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Como uma ONG fez com que EUA exigissem alimentos saudáveis da indústria

Paul Rogers/The New York Times
Imagem: Paul Rogers/The New York Times

Jane E. Brody

Do New York Times

05/01/2018 15h55

Nesta era de "fatos alternativos" e da crescente influência industrial de Washington, o bem-estar dos americanos mais do que nunca depende de organizações independentes, financeira e politicamente, que informem os consumidores e defendam mudanças de políticas que ajudem a nos manter saudáveis.

Um dos grupos mais influentes, sediado em Washington, é o Centro para Ciência no Interesse Público, CSPI (na sigla em inglês), liderado há mais de quatro décadas por Michael Jacobson, que recentemente deixou o cargo de diretor executivo para trabalhar como cientista.

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Inspirado por Ralph Nader e armado com uma licenciatura em Microbiologia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Jacobson e dois cofundadores surgiram na cena alimentícia em 1971. Apoiado pela melhor evidência científica da época, o CSPI atacou implacavelmente os ingredientes, as práticas de marketing e os hábitos alimentares que, segundo pesquisas, podem prejudicar a saúde dos americanos.

Com seu talento natural de comunicador, Jacobson foi capaz de vender ciência séria com frases marcantes e humor, mostrando ao público quais alimentos evitar e oferecendo sugestões de alternativas mais saudáveis. Hoje, a Nutrition Action Healthletter da organização ainda combate produtos prejudiciais (os chamados "Food Porn"), com opções mais saudáveis ("The Right Stuff").

Na luta contra a poderosa indústria de refrigerantes, Jacobson classificou as bebidas açucaradas como "doce líquido", e o CSPI lutou para que a "adição de açúcares" aparecesse de forma separada no rótulo nutricional. Agora, os consumidores podem distinguir entre açúcares naturalmente presentes em frutas, vegetais e produtos lácteos e os adoçantes adicionados na produção.

O Dr. Walter C. Willett, pesquisador internacionalmente respeitado e professor de Epidemiologia e Nutrição da Escola de Saúde Pública T.H. Chan de Harvard, afirmou que os americanos sabem muito pouco sobre os alimentos que consomem e os danos que sua saúde poderia sofrer, se não fosse o CSPI.

"Uma boa verba pública e trabalho científico demonstraram uma clara relação entre dietas e consequências para a saúde em longo prazo. Os dados são publicados e talvez relatados na mídia, mas quando só isso acontece, a informação é muitas vezes esquecida", disse Willett.

"Se você realmente quer melhorar a saúde pública, tem que traduzi-la em políticas públicas, e é aí que o CSPI desempenha um papel importante."

O centro fez uma campanha vigorosa para livrar alimentos de corantes potencialmente prejudiciais, excluir refrigerantes e junk food das escolas, com a inclusão de mais frutas e verduras no almoço, reduzir a gordura trans de alimentos processados e de pratos de restaurantes a quase zero e cortar a quantidade de sódio, prejudicial ao sistema cardiovascular, nos alimentos.

Graças em grande parte ao CSPI, os rótulos americanos agora listam sete dos alérgenos alimentares mais comuns, como amendoim ou soja, que podem ser fatais para pessoas sensíveis. Hoje existem avisos em bebidas alcoólicas alertando sobre o potencial de danos à gestação. O termo "orgânico" agora tem uma definição legal e medidas de segurança foram reforçadas para evitar doenças transmitidas por alimentos.

CSPI x indústria alimentícia

Como seria de se esperar quando uma pequena organização sem fins lucrativos enfrenta uma indústria multibilionária, o CSPI passou por controvérsias. Foram feitas objeções à campanha da organização para reduzir o sal, por exemplo. Embora alguns especialistas continuem dizendo que o sal não é problema para a maioria das pessoas, Jacobson acredita que há boas evidências dizendo o contrário.

"Defendemos uma abordagem de saúde pública e a intervenção do governo, enquanto que os conservadores acham que é responsabilidade pessoal sem a necessidade de envolvimento governamental", disse ele em uma entrevista.

Willett observou que "políticas não acontecem se nada for feito, e uma organização independente como o CSPI é necessária para combater a forte ingerência da indústria, que distorce seriamente a ciência nutricional quando influencia qual pesquisa será feita, quais os resultados serão publicados e como as conclusões são direcionadas".

O Dr. David Kessler, ex-comissário da Administração de Alimentos e Drogas (FDA) e hoje conselheiro do CSPI e professor da Universidade da Califórnia, em San Francisco, disse que Jacobson "fez o país começar a exigir alimentos mais saudáveis. Nenhuma outra pessoa fez tanto. Ele convenceu uma indústria que a princípio era francamente hostil a adotar valores nutricionais que se tornaram padrões".

Entre suas outras conquistas estão a criação, em meados da década de 1970, do Dia Nacional dos Alimentos, que inspirou milhões de jovens ativistas culinários, e um manual chamado "Food for People, Not for Profit" (Comida para as pessoas, não para o lucro), que explica questões como o papel que o agronegócio desempenha na qualidade dos alimentos.

E, o que também impressiona, é como Jacobson utiliza informações científicas e se dispõe a alterar os conselhos do centro quando novas provas surgem.

O CSPI foi acusado de ajudar a criar a questão da gordura trans quando, décadas atrás, exigiu que a indústria de alimentos substituísse óleos vegetais hidrogenados por gordura animal altamente saturada. "Na década de 70 e 80, não havia nenhuma evidência de que as gorduras trans eram um problema", recorda-se Jacobson.

Depois que estudos confiáveis mostraram que essas gorduras eram mais prejudiciais para a saúde cardiovascular do que a da carne e dos laticínios, o CSPI pediu à FDA, em 1994, que exigisse sua rotulação e defendeu sua remoção de alimentos comercializados.

Boletim de ONG é seguido por consumidores do país inteiro

Marion Nestle, professora emérita de Nutrição e Saúde Pública da Universidade de Nova York, diz que o CSPI "é uma organização única, sem conflito de interesses, e que consegue ver a situação como um todo".

A newsletter do centro, acrescentou ela, é uma publicação extraordinária que, ao longo dos anos, cobriu todas as questões importantes de nutrição. "Fico chocada com o fato de que nem todo mundo a recebe."

Revelação: sou fã do CSPI há décadas e assino a Nutrition Action Healthletter, além de ter dado assinaturas de presente a muitos amigos e parentes.

Desde sorvetes até substitutos da carne, ela ajuda a tirar dúvidas sobre dezenas de produtos, suas posições nas listas "melhores porções", "menções honrosas" e "média", de acordo com conteúdo nutricionalmente relevante como calorias, sódio, açúcar e proteínas.

Em uma recente avaliação de pães comerciais, o boletim elogiou o Dave's Killer Bread Organic Thin-Sliced, cheio de grãos integrais e sementes, e com apenas 60 calorias, que se tornou meu favorito absoluto. Há também dez edições anuais com receitas nutritivas e de fácil preparo, e muitas delas se tornaram refeições básicas em casa, como o grão-de-bico assado com alho e tomate cereja e a abóbora assada picante.

Para aqueles que muitas vezes comem fora, o boletim, guiado pelo conhecimento extensivo da nutricionista Bonnie Liebman, sugere opções mais saudáveis dos pratos tradicionais. Na Panera, em vez de um café da manhã com 840 calorias que inclui um bagel integral com cream cheese e um latte grande, o boletim sugere um sanduíche de abacate, clara de ovo e espinafre no pão de grãos germinados e latte com leite desnatado, que contém metade das calorias.

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