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"Doença rara me fez perder todo cabelo aos 10 anos. Sofri e hoje me aceito"

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Priscila Carvalho

Do UOL VivaBem, em São Paulo

11/03/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Yasmin Martinez foi diagnosticada quando ainda era criança com alopecia areata
  • Condição geralmente é causada por grandes traumas, problemas na tireoide ou tem relação com outras doenças autoimunes, como diabetes e lúpus
  • Há tratamento, mas dependendo do grau da doença, os procedimentos não são efetivos

"A doença vai evoluir e você vai perder todo o cabelo". Foi assim, de maneira cruel, que Yasmin Martinez recebeu, aos 10 anos de idade, o diagnóstico de alopecia areata --doença autoimune que provoca queda severa de cabelo (no fim da reportagem explicamos melhor o problema).

Desde que recebeu a notícia, Yasmin, que hoje está com 25 anos, ouviu a opinião de vários médicos, e todos diziam que não dava para garantir que o problema seria resolvido. Alguns chegavam a dar esperança, mas outros eram categóricos em dizer que os tratamentos não fariam efeito.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Os fios foram caindo, caindo e as falhas na cabeça estavam cada vez mais aparentes. Literalmente, do dia para noite, seu cabelo ficou fraco, com aspecto quebradiço e sem vida. Mesmo sendo criança e não entendendo a gravidade da situação, ela optou por raspar a cabeça. 

Embora Yasmin aceitasse sua condição, os olhares e julgamentos vinham das outras pessoas. Durante o período em que estava na escola, ela sofreu bullying de colegas que a tratavam como se estivesse com câncer ou alguma doença contagiosa.

A sociedade me enxergava como uma criança careca e doente. Alguns pais até pediram para mudar seus filhos de sala

Nesse período, ela recorreu a diversos tratamentos --muitos deles com corticoides --, porém, sem resultados. A vergonha e o sentimento de inferioridade se intensificaram aos 12 anos, quando foi diagnosticada com depressão.

A partir dali, teve que fazer terapia para entender e lidar melhor com a doença. Os médicos acreditavam que algum trauma poderia ter desencadeado a alopecia, mas nas sessões de terapia ela nunca encontrou nada que pudesse justificar o problema. 

O início da aceitação

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
Os anos foram passando e, aos poucos, Yasmin tentava entender a condição. Aos 14 anos, mudou de colégio e resolveu usar perucas que pudessem ajudá-la na autoestima. Mas falar da doença ainda era sinônimo de melancolia e bloqueio. "Eu me sentia desconfortável com aquela situação. Pensava que estava tudo bem, mas não estava", conta. O processo de aceitação também era difícil em viagens com a família.

Eu me proibia de tudo que gostava de fazer. Não entrava no mar, na piscina, nada" 

A autoestima começou a melhorar somente quando Yasmin experimentou o cabelo ruivo e sentiu que os fios estavam em harmonia com seu rosto. Na transição da adolescência para a fase adulta, os pelos da sobrancelhas e cílios ficaram cada vez mais ralos e caindo aos poucos. Nesta época, ela foi diagnosticada com alopecia universal, já que nenhum pelo crescia e se desenvolvia pelo seu corpo, inclusive no couro cabeludo. Hoje, ela recorre à micropigmentação na sobrancelha e implante de cílios para preencher falhas e pelos faltantes. 

A "cura" do problema 

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
Demorou quase 14 anos para que Yasmin conseguisse achar a "cura" para seu problema. Não, ela não recuperou os cabelos, mas é assim que chama o momento em que conseguiu se aceitar de fato e compartilhar sua história. 

Em fevereiro do ano passado, ela fez um ensaio fotográfico onde mostrou sua condição e resolveu postar em suas redes sociais um texto encorajando as pessoas a se aceitarem. Foi ali que falou abertamente sobre a alopecia. 

Em nenhum momento ela achou que poderia se curar fisicamente, a maior preocupação era entender a fase que viveu e sair dela ainda mais forte. "Quando fiz o post, estava mais preocupada com o fato de não me esconder do que do ter uma melhora do quadro."Minha cura foi interna, e era exatamente isso que eu precisava"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Depois disso, uma "chave" virou em sua vida. Ao fazer a postagem e discutir o tema, ela recebeu mensagens de várias pessoas que sofriam com a doença e diziam admirá-la por tratar o tema de forma natural. Hoje, ela participa de grupos que debatem e falam sobre a alopecia e, sempre que possível, tenta ajudar outras pessoas que têm a condição. "Eu me aceito e não é porque não tenho cabelo que sou menos feminina. Quando quero usar peruca uso, quando não quero, não uso. Eu me aceito assim e hoje consigo falar com naturalidade sobre o assunto."

O que é alopecia?

É um termo genérico usado para qualquer tipo de queda de cabelo fora do comum --o considerado "normal" é uma pessoa perder, em média, 100 fios por dia. Entenda melhor cada tipo da doença:

  • Alopecia areata 

É uma inflamação do couro cabeludo e pode afetar tanto homens quanto mulheres. A condição é considerada rara quando atinge todo o couro cabelo e em crianças, como no caso de Yasmin. O problema geralmente tem relação com um grande trauma, alterações na tireoide ou com outras doenças autoimunes, como diabetes e lúpus.

No tratamento, normalmente são usados comprimidos e injeções que podem fazer com que a queda de cabelo seja interrompida e que os fios voltem a nascer em um determinado local. Além disso, é importante reduzir o estresse e investigar causas psicológicas. Mas vale lembrar que, dependendo do grau da doença, os tratamentos não são efetivos.

  • Alopecia androgenética 

É a famosa calvície e pode acometer ambos os sexos, mas é mais comum em homens. Os fios vão caindo e ficando cada vez mais finos ao longo da vida. Geralmente é provocada por sensibilidade a hormônios masculinos, como a testosterona. Também pode ter causa genética. O tratamento é feito com medicações via oral, bloqueadores hormonais e remédios aplicados diretamente no couro cabeludo.

  • Eflúvio telógeno

É uma queda de cabelo em que há fase acelerada de perda de fios. Normalmente, ocorre depois de três meses de algum estímulo que pode ser estresse, parto, cirurgia bariátrica e alterações hormonais. O tratamento é determinado após a investigação das causas da doença e geralmente são usadas algumas vitaminas de reposição para o cabelo. 

Fontes: Caio Lamunier, dermatologista da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia) e do Hospital das Clínicas de São Paulo; Camila Hoffmann, dermatologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. 

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