a exposição a situações de violência, sexualidade e erotismo de forma muito mais precoce do que seria na vida real. "O mundo digital é uma ferramenta maravilhosa, podemos usar em beneficio próprio e da humanidade. Mas o excesso é prejudicial. Os trabalhos são a prova que o exagero leva a problemas físico, mental e comportamental", diz ela.

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Os números apontam para uma geração que parece sofrer mais
Imagem: iStock

Cidadania digital

A pesquisa mostra que, segundo os alunos, mais de 66% das escolas trabalham a questão do bullying, 48% discutem álcool e drogas, 35% abordam sexualidade e 65% trabalham os riscos do uso de tecnologias. A conclusão sugere ainda que controles externos (parentais, da escola) podem ser "protetores", principalmente para os mais novos.

Bouer afirma que controlar do tempo de conexão ou senha do filho diminui o tempo de exposição e impacta menos no emocional. No estudo, os pais têm a senha de acesso do celular de quase 40% dos jovens e cerca de 25% dos jovens têm seu tempo de conexão controlado pelos responsáveis. Mas o controle parental tem limite. "Quando o filho faz mais de 14 anos não há mais controle. O desafio, na verdade, é preparar o jovem para o uso da tecnologia, explicar o risco de dependência, a janela de exposição, o que isso tem de risco, tentar fazer com que eles criem filtros e aprendam a administrar o tempo de uso."

O uso da tecnologia de forma responsável é chamado de cidadania digital. "É repassar ao jovem a consciência de ser um cara legal e não causar sofrimento nas pessoas. O uso da tecnologia deve ser trabalhado em casa da mesma forma com que se fala de drogas e sexo, em casa e na escola", diz Bouer.

Gattás sugere que regras em casa, como não mexer no celular no jantar (e isso também vale para os pais) ou deixar os eletrônicos de lado quando todos estiverem juntos, podem ajudar. Também é importante até levar o adolescente para executar atividades mais divertidas do que mexer no celular. "As famílias perdem o hábito de fazer qualquer coisa juntos, e estou falando de coisas simples, como ir à feira, ao parque, caminhar. Claro que isso dá trabalho. Entendo que os pais estão cansados, esgotados, mas é prevenção, evitar danos maiores."

Aliás, o engajamento parental é um dos pilares para a criação de uma cultura digital. Nabuco acredita que os pais estão deixando que a criança aprenda a utilizar a tecnologia e depois ensine a eles. "Os mais velhos se sentem um pouco desautorizados para falar algo, intimidados, com vergonha, mas precisamos conversar a respeito."

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