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Sintomas, prevenção e tratamentos para uma vida melhor


A história da Grippina e dos remédios 'milagrosos' contra gripe espanhola

A gripe espanhola assolou as principais cidades brasileiras em 1918 e pouco ou nada existia para tratar as causas da doença - Getty Images
A gripe espanhola assolou as principais cidades brasileiras em 1918 e pouco ou nada existia para tratar as causas da doença Imagem: Getty Images

Marília Marasciulo - De São Paulo para a BBC News Brasil

01/08/2020 14h19

Um ditado conhecido entre os médicos afirma que existem doenças "que se curam com o tratamento, sem o tratamento e apesar do tratamento".

A gripe espanhola, que assolou as principais cidades brasileiras em 1918, se enquadra nessa última categoria: como proferiu Carlos Seidl, então diretor-geral de Saúde Pública, no início de outubro daquele ano (quando a gripe ainda não havia chegado a São Paulo), tratava-se de uma doença "sem causa específica", em cujo combate eram "recomendadas" algumas práticas "aconselhadas" por vários clínicos, porque "pareciam" garantir "certa imunidade".

Grippina 1 - Biblioteca Nacional - Biblioteca Nacional
O laboratório Sanitas usava de seu respaldo científico para anunciar os comprimidos Oxyform, "único remédio profilático e curativo da influenza espanhola"
Imagem: Biblioteca Nacional

Em outras palavras, pouco ou nada existia para tratar as causas da influenza.

Mas isso não impediu a busca por medicamentos e curas milagrosas. Diferentes conhecimentos populares eram difundidos (há quem diga que a caipirinha tenha sido criada no período como uma fórmula de prevenção) e charlatões se aproveitavam do desespero da população para oferecer serviços, como o do aparelho Farador de Madame Virginia (máquina inspirada nos trabalhos de Michael Faraday que utilizava correntes elétricas para supostamente aliviar o sofrimento dos pacientes).

A própria medicina, enquanto isso, apostava em fórmulas que prometiam combater a gripe. Uma das mais conhecidas era a da Grippina.

"Mesmo que na hora da propaganda fossem anunciados como algo que curava muitas coisas, há uma diferença entre medicamentos elaborados cientificamente para ajudar a prevenir ou combater a gripe, e os outros produtos", explica a historiadora Liane Bertucci, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

"A Grippina é um remédio elaborado cientificamente por homeopata. Ele não propõe nenhuma cura milagrosa, apesar de certos exageros nas propagandas."

Anunciada como "o remédio da gripe espanhola", a Grippina era produzida pelo laboratório de Alberto Seabra, um famoso médico homeopata paulista. Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, era bastante respeitado pelas autoridades, que inclusive recomendavam o uso de sua fórmula. Ela seguia os princípios do sistema elaborado pelo alemão Cristiano Frederico Samuel Hahnemann, cuja teoria defende a existência de uma força vital, imaterial e dinâmica, que funcionava como um intermediário entre o corpo físico e o espírito.

A doença nada mais seria que um desequilíbrio dessa força e, para restabelecer a saúde, era necessário eliminar os sintomas que prejudicavam o equilíbrio.

"Talvez essa ideia de que se tratava de uma cura milagrosa acontecesse devido à forma como os médicos homeopatas realizavam o diagnóstico e da prescrição individualizada de remédios, o que fazia algumas pessoas considerarem a homeopatia uma prática espírita", diz Bertucci.

"O que é diferente da alopatia, que tinha outro entendimento das moléstias e suas possibilidades de cura."

Grippina 2 - Getty Images - Getty Images
Estima-se que entre 50 e 100 milhões de pessoas tenham morrido por causa da gripe espanhola
Imagem: Getty Images

No desespero, vale até formol

Para a população em geral, porém, distinguir homeopatia de alopatia e mesmo charlatanismo nem sempre era uma tarefa simples —especialmente quando as últimas páginas dos jornais estavam repletas de anúncios dos produtos. "Chega um momento em que as pessoas não querem mais saber se é alopatia ou homeopatia, elas querem é algo que cure", diz Bertucci.

Havia de tudo um pouco. O Instituto Butantan teve o nome ligado a medicamentos como o Extrato Tonsilar do Dr. Erico Coelho, que prometia estimular as defesas do organismo. Outro homeopata famoso no período, Murtinho Nobre, recomendava o Gelsemium, preparado a partir da raiz do jasmim amarelo.

Em Porto Alegre, o laboratório Sanitas usava de seu respaldo científico para anunciar os comprimidos Oxyform, "único remédio profilático e curativo da influenza espanhola". Ainda na capital gaúcha, o Formagem, produzido pelo laboratório EKA, não se propunha exatamente a curar a gripe, mas dizia atenuar os sintomas: "a base de formaldeído [formol], o mais poderoso desinfectante conhecido, ligado à lactose desinfecta (sic) radicalmente a boca e as vias respiratórias. [...] De paladar agradável, é absolutamente inofensivo à saúde."

Em uma época na qual a medicina não era tão acessível à população, tais propagandas podiam ser bastante perigosas, explica a historiadora Daiane Rossi, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz).

"Pelo tipo da fórmula, já conseguimos imaginar o quanto esses medicamentos poderiam ser maléficos para quem os ingerisse. Mas os brasileiros tinham a tradição de se curar de outra maneira, elas levam um bom tempo até confiar nos médicos", diz.

Além disso, a homeopatia também parecia tornar a cura ao alcance de qualquer cidadão. "Medicar-se de forma eficaz e econômica seria uma prática perfeitamente possível durante a epidemia", escreveu Bertucci em sua tese de doutorado, "Influenza, a medicina enferma: ciência e práticas de cura na época da gripe espanhola em São Paulo".

A "cloroquina" da gripe espanhola

A preocupação com os preços era grande na época. Na edição de 4 de novembro do jornal O Combate, um leitor reclamava "contra os preços exorbitantes que a Farmácia Humanitária, a avenida Brigadeiro Luiz Antonio, 209, está cobrando na ganância de tirar proveito das desgraças alheias. Por exemplo: cobra 1$000 pela metade do alcoolato de canela que o Serviço Sanitário está vendendo a $300. Pouco humanitária a tal farmácia."

quinino - Biblioteca Nacional - Biblioteca Nacional
O quinino era feito com a quina, planta usada por índios para curar febre. Como um dos sintomas da gripe espanhola era a febre, as autoridades sanitárias passaram recomendar o uso dos sais de quinino como profilaxia
Imagem: Biblioteca Nacional

Um dos casos que geraram muita polêmica foi o do quinino. Feito com a quina, uma planta tropical presente na América do Sul (especialmente no Peru) e usada por índios para curar febre, popularizou-se a partir do século 17, no combate à malária. Como um dos sintomas da gripe espanhola era a febre, as autoridades sanitárias brasileiras passaram recomendar o uso dos sais de quinino como profilaxia.

Em seus "Conselhos ao Povo", que circularam nos principais jornais do país, a Diretoria do Serviço Sanitário recomendava, entre outros, "tomar, como preventivo, internamente, qualquer sal de quinino nas doses de 25 a 50 centigramas por dia, e de preferência no momento das refeições."

Não demorou para que o povo corresse às farmácias em busca do quinino, e os preços acompanharam a demanda. No dia 16 de outubro de 1918, o sulfato de quinina, comercializado a 320$000 o quilo, em menos de 12 horas passou a custar 450$000, de acordo com a pesquisa de Bertucci. Havia também quem desmaiasse no meio da rua de tanto tomar quinino, que em doses excessivas é tóxico.

O Serviço Sanitário tratou de intervir, passando a regular os preços e a exigir receitas específicas para conter a "crise" do quinino. No entanto, ela pode ter contribuído para a popularização dos outros medicamentos. Uma das estratégias da Grippina, por exemplo, foi chamar a atenção para a virtude de "estar ao alcance das classes pobres": um vidro de Grippina custava 3$000, preço equivalente ao de 10 cápsulas de sulfato de quinino de 0,5 miligramas. Outro ponto positivo seria o fato de ser facilmente encontrada na Companhia Paulista de Homeopatia, enquanto o quinino estava tabelado pelo Serviço Sanitário.

Regulamentação das propagandas

Ainda que tímidas e sem muito sucesso, houve algumas tentativas de regular as fórmulas e produtos farmacêuticos. Em um apelo ainda em outubro, o Serviço Sanitário pediu que clínicos uniformizassem e simplificassem as receitas. Um médico foi além, e sugeriu a proibição anúncios que se relacionassem à epidemia sem a aprovação prévia do diretor sanitário.

Chegou a haver algumas campanhas contra personagens específicos. O diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, Artur Neiva, encabeçou uma cruzada contra Moura Lacerda, a quem chamava de "pseudo doutor", pois divulgava a "autocura física", que incluíam reeducação alimentar, uso de plantas medicinais, helioterapia, balneoterapia, entre outros. Mas o principal resultado parece mesmo ter sido a evidência da incapacidade das autoridades de controlar até mesmo quem acusavam de charlatanismo.

Levou algumas décadas até que os medicamentos passassem a obedecer uma legislação de registro, conforme explica a professora de farmacologia e toxicologia Flávia Tissen, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Embora o Código de Nuremberg de 1947 tenha estabelecido um conjunto de princípios éticos para a pesquisa com seres humanos, foi só em 1962, com o caso da Talidomida (sedativo que causa malformação de fetos), que uma série de testes passou a ser exigida para que um remédio possa ser lançado.

"Até então, só observavam que tinha problemas quando já tinha problemas", conta.

No Brasil, a lei que dispõe sobre o controle sanitário do comércio de insumos farmacêuticos e correlatos é de 1973. A propaganda, por sua vez, passou a ser regulamentada em 1976 e proibiu, entre outros pontos, a publicidade de medicamentos que só podem ser vendidos sob prescrição. Em 1988, a nova Constituição Federal tornou obrigatória a restrição às propagandas de medicamentos, para proteger a população dos riscos à saúde que podem surgir por causa delas.

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