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Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Equilíbrio

Por que insistimos em algo que investimos tempo ou dinheiro para ter?

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Imagem: iStock

Erica Goode

Do New York Times

19/07/2018 14h22

Imagine que, procurando se divertir à noite, você pague US$175 por um ingresso para um novo musical da Broadway. Sentado na galeria, você logo percebe que a atuação é ruim, que os cenários são feios e que ninguém, você suspeita, irá para casa cantarolando as melodias.

Você vai embora no intervalo ou fica até o fim?

Estudos sobre o processo de tomada de decisão humano sugerem que a maioria das pessoas não sairá do lugar, ainda que o dinheiro gasto no passado, logicamente, não tenha influência na escolha.

Essa "falácia do custo perdido", como os economistas chamam, é uma entre as muitas formas pelas quais os humanos permitem que as emoções afetem suas escolhas, às vezes até em detrimento próprio. Contudo, a tendência a levar em consideração investimentos passados na tomada de decisão parece não estar limitada ao "Homo sapiens".

Em estudo publicado na revista "Science", pesquisadores da Universidade de Minnesota relataram que camundongos e ratos, a exemplo de humanos, também eram influenciados pelos custos perdidos.

Quanto mais tempo investiam esperando por uma recompensa --no caso dos roedores, bolinhas aromatizadas; no caso dos humanos, vídeos divertidos--, menor a probabilidade de desistirem antes de a espera acabar.

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"O que quer que aconteça aos humanos também ocorre em animais não humanos", diz A. David Redish, professor de neurociência da Universidade de Minnesota e um dos autores do estudo.

De acordo com ele e outras pessoas, essa uniformidade entre espécies sugere que, ao se tomar uma decisão, levar em consideração o quanto já foi investido pode valer a pena.

"A evolução por seleção natural não promoveria qualquer comportamento a menos que tivesse algum talvez obscuro --benefício geral", afirma Alex Kacelnik, professor de ecologia comportamental em Oxford, que elogiou o novo estudo como "rigoroso" na metodologia e "bem projetado".

"Se todo mundo faz assim, o raciocínio é que deve haver um motivo", declara Kacelnik.

Talvez ainda mais importante do que a similaridade entre espécies foi a descoberta do estudo de que os efeitos do custo perdido apareciam apenas depois de as cobaias terem decidido perseguir uma recompensa, observou Redish, não enquanto ainda resolviam o que fazer.

Na verdade, os animais pareciam considerar que o tempo de deliberação não fazia parte do investimento --uma indicação, explica Redish, de que diferentes processos cerebrais podem estar em ação em aspectos distintos da tomada de decisão.

A ideia vai de encontro à noção de que "tempo é tempo, e você o está perdendo de toda forma", ele diz.

Shelly Flagel, professora adjunta de Psiquiatra da Universidade do Michigan que não participou do estudo, diz que a pesquisa tinha "implicações de longo alcance em áreas como educação, economia, psicologia, neurociência e psiquiatria".

Ela diz, por exemplo, que persistir em um comportamento mesmo que tenha consequências adversas é similar à conduta "exibida por pessoas com vícios".

"Quando começam a procurar a próxima 'dose', elas podem ficar horas ou dias na mesma busca, mesmo que signifique abrir mão de comida, relacionamentos, emprego", explica Flagel.

Aprender mais sobre os distintos processos que dão errado em distúrbios psiquiátricos como o vício pode gerar novas estratégias para tratamento, acrescenta.

No estudo, conduzido por um aluno de doutorado, Brian M. Sweis, três laboratórios de pesquisa da Universidade de Minnesota colaboraram para realizar testes com camundongos, ratos e humanos. Os roedores foram treinados a coletar as bolinhas aromatizadas --banana, chocolate, uva ou natural-- em um labirinto quadrado com um "restaurante" em cada canto.

Os humanos foram ensinados a "coletar" vídeos de gatinhos em um computador, "cenários de dança" ou acidentes de bicicleta. Tanto roedores quanto humanos receberam um limite total de tempo para as tarefas de coleta.

Na versão da tarefa para roedores, o animal primeiro entrava em uma "zona de oferta" do lado de fora do restaurante e ouvia um som agudo informando qual seria a espera pela recompensa --uma demora que variava aleatoriamente de um a 30 segundos.

O animal poderia ignorar a oferta, que nesse caso era retirada, ou poderia entrar na "zona de espera" do restaurante, acionando uma contagem regressiva sinalizada por um tom descendente. A qualquer momento durante a contagem, o roedor poderia escolher sair do restaurante, mas, depois que saísse, não poderia voltar sem caminhar até as outras zonas de ofertas dos restaurantes.

Na versão humana do experimento, um vídeo era oferecido aos voluntários em conjunto com os botões "ficar" ou "ignorar". Uma barra de "download" informava quanto tempo teriam de aguardar pelo vídeo. Clicar no botão "ficar" iniciava a contagem regressiva e a tela mostrava o progresso do download.

O estudo constatou que, quanto mais tempo os roedores ficavam na "zona de espera", maior a probabilidade de esperarem até o fim, ainda que isso reduzisse o tempo total para procurar alimento.

De forma similar, quanto mais os voluntários humanos ficavam esperando para o vídeo baixar, maior a probabilidade de permanecerem até o download acabar.

Por incrível que pareça, a quantidade de tempo que as cobaias --roedoras ou humanas-- gastavam deliberando se aceitavam a "oferta" de uma recompensa não afetava a desistência antes de a receberem ou se ficariam até o final.

"Obviamente, a melhor coisa é entrar o mais rápido possível na zona de espera", diz Redish. "Só que ninguém faz isso. De alguma forma, as três espécies sabem que, se entrarem na zona de espera, será preciso pagar esse custo perdido, e elas passam um tempo a mais deliberando na zona de oferta para que não terminem empacados."

Flagel, da Universidade do Michigan, observou que, por mais interessante que a nova pesquisa seja, ela tem suas limitações, incluindo o fato de que as tarefas apresentadas a humanos e roedores, embora com algumas semelhanças, eram bem diferentes.

"O desafio a seguir é saber se de fato o mesmo fenômeno é detectado em várias espécies. Ou, talvez mais precisamente, qual é o significado das diferenças que serão reveladas entre as espécies?"

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