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Qual a relação entre a saúde do coração e a nossa respiração?

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Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

15/03/2020 04h00

Você já parou para pensar na importância que tem a nossa respiração? O corpo pode passar horas sem água ou até dias sem comida, mas não conseguimos sobreviver se ficarmos sem ar por alguns minutos. A respiração é essencial à vida.

E apesar de ser um ato involuntário do organismo, qualquer mudança no seu compasso natural pode causar problemas e alterar o funcionamento de todo o corpo, e isso inclui o coração. Os sistemas respiratório e cardíaco estão diretamente conectados. Quando um dos dois apresenta falhas, acaba comprometendo ou influenciando no funcionamento do outro.

Ligação entre eles

O coração tem papel fundamental na circulação do sangue para todo o corpo. E isso é feito para os pulmões, para a oxigenação do sangue e para a circulação cerebral, abdominal e periférica, levando o sangue oxigenado aos tecidos.

Ou seja, são duas circulações isoladas e interligadas: uma dependente do funcionamento do lado direito do coração, relacionada aos pulmões, e a outra ao lado esquerdo, que atua na distribuição do sangue para o organismo.

Então falta de ar pode ser sinal de doença no coração?

Sim. De modo geral, as pessoas associam apenas dores no peito como um sinal de alerta para problemas no coração. Porém, dificuldades na respiração também podem revelar que há algo errado. A falta de ar, por exemplo, é um dos sintomas mais comuns de insuficiência cardíaca.

Nos estágios iniciais da doença, muitas pessoas se sentem sem fôlego após exercícios ou ao realizar tarefas que exigem mais do corpo. No entanto, se o quadro avança, a sensação de falta de ar pode se tornar mais comum mesmo durante atividades corriqueiras, como subir escadas, tomar banho e até ao deitar.

A falta de ar é uma consequência do mau funcionamento dos pulmões ou do coração. Se relacionada aos pulmões, estamos diante de uma doença própria do órgão, entre elas a bronquite, doença pulmonar intersticial, enfisema e outras patologias.

Quando relacionada ao coração, o problema está no seu desempenho ao bombear o sangue pelo lado esquerdo. Isso pode ocorrer devido ao mau funcionamento das válvulas ou por doença avançada da musculatura do ventrículo esquerdo, acarretando acúmulo de sangue nos pulmões e a possibilidade de extravasamento desse sangue nos alvéolos pulmonares, inclusive com quadro agudo de insuficiência respiratória (congestão pulmonar).

Já nos casos de insuficiência cardíaca congestiva, é o lado direito do coração que é afetado. As consequências são o crescimento do fígado, acúmulo de líquido entre as alças intestinais no abdômen (ascite) e edema (inchaço) nas pernas.

Maior risco de infarto

E quando falamos dos pulmões, especialmente no caso da pneumonia, um estudo publicado na revista acadêmica Chest, da Associação Americana de Cirurgiões Torácicos, aponta que pessoas que tiveram a doença estão mais suscetíveis a desenvolver problemas cardiovasculares nos 10 anos seguintes —isso quando comparadas a indivíduos que não apresentaram a enfermidade.

De acordo com o levantamento, 13% de pessoas internadas com pneumonia apresentaram eventos cardiovasculares dentro do período de 30 dias. As complicações incluem infarto agudo do miocárdio, arritmias, edema agudo de pulmão ou acidente vascular cerebral (AVC).

Outra pesquisa, realizada pela Universidade de Sydney (Austrália) e publicada no Internal Medicine Journal, revelou que aqueles que tiveram infecções respiratórias (aqui além da pneumonia, incluem-se também gripe, resfriado e bronquite, entre outras) têm 17 vezes mais chance de ter um ataque cardíaco. Quando o problema está relacionado ao trato respiratório superior, como em casos de rinite e sinusite, a ameaça ao coração é menor, mas também existe: o risco de um infarto aumenta em 13 vezes.

Durante o levantamento, ao entrevistar pessoas que sobreviveram a um infarto, os estudiosos notaram que, sete dias antes do infarto, 17% dos voluntários apresentaram sintomas de problemas respiratórios, como garganta inflamada, tosse e febre, e 21% já haviam sido efetivamente diagnosticados com doenças respiratórias no mês que antecedeu o evento cardiovascular.

Essa relação pode ser explicada, de acordo com a conclusão desses estudos, devido a uma tendência na formação de coágulos sanguíneos, de inflamações e alterações no fluxo do sangue, além de uma maior liberação de toxinas que danificam os vasos. Nesses quadros ocorrem ainda determinadas alterações na parede da coronária (responsável por irrigar o músculo cardíaco), processo que provoca sua obstrução, podendo desencadear o infarto.

E no caso do coronavírus?

Apesar de se tratar de um vírus novo e ainda com muito a ser investigado, o coronavírus é de uma família de vírus que causam infecções respiratórias, portanto também pode ter influência no funcionamento do coração. Como já se sabe, os principais sinais da covid-19 são febre, tosse, dificuldade para respirar, coriza e dor de garganta.

Segundo dados de fevereiro de 2020, do Colégio Americano de Cardiologia (ACC), 40% dos hospitalizados com resultado positivo para a infecção apresentavam alguma patologia cardiovascular ou cerebrovascular prévia. Além disso, 6,7% dos pacientes manifestaram arritmia e 7,2%, uma lesão no miocárdio.

Hoje pessoas com doenças cardiovasculares e idosos estão no grupo de maior risco para as complicações do coronavírus. O fato é que a infecção viral pode levar a uma série de reações e assim desequilibrar doenças cardiovasculares que antes estavam controladas. O aumento da demanda de O² pode gerar sobrecarga cardíaca e piorar quadros de insuficiência cardíaca e doença arterial coronariana.

No entanto, como já dito, isso não é válido apenas para o coronavírus. Qualquer infecção terá mais chances de afetar gravemente pacientes com enfermidades que comprometem as defesas do corpo. O fato da covid-19 ainda ser pouco conhecido não nos permite fazer afirmações conclusivas, mas a correlação desse agente infeccioso com o coração já não pode ser descartada.

Você tem o hábito de pingar descongestionante no nariz?

Pois saiba que alguns medicamentos para o sistema respiratório também podem interferir e prejudicar o funcionamento do coração. São eles, por exemplo, os medicamentos contra asma (broncodilatadores de ação rápida, popularmente conhecidos como "bombinhas") e descongestionantes nasais, que só deveriam ser usados mediante receita e em situações específicas, com prescrição e acompanhamento médico.

O fato é que o coração é repleto de vasos sanguíneos e é aí que está o perigo do uso excessivo e sem o controle devido desses remédios. No caso dos descongestionantes com vasoconstritores utilizados para diminuir o edema e desobstruir as narinas, o efeito não seria apenas local. É possível que atinja também outros vasos, como as artérias coronárias, e assim desencadear uma dor no peito (angina ou infarto do miocárdio) em pacientes portadores de doença arterial coronária ou ainda arritmias graves.

Já os broncodilatadores, responsáveis em aliviar as crises de bronquite, apresentam em sua composição substâncias que podem estimular o aparecimento de arritmias cardíacas de muita gravidade, inclusive com possibilidade de desencadear uma parada cardíaca —quando esses medicamentos são utilizados em doses mais elevadas e em um período mais longo de tempo do que deveriam.

A apneia do sono

Ainda falando da relação entre a respiração e o coração não podemos deixar de mencionar a apneia do sono, ou seja, a ocorrência de paradas respiratórias enquanto o indivíduo está dormindo. Quando pegamos no sono, há diminuição nos batimentos cardíacos e redução da pressão arterial, situações que ajudam a proteger a saúde do coração. A redução do ritmo cardíaco faz com que o organismo fique num estado de compensação de energia.

Quando acontecem esses episódios, a pressão arterial e a frequência cardíaca aumentam e vasos ficam mais estreitos por conta da baixa oxigenação no sangue. Esse distúrbio faz com que o coração se esforce mais no momento em que bombeia o sangue para o resto do corpo. À medida que os episódios ficam mais frequentes, mais é exigido do órgão e assim aumentam os riscos de o desenvolvimento de doenças cardíacas, como uma arritmia.

Por isso, reforço sempre: preste atenção aos sinais que seu corpo dá. À medida que notar sintomas recorrentes e alterações no seu metabolismo, mesmo que pareçam um simples resfriado, procure um especialista, faça exames e evite que problemas até simples possam evoluir para um quadro grave.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL