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Paulo Chaccur

REPORTAGEM

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Quantos anos têm seu coração? 10 fatores que influenciam na idade cardíaca

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

30/01/2022 04h00

Você sabia que é possível que o seu coração esteja envelhecendo mais rápido do que sua idade cronológica? O fato é que nem sempre o órgão segue a mesma curva de envelhecimento do restante do nosso corpo. Isso porque à medida que o tempo passa, ele pode envelhecer mais rápido por conta das experiências vividas e de aspectos determinantes para a saúde.

Quando o coração sofre desgastes além do que deveria, é maior a probabilidade de apresentar artérias mais duras, calcificadas, tecido muscular mais espesso e rígido, anormalidades no sistema de condução e válvulas disfuncionais.

Um coração "envelhecido" tem mais chances, por exemplo, de sofrer um infarto e desencadear um AVC —em função de coágulos formados dentro do órgão decorrentes de arritmias ou em áreas de fibrose. Portanto, avaliar a idade do coração é justamente uma maneira de dimensionar o quão saudável ele está.

Vale lembrar que os genes que herdamos dos nossos pais também podem influenciar, mas são os fatores de risco que têm mais impacto no envelhecimento prematuro do coração. Estudos sugerem que a genética é responsável por 25% do ritmo do envelhecimento. Os outros 75% correspondem às particularidades de cada indivíduo, caracterizadas por hábitos e estilo de vida, condições ambientais e socioeconômicas, doenças crônicas, entre outros.

Nossa idade cardíaca deve ser, portanto, calculada com base nos agentes complicadores que interferem no sistema cardiovascular. Colesterol, diabetes, pressão alta, cigarro, estresse, depressão, ansiedade, sedentarismo, alimentação, obesidade e doenças são alguns deles. Quanto mais fatores de risco um indivíduo tiver —e quanto mais graves eles forem— mais seu coração envelhece.

Levantamentos recentes apontam um aumento na incidência de eventos cardiovasculares em pessoas na faixa de 40-65 anos. A estimativa é que, em média, um em cada 2 homens tem um coração com 5 anos ou mais de idade do que sua idade real e duas em cada 5 mulheres têm um coração 5 anos mais velho do que sua idade real. Para se ter ideia, cerca de 3 em cada 4 infartos e AVCs acontecem em decorrência de fatores que aumentam a idade do coração¹.

1. Idade cronológica

A idade cronológica é um dos aspectos que afeta a idade do coração. Com o passar dos anos, diversas alterações podem acontecer no sistema cardiovascular: na musculatura, valvas, artérias coronárias, sistema elétrico, dinâmica cardíaca, entre outros. O que não quer dizer que gerem alguma repercussão prejudicial. São adaptações do corpo para as necessidades geradas no processo natural de envelhecimento.

Com a idade, a função do coração, por exemplo, é influenciada, principalmente, pela diminuição da elasticidade e da capacidade do órgão em responder às mudanças de pressão do sistema arterial, aumentando assim sua resistência à ação de bombeamento, e como consequência, o trabalho necessário para conduzir o sangue.

Normalmente, o coração continua a bombear sangue suficiente para suprir o organismo. Porém, em determinados casos, pode não ser capaz de desempenhar tal função tão bem quanto antes, em especial em situações que exigem mais, como em casos de constante tensão emocional e estresse, esforço físico excessivo, doenças, infecções, lesões e até medicamentos.

Além disso, o coração é um órgão que, com o envelhecimento, não apenas se atrofia, mas se hipertrofia, ou seja, aumenta de tamanho. Entre 30 e 90 anos de idade há um aumento da massa cardíaca de 1 a 1,5 g/ano. Isso por si só não traz nenhum problema. O risco surge para aqueles com esclerose valvar ou pressão arterial alta.

Aqui só foram apontadas algumas, mas diversas mudanças que acontecem com a idade podem aumentar o risco de doença cardíaca, incluindo complicações que envolvem apenas o coração, os vasos sanguíneos ou ambos. A probabilidade de doenças ou eventos graves é maior, de modo geral, após os 55 anos de idade.

2. Gênero

Homens, normalmente, apresentam doenças cardíacas cerca de 10 anos mais cedo do que as mulheres —o infarto é mais frequente em homens a partir dos 55 anos e nas mulheres após 65. E a principal explicação é o fato de que as mulheres são protegidas pelo estrogênio até a chegada da menopausa, quando o risco de doenças cardíacas começa a se igualar ao do gênero masculino. À medida que a proteção do estrógeno diminui, um coração já desgastado por outros fatores, pode ter seu processo de envelhecimento intensificado.

Por natureza, durante o período fértil, elas contam com os efeitos protetores deste hormônio que estimula a dilatação dos vasos, otimizando o fluxo sanguíneo para o músculo do coração através das artérias coronárias. Ou seja, nessa época o risco de um infarto do miocárdio ou do desenvolvimento da doença arterial coronária (DAC) são bem menores.

3. Histórico familiar

Como já mencionado, a genética também tem seu papel no risco de eventos cardíacos. Isso porque os genes controlam diversos aspectos do sistema cardiovascular, desde o tamanho e espessura dos vasos sanguíneos até a forma como as células do coração se comunicam. Uma variação ou mutação em um único gene pode afetar a probabilidade de diferentes doenças.

Por isso, ter conhecimento do histórico de saúde da sua família, assim como de antecedentes cardiológicos —ou até outras patologias (como câncer e doenças crônicas)— e fatores de risco trazidos pela genética, pode ajudar a retardar o envelhecimento do órgão e prevenir e minimizar complicações futuras.

4. Colesterol

Quanto mais alto for o nível de colesterol LDL (o colesterol ruim), mais "velho" será o coração. A razão? Uma das principais causas de doença cardíaca é o acúmulo de gordura nas paredes das artérias. Essa gordura gradualmente forma placas, os ateromas, que podem obstruir os vasos dificultando ou bloqueando a passagem do sangue. No entanto, para manter-se em pleno funcionamento, o músculo cardíaco necessita de uma demanda sanguínea constante.

Com o tempo, crescem os riscos de o cenário evoluir para a doença arterial coronária, um infarto ou AVC. Leva muitos anos para uma placa de ateroma se desenvolver, entretanto, quanto mais avançada a idade, maior o risco.

Vale reforçar que o tratamento do colesterol deve ser preventivo e para a vida toda. Se parar, o nível sobe de novo. É preciso ficar claro que não se busca uma cura e, sim, um controle, que envolve a prática de exercícios físicos, cuidados com a alimentação, atenção ao peso, hábitos saudáveis e, quando necessário, o uso de medicamentos.

5. Pressão arterial

Níveis elevados de pressão sistólica máxima e mínima de forma constante e por um longo período, a chamada hipertensão arterial (HA), também podem aumentar a idade do coração. A pressão ideal é aquela com a máxima de 12 e mínima de 8. Em um quadro de hipertensão, ela alcança 14 por 9 ou mais. Se isso acontecer, o coração passa a ter trabalho extra para bombear o sangue na corrente sanguínea, que circula com velocidade e força além das que seriam recomendáveis. E aí os danos são perigosos se os níveis não forem controlados.

A HA é tida como grave porque pode desencadear problemas em todo o sistema cardiovascular, entre o desenvolvimento da DAC; indução de lesões dentro da camada mais interna das artérias (o endotélio), podendo levar à sua ruptura ou estimulando a aterosclerose; a hipertrofia do ventrículo esquerdo, quadro que pode evoluir para uma insuficiência cardíaca e arritmias; dilatação da aorta, causando o aparecimento de aneurismas, isso sem falar das consequências em outros órgãos, como o rim.

6. Tabagismo

Fumar aumenta o risco de ataque cardíaco, mesmo que isso ocorra apenas de vez em quando. O tabagismo é um vilão para a saúde do coração. E o cigarro não afeta o órgão de uma única maneira: são mais de 4.700 substâncias tóxicas que entram no sistema cardiovascular.

Fumantes têm cerca de 70% mais riscos de sofrer um infarto em comparação àqueles que não fumam. Ou seja, quem fuma tem muitas chances de ter um coração precocemente envelhecido.

O cigarro faz com que as artérias fiquem mais vulneráveis ao acúmulo de placas de gordura, que por sua vez favorecem a formação de coágulos. Quando isso ocorre, a passagem do sangue fica comprometida, o que pode desencadear um infarto ou AVC. O ato de fumar exerce também interferência no mecanismo de contração e relaxamento do órgão (prejudicando a circulação sanguínea), acelera o ritmo dos batimentos e aumenta a pressão. Pode ainda causar o espessamento do sangue, dificultando o transporte de oxigênio para o corpo.

7. Consumo excessivo de álcool

Bebida alcoólica; garrafas; bar - iStock - iStock
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O álcool em grande quantidade causa enfraquecimento das células musculares cardíacas, levando a uma doença chamada miocardiopatia alcoólica. Também pode estimular o fechamento das artérias, desencadear arritmias, aumentar os perigos de hipertensão arterial, obesidade e risco de uma insuficiência cardíaca (a falência estrutural e funcional do coração), infarto ou acidente vascular cerebral. Isso só para citar alguns exemplos.

8. Diabetes

Quando o organismo apresenta níveis elevados de glicose no sangue, diversas alterações que interferem no sistema cardiovascular podem ocorrer. O principal comprometimento é a doença arterial coronária, que surge em decorrência do processo precoce e acelerado de aterosclerose —mais uma vez a formação de placas de gordura nas artérias do coração.

Isso porque o diabetes traz mudanças para a função de vários tipos de células, além de favorecer a produção de coágulos e elevar o nível de colesterol, formando um número maior de placas de gordura nas coronárias.

A hiperglicemia crônica, a dislipidemia (presença de altos níveis de gordura no sangue) e a resistência à insulina, somados, favorecem a progressão aterosclerótica, elevando o risco de entupimento dos vasos —e como já mencionado no surgimento ou agravamento de fatores de risco ou doenças cardíacas.

9. Peso

O excesso de peso e a obesidade são outros aspectos que favorecem o envelhecimento e o aumento do risco para diversas doenças que atingem o sistema cardiovascular. Elas podem causar mudanças importantes na estrutura e no tamanho do coração, além de comprometer o seu funcionamento.

A gordura acumulada contém células capazes de produzir substâncias inflamatórias que se alojam com facilidade na parede das artérias e formam placas de gordura —que geram as consequências acima explicadas. Pessoas obesas ou com sobrepeso têm ainda mais riscos de desenvolver problemas metabólicos, como diabete e colesterol alto, também, como vimos, considerados fatores relevantes para as doenças do coração.

10. Saúde mental

Estresse, ansiedade, depressão e tristeza profunda também influenciam no envelhecimento do órgão. O quadro se agrava quando o cenário se torna constante. Crises de ansiedade e momentos de estresse corriqueiros geram desequilíbrio emocional e fisiológico e podem desencadear eventos cardíacos.

Entre os efeitos sobre o corpo, em especial para o sistema cardiovascular, estão altos níveis de cortisol na corrente sanguínea, hiperatividade do sistema nervoso simpático, anormalidades plaquetárias que levam a fenômenos trombóticos e a ativação do sistema imunológico, estimulando a evolução da aterosclerose, a ocorrência de arritmias e da DAC, além de outros eventos que afetam o coração, inclusive o infarto do miocárdio.

Como ajudar o coração a permanecer jovem?

Batimentos cardíacos, frequência cardíaca, batidas do coração - iStock - iStock
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Precisamos nos conscientizar da importância de um envelhecimento saudável —tanto na idade cronológica quanto na cardíaca. O coração não deve carregar o peso de uma vida toda sem cuidados. Não podemos deixar para nos preocupar com todos estes aspectos apenas quando o corpo nos enviar sinais de que algo não vai bem.

Apesar das mudanças que o tempo traz ao corpo e ao funcionamento do organismo, é essencial reforçar que envelhecer não é sinônimo de adoecer. E isso inclui a saúde cardiovascular. Não é difícil encontrar pessoas maduras com corações em pleno funcionamento, com as válvulas em dinâmica adequada, órgão em tamanho normal e artérias coronárias sem qualquer entupimento.

No entanto, é necessário planejamento. Os cuidados que mantemos ao longo da vida vão fazer diferença lá na frente, com o avanço da idade.

Prevenção ainda é a maneira mais sábia de proteger o sistema cardiovascular. Precisamos entender o envelhecimento como um processo, que ocorre durante toda a existência, e não apenas uma etapa.

Curiosidade: Alguns sites (em inglês) oferecem um teste em que é possível avaliar a idade do coração —em comparação com nossa idade real. Neles conseguimos ainda uma estimativa dos anos extras que podemos dar ao coração fazendo mudanças no estilo de vida: https://www.nhs.uk/conditions/nhs-health-check/check-your-heart-age-tool/ e https://learnyourheartage.org/. Porém, para uma avaliação precisa e segura, procure um médico especializado.

¹ Dados do Center for Disease Control and Prevention (CDC), agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos.