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Doença de Crohn e colite ulcerativa: como os fungos afetam sua saúde?

Após um extenso estudo das bactérias do corpo, os pesquisadores estão se voltando para como os fungos podem contribuir para doenças inflamatórias intestinais e outras doenças - Chris Gash/The New York Times
Após um extenso estudo das bactérias do corpo, os pesquisadores estão se voltando para como os fungos podem contribuir para doenças inflamatórias intestinais e outras doenças Imagem: Chris Gash/The New York Times

Kaleigh Rogers

Do New York Times

16/04/2019 10h06

As conexões entre diferentes partes do corpo humano estão cheias de surpresas, mas aqui está uma que você pode não ter considerado: será que o que provoca a caspa também contribui para seus problemas digestivos?

Esse é um mistério que os cientistas estão tentando desvendar com a pesquisa sobre os fungos que vivem no intestino. As bactérias que colonizam esse órgão vêm sendo normalmente o foco científico há mais de uma década, mas os fungos estão começando a receber mais atenção.

Por enquanto, esses estudos descobriram conexões entre fungos e várias doenças crônicas, incluindo a doença de Crohn e a colite ulcerativa. Como é típico na ciência médica, uma explicação simples (A causa B, que pode ser curado por C) é pouco provável.

Mas o potencial para melhorar a vida de centenas de milhares de pacientes - e para descobrir processos complexos que nunca percebemos estarem na raiz dessas doenças - fez do campo fúngico algo tentador para pesquisadores médicos.

"É uma parte interessante da ciência", disse David Underhill, da cadeira de pesquisa de doenças inflamatórias intestinais no Centro Médico Cedars-Sinai, em Los Angeles. "Acredito que nos próximos cinco anos, certamente dez, desenvolveremos uma compreensão diferente dessa área."

A equipe de Underhill está investigando as ligações entre fungos no intestino e doenças intestinais inflamatórias como a de Crohn.

Os pesquisadores começaram a se interessar em estudar o microbioma quando avanços na tecnologia do DNA facilitaram a identificação de microrganismos no corpo humano. Trabalhos anteriores, disse Underhill, se dedicaram principalmente às bactérias, porque há muito mais delas em nosso corpo, em comparação com qualquer outro tipo de organismo.

Há trilhões de bactérias no trato digestivo, e cerca de cem espécies diferentes. O número de fungos é de centenas de milhares, com apenas algumas espécies diferentes. Durante anos, os fungos receberam pouca atenção científica.

Agora, com nossa compreensão do microbioma bacteriano mais bem estabelecida, os pesquisadores se voltaram para os fungos, o que alguns chamam de micobioma. Ficou rapidamente evidente que esses organismos desempenham um papel distinto na nossa saúde.

Um dos principais fungos na pesquisa de Underhill é o Malassezia. Embora seu nome seja pouco conhecido, você está cheio dele.

O fungo é onipresente no corpo humano saudável e coloniza a pele logo após nosso nascimento. Para algumas pessoas, o Malassezia no couro cabeludo cria uma irritação que provoca a caspa.

Mas também aparece dentro de nosso corpo, no trato digestivo. Recentemente, Underhill e seus colegas publicaram um estudo na revista "Cell Host & Microbe", que sugere uma ligação entre o Malassezia no intestino e a doença de Crohn.

Os indivíduos com Crohn apresentavam concentrações elevadas de Malassezia nas paredes intestinais, enquanto pacientes saudáveis não tinham quase nenhuma. Os pesquisadores demonstraram então que bastava adicionar esse tipo de fungo ao intestino - pelo menos, em camundongos - para exacerbar a inflamação observada na doença de Crohn.

Esse trabalho se soma um crescente conjunto de evidências ligando os fungos às doenças inflamatórias intestinais. Já em 2010, os pesquisadores relataram que medicações antifungos ajudaram pacientes com doença inflamatória intestinal a entrar em remissão. Em 2012, descobriu-se que o Malassezia em particular estava associado a esse tipo de doença.

Em 2016, pesquisadores na França publicaram um estudo que mostrou que as populações de fungos de pessoas com problemas intestinais eram extremamente diferentes das de pacientes saudáveis.

"São peças pequenas que estamos juntando", disse Mathias Lavie-Richard, microbiologista do Instituto Micalis, na França, e coautor desse estudo.

E já começou a corrida para fazer essas conexões e adicioná-las ao crescente corpo de evidências. Os achados poderiam beneficiar centenas de milhares de pessoas.

A doença de Crohn, por exemplo, é comumente tratada com drogas anti-inflamatórias conhecidas como inibidores do Fator de Necrose Tumoral (TNF, na sigla em inglês). Mas esses tratamentos só são eficazes para cerca de 60 por cento dos pacientes, de acordo com a Fundação de Crohn e Colite.

As drogas também são caras: o medicamento anti-TNF Humira pode chegar a custar quase US$ 38 mil por ano, dependendo do seguro-saúde do paciente.

A ligação entre a doença de Crohn e o Malassezia levanta a possibilidade - ainda não comprovada - de que algo tão simples quanto um medicamento antifúngico genérico poderia garantir alívio: livre-se dos fungos, livre-se da inflamação. Underhill e seus colegas estão chegando aos ensaios clínicos agora, apenas uma das muitas equipes ansiosas para testar a ideia.

Cientistas em Montreal desenvolvem um ensaio clínico semelhante, com o tratamento tendo início em alguns meses, de acordo com Martin Laurence, pesquisador e criador do Projeto Malassezia, que acompanha a pesquisa publicada sobre esse organismo em particular.

Não foram ligadas ao micobioma apenas as doenças inflamatórias intestinais. Um estudo publicado no ano passado mostrou que a alteração da composição dos fungos do intestino em camundongos acentuou os sintomas da asma. Algumas evidências sugerem uma ligação entre infecções fúngicas e câncer de próstata.

"A tecnologia melhora a cada ano; está cada vez mais eficiente na identificação de organismos e de seu papel na doença e no processamento de sintomas", afirmou o dr. J. Curtis Nickel, urologista da Universidade Queen's, no Canadá.

Nickel é coautor de futuras pesquisas que sugerem ligações entre o Malassezia e a cistite intersticial, uma condição crônica e dolorosa da bexiga.

Ele disse que o próximo passo para muitos pesquisadores é investigar como esses fungos interagem e são afetados por outros organismos que vivem a seu lado.

"Eu, pessoalmente, suspeito que exista uma interação entre todos os diferentes fungos, bactérias e vírus. Uma população insalubre desses organismos exacerba uma doença e talvez até mesmo - este é o próximo passo - seja a causa dela. Mas ainda não chegamos lá", disse Nickel.

Embora estejam longe de declarar que os fungicidas são a panaceia para doenças intestinais, os cientistas estão otimistas com novas pesquisas sobre o micobioma, que poderão ajudar a resolver os mistérios que cercam essas doenças inflamatórias e até mesmo oferecer novas formas de tratamento.

"Quando você fala sobre essa pesquisa para as pessoas que têm essas doenças, é como uma nova luz. É uma nova esperança", disse Lavie-Richard.

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