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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


O que pode ser?

Câncer colorretal: sangue nas fezes, cólicas e até fadiga são sinais

Presença de sangue ou muco nas fezes e cólicas são sinais de câncer colorretal - Camila Rosa/VivaBem.
Presença de sangue ou muco nas fezes e cólicas são sinais de câncer colorretal Imagem: Camila Rosa/VivaBem.

Tatiana Pronin

Colaboração para o UOL VivaBem

02/10/2018 04h00

O câncer colorretal, que envolve o intestino e o reto, é o segundo tipo de tumor maligno mais frequente entre as brasileiras e o terceiro mais comum entre os brasileiros, quando se desconta o câncer de pele não melanoma. A estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (Inca), é de 36.360 novos casos por ano e 15.415 mortes em consequência da doença. 

Em todo o mundo, esse é o terceiro tipo de câncer mais comum, e representa 10% de todos os novos casos da doença em geral. Uma das particularidades desse tipo de tumor é que ele é mais frequente em regiões mais desenvolvidas, como a América do Norte, Europa e Oceania. Mesmo no Brasil, as maiores taxas de incidência estão no Sul e no Sudeste. 

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Por ter uma forte associação a hábitos alimentares, é um tipo de câncer que pode ser prevenido. O próprio exame de colonoscopia, indicado para diagnóstico e rastreamento, também possui um caráter preventivo - quando pólipos são encontrados, eles podem ser removidos antes de evoluir para um tumor maligno. Além disso, a doença costuma evoluir lentamente, o que favorece o tratamento do câncer.

Sintomas

Na maioria dos casos, o câncer colorretal é assintomático no início. À medida que progride, podem surgir manifestações como:

  • Presença de sangue ou muco nas fezes
  • Fezes escuras ou em forma de fita
  • Anemia
  • Cólicas abdominais
  • Dores ou sangramento ao evacuar
  • Mudança no hábito intestinal (a pessoa começa a ter diarreia ou prisão de ventre que não passam e não têm causa aparente)
  • Sensação que o intestino não esvaziou após evacuar
  • Sensação de empachamento
  • Perda de peso inexplicável
  • Cansaço e fadiga constantes

Lembre-se que todos esses sintomas também podem estar relacionados a outras condições.

Como surge o câncer?

Todo câncer se forma a partir de um dano, ou mutação, no DNA da célula, o composto que reúne todas as instruções genéticas de cada organismo. As pessoas podem herdar essa mutação, mas, na maior parte das vezes, ela ocorre ao longo da vida, por exposição a algum agente carcinógeno ou por erros durante o processo de multiplicação celular. 

Onde a doença aparece?

No intestino grosso, o conteúdo passa mais devagar, por isso o risco de câncer é maior - iStock
No intestino grosso, o conteúdo passa mais devagar, por isso o risco de câncer é maior
Imagem: iStock

A extensa maioria dos cânceres de intestino são adenocarcinomas, ou seja, têm início na mucosa que reveste o interior do intestino. A maior parte dos tumores começa com pequenas lesões benignas chamadas de pólipos, espécies de verrugas que aparecem na mucosa. 

O cólon e o reto são as partes que compõem o intestino grosso. A maior parte dos nutrientes é absorvida antes de chegar nele, no intestino delgado, região em que o surgimento de um câncer é mais raro. "No intestino grosso o conteúdo passa mais devagar, por isso o risco é maior", justifica Samuel Aguiar Junior, médico especialista em cirurgia oncológica do A. C. Camargo Cancer Center.

Outros tipos de câncer no intestino: tumores carcinoides (que começam nas células do intestino que produzem hormônios), tumores estromais gastrointestinais (ou Gist, que começam nas células intersticiais de Cajal, na parede do intestino), linfomas (que surgem nas células linfáticas) e sarcomas (nos vasos sanguíneos, tecido muscular ou conjuntivo).

Fatores de risco modificáveis 
Churrasco e carnes processadas favorecem o aparecimento do câncer colorretal - iStock
Churrasco e carnes processadas favorecem o aparecimento do câncer colorretal
Imagem: iStock

  • Ingestão excessiva de carnes vermelhas, principalmente as processadas: o mecanismo de ação seriam os compostos carcinogênicos gerados durante o processamento (para virar salsicha, bacon, presunto etc,) ou quando a carne é submetida a altas temperaturas (como assar, fritar ou grelhar). O churrasco seria ainda pior, pois inclui os compostos provenientes da queima do carvão. Por excesso, entenda-se mais de cinco vezes por semana, ou uma média superior a 100 gramas por dia.
  • Dietas pobres em frutas, legumes e verduras: vegetais são ricos em antioxidantes e fibras, que têm papel protetor contra a obesidade e o câncer. Por isso a recomendação é ingerir cinco porções ao dia desses alimentos.
  • Obesidade abdominal: a condição envolve reações hormonais e inflamatórias que aumentam o risco de câncer.
  • Sedentarismo: a prática regular de exercícios combate a obesidade e melhora o perfil hormonal.
  • Fumo: o tabaco também já foi relacionado ao câncer colorretal.
  • Consumo excessivo de álcool: homens que ingerem mais de 14 doses de bebida alcoólica por semana, bem como mulheres que bebem mais que sete doses por semana, têm risco mais alto de ter esse e outros tipos de câncer.

Fatores de risco não modificáveis

  • Idade: a maior parte dos pacientes com a doença tem mais de 50 anos.
  • Doenças inflamatórias intestinais: pacientes com colite ulcerativa ou doença de Crohn têm propensão maior ao câncer colorretal.
  • Herança familiar: algumas famílias têm histórico desse tipo de câncer, e nesses casos é comum o surgimento antes dos 50 anos. Também há síndromes associadas à doença, como o câncer colorretal hereditário não poliposo (HNPCC, ou síndrome de Lynch) e a polipose adenomatosa familial (FAP).
  • Histórico pessoal de câncer ou pólipos: quem já teve pólipos adenomatosos ou tratou-se de câncer colorretal, de ovário, útero ou mama também é mais propenso.
  • Etnia: estudos indicam que judeus de origem europeia oriental têm maior tendência a esse tipo de câncer, bem como pessoas negras, embora as causas não sejam claras.
  • Diabetes tipo 2: de acordo com a Associação Americana do Câncer, pacientes com a doença têm maior risco mesmo descontando-se fatores como obesidade abdominal e sedentarismo.

Ter intestino preso ou solto demais é perigoso?

Diarreias frequentes ou prisão de ventre não devem ser negligenciados, pois podem ser sintomas de problemas de saúde mais sérios, inclusive de câncer colorretal. Contudo, os médicos garantem que essas condições não causam a doença, e por isso não são considerados fatores de risco.

Diagnóstico

Procure o médico sempre que notar qualquer alteração nas fezes - Reprodução
Procure o médico sempre que notar qualquer alteração nas fezes
Imagem: Reprodução
O principal exame para detectar o câncer colorretal é a colonoscopia. Além de solicitado quando há sintomas, ou após um resultado positivo na pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSOF), é utilizado no rastreamento do câncer colorretal a partir dos 50 anos de idade, ou a partir dos 40 anos em pacientes com histórico familiar

Embora no Brasil a maioria dos diagnósticos ocorram a partir dos 55 anos de idade, casos de câncer colorretal em pacientes com 40 ou 45 anos têm aumentado, segundo os médicos. "Gostamos de culpar a alimentação inadequada, mas na verdade ainda não sabemos a causa desse aumento", lamenta Diogo Bugano, médico oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein. Por isso, é fundamental que as pessoas procurem o médico sempre que notarem qualquer alteração nas fezes ou no hábito intestinal

A colonoscopia é um procedimento indolor, realizado com sedação, em que uma haste flexível é inserida pelo ânus para visualização do intestino grosso. O preparo envolve o uso de laxantes na noite anterior. Durante o procedimento, pólipos suspeitos são ressecados para biópsia (polipectomia). Assim, a colonoscopia não só é é fundamental para o diagnóstico como também para a prevenção do câncer, já que alguns desses pólipos podem se transformar em lesões malignas no futuro.

Se a análise do material coletado indicar a presença de câncer, outros testes podem ser realizados para avaliar o tipo de tumor, o tamanho e a extensão da doença, tomografias, radiografias, ressonância magnética e, algumas vezes, o PET-CT. O exame de sangue do marcador tumoral CEA (antígeno carcinoembrionário) também pode ser feito antes e após o tratamento, para acompanhar sua evolução. 

Estadiamento 

Com todos os dados em mãos, é feito o estadiamento do câncer, que combina letras (T de tumor, N, de nódulos linfáticos afetados, e M, de metástase em outros tecidos ou órgãos) e números de 0 a 4. Veja o que cada estádio representa:

  • Estadio I: câncer crescendo no revestimento superficial (mucosa) do cólon ou do reto, mas que não se espalhou além da parede do cólon ou reto 
  • Estadio II: o câncer já se espalhou através da parede do cólon ou reto, mas não invadiu os linfonodos próximos 
  • Estadio III: o câncer invadiu nódulos linfáticos próximos, mas não está em outras partes do corpo 
  • Estadio IV: O câncer se espalhou para outros órgãos, tais como fígado ou pulmão.

Tratamento

Cirurgia

Apenas alguns tumores em estágio inicial podem ser retirados por colonoscopia. A cirurgia para retirada de tumores do cólon é chamada de colectomia, e pode ser aberta (com incisão no abdome) ou feita por laparoscopia. Gânglios linfáticos próximos também podem ser removidos no mesmo procedimento. Em casos de obstrução intestinal, um stent pode ser inserido antes do procedimento.

Os principais riscos da cirurgia são infecções, sangramentos, coágulos sanguíneos e aderências (quando um tecido se cola no outro, podendo exigir uma cirurgia adicional). 

Em relação ao câncer de reto, muitas vezes a quimioterapia ou a radioterapia podem ser indicadas para reduzir o tamanho do tumor antes do procedimento cirúrgico. É que, como o reto está localizado dentro da cavidade pélvica, o trabalho do cirurgião fica dificultado. Existem técnicas minimamente invasivas capazes de remover tumores localizados sem incisões.

Quimioterapia

Após a cirurgia, a necessidade de quimioterapia preventiva é avaliada pelo oncologista clínico a partir do resultado do exame anatomopatológico. Em certos casos, como por exemplo quando o tumor é no reto, a quimio pode ser feita antes do procedimento cirúrgico para reduzir o tamanho do câncer e facilitar a ressecção. Os principais efeitos colaterais da quimioterapia são náuseas, vômitos, infecções, perda de cabelo e fadiga, entre outros. 

Radioterapia

Também pode ser indicada antes da cirurgia, para diminuir o tamanho do tumor, ou depois, para evitar recidivas, ou no controle de metástases e alívio de sintomas. Os efeitos colaterais mais comuns são irritações, incontinência intestinal e fadiga.

Terapias-alvo

São drogas ou outras substâncias usadas para identificar e atacar células cancerosas sem danificar as sadias que se encontram em volta, por isso causam menos efeitos colaterais que a quimioterapia. Já existem algumas terapias-alvo aprovadas para alguns tipos de câncer colorretal. Segundo Diogo Bugano, essas drogas aumentaram significativamente a sobrevida de pacientes com doença metastática incurável nos últimos anos. 

Imunoterapia

Tratamento considerado promissor para alguns tipos de câncer, ajuda a fazer o sistema imunológico reconhecer as células cancerosas e destruí-las de forma mais eficaz. Apenas uma pequena parcela dos pacientes com câncer colorretal pode se beneficiar de imunoterápicos, mas, como esse uso ainda não está previsto em nenhuma bula no Brasil, é preciso que as famílias paguem pelo tratamento, que é de alto custo. 

A colostomia é inevitável?

Colostomia não é inevitável em casos de câncer colorretal - iStock
Colostomia não é inevitável em casos de câncer colorretal
Imagem: iStock
Para permitir a cicatrização dos tecidos depois de uma cirurgia no intestino, é preciso que seja criado um orifício na parede abdominal, chamado de estoma, para permitir a saída das fezes para uma bolsa coletora. O procedimento é chamado de colostomia ou ileostomia, dependendo do local em que é feito, e pode ser temporário. 

Dependendo da extensão da doença ou da localização do tumor, nem sempre é possível religar as partes do intestino removidas na cirurgia, e nesses casos a colostomia é definitiva. Esse é um dos maiores temores dos pacientes submetidos à cirurgia, mas, com os avanços nas técnicas cirúrgicas e detecção precoce, essa necessidade diminuiu.

Samuel Aguiar Junior sempre lembra aos pacientes que precisam da colostomia para sempre que a capacidade de adaptação do ser humano é incrivelmente alta. "Depois de um ou dois anos, isso deixa de ter impacto na qualidade de vida do paciente; isso até já foi demonstrado em estudo", garante o médico. 

Existem terapeutas especializados em auxiliar o paciente colostomizado. O período inicial é sempre difícil, pois é preciso aprender a trocar as bolsas, utilizar os acessórios para higienização, proteger o sistema durante o banho, cuidar de eventuais feridas, fazer adaptações no vestuário, na alimentação e durante a atividade sexual. Mas, com o tempo, o processo entra na rotina. 

Prognóstico

Quando detectados em estágios iniciais, os cânceres de cólon e reto podem ser curados em 90% dos casos. Mas avanços na medicina têm mudado muito o prognóstico também nos estágios mais avançados. "Hoje em dia, 20% dos pacientes com doença metastática são curados, o que é um índice muito alto, visto que a maioria dos casos de câncer metastático não é curável", ressalta o médico do Hospital Israelita Albert Einstien. 

Como se ajudar

Mudanças no estilo de vida, como adotar uma dieta saudável, fazer exercícios, perder peso, evitar a bebida e o cigarro não são apenas medidas de prevenção. Elas também aumentam as chances de sucesso dos tratamentos. Como em qualquer outro tipo de câncer, é fundamental contar com suporte psicológico e o apoio de familiares ou amigos. Conversar com outros pacientes que têm ou tiveram a doença também ajuda a lidar com o choque do diagnóstico e as dificuldades do tratamento. 

A orientação nutricional é parte importante do tratamento, e também ajuda no controle de efeitos colaterais da quimioterapia. Alguns suplementos alimentares têm sido estudados e podem ser indicados para alguns pacientes, como a vitamina D e o ômega 3, mas é imprescindível avisar o médico sobre todos os produtos consumidos, até porque eles podem interagir com os medicamentos.

Acupuntura, massagens, técnicas de relaxamento e meditação também são terapias que podem ser integradas ao tratamento do câncer para melhorar o bem-estar dos pacientes. 

Como ajudar quem tem

O apoio de familiares e amigos é fundamental para um paciente diagnosticado com qualquer tipo de câncer. Por mais que seja difícil falar sobre a doença, diga que está disponível para ouvir e ajudar no que for preciso. A simples presença pode ser um alívio, mas o auxílio prático durante o tratamento também pode fazer a diferença, como fazer as compras para o paciente, trazer uma refeição pronta e assim por diante. 

Prevenção e detecção precoce

  • Tente limitar o consumo de carne vermelha a no máximo duas vezes por semana, ou 300 gramas semanais. Procure evitar carnes processadas, como embutidos
  • Consuma ao menos cinco porções diárias de frutas, verduras e legumes, e dê preferência aos cereais integrais. As fibras desses alimentos favorecem o trânsito intestinal, evitando que a mucosa fique mais tempo exposta a eventuais toxinas, mas não há evidência de que usar suplementos com esse fim tenha papel protetor
  • Pratique atividades físicas regularmente
  • Evite o consumo de álcool
  • Não fume
  • Mantenha o peso sob controle
  • Procure o médico sempre que detectar alterações nas fezes ou no hábito intestinal
  • O exame de colonoscopia deve ser realizado a partir dos 50 anos de idade, ou a partir dos 40 anos em caso de histórico de câncer na família. Os resultados determinam com que regularidade ele deve ser repetido. Lembre-se que o procedimento também funciona como preventivo contra o câncer colorretal

Fontes: Diogo Bugano, médico oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein; Samuel Aguiar Junior, médico especialista em cirurgia oncológica do A. C. Camargo Cancer Center; Ministério da Saúde; Instituto Nacional de Câncer (Inca); Instituto Oncoguia; American Cancer Society; World Cancer Research Fund.

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