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Efeito sanfona: como o vai e vem da balança pode afetar a saúde

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Imagem: iStock
Paulo Chaccur

Diretor da Cirurgia Cardiovascular no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, é formado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e possui mais de 40 anos de experiência.Na década de 90, Chaccur passou a liderar a própria equipe de cardiologia e cirurgias cardíacas no HCor (Hospital do Coração).

Colunista do UOL

02/02/2020 04h00

Emagrecer está entre as suas metas para 2020? Então antes de mais nada é importante refletir em como você fará para eliminar os quilos extras. O fato é que nem sempre a forma escolhida para se alcançar esse objetivo é a melhor. Muitos sacrificam a saúde e até o processo de emagrecimento ao apostarem em dietas malucas ou medidas drásticas para perder peso.

A consequência? Aquele famoso vai e vem na balança, o chamado efeito sanfona. E muito além da frustração em ver os quilos voltarem rapidamente, o problema aqui são os riscos que isso pode trazer à saúde, inclusive a do coração.

Por que acontece esse efeito sanfona?

De modo geral, quando a redução de peso é feita a partir de uma dieta muito restritiva, os resultados surgem de forma rápida, mas não duradoura. No início a perda de peso pode ser realmente significativa, no entanto, depois de um tempo, esse ritmo vai diminuindo. O fato é que sem o planejamento correto e saudável para a conquista do resultado em longo prazo, o corpo acaba eliminando aquilo que não deveria e mantendo o que era para eliminar.

O organismo, percebendo essa mudança radical na ingestão de alimentos, começa a agir de modo a proteger e reservar a energia necessária para manter o seu funcionamento. Por isso, se emagrecer parece difícil, manter-se magro pode ser ainda mais desafiador.

Como reação a essa menor ingestão calórica, o corpo passa a lutar para voltar ao peso original. Estudos já mostram que o organismo reage quando há a eliminação de 5 a 10% do peso. É uma forma de tentar conservar o máximo de energia possível, inclusive na forma de gordura.

Para isso, ele diminui a produção de hormônios que tiram o apetite e eleva a liberação daqueles que aumentam a fome. Além disso, reduz a atividade metabólica e por consequência a queima de gordura passa a ser muito mais lenta. Nesse processo, ocorre ainda uma diminuição de massa muscular e de água nos tecidos. Assim, quanto mais privação de calorias, mais ele ativa o "modo economia".

O número na balança diminui, mas não da maneira como deveria para se manter. Com o tempo e o retorno da alimentação menos restritiva, o ganho de peso será muito maior e mais rápido, causando o tal efeito sanfona.

As consequências para sistema cardiovascular

O excesso de gordura —aquele que acabou não sendo eliminado com adoção de uma dieta radical e sem uma metodologia adequada— pode acarretar em um processo inflamatório que leva à formação de placas nas artérias e ainda ser responsável por gerar dislipidemia (presença de níveis elevados de gorduras no sangue), hipertensão arterial e aumento da resistência à insulina, quadro que pode levar ao descontrole permanente da glicose e o aparecimento do diabetes.

Em qualquer uma dessas situações, crescem as chances do surgimento de uma doença arterial coronária ou cerebrovascular, como no caso do AVC (acidente vascular cerebral). Tudo isso poderá ser ainda mais perigoso se associado à herança genética.

No caso do efeito sanfona, o impacto pode também gerar alterações na saúde emocional, levando a depressão, ansiedade e distúrbios alimentares, cenários que também interferem no agravamento ou desenvolvimento da doença coronária e vascular cerebral.

Riscos comprovados

E isso vem sendo comprovando por uma série de estudos ao longo dos últimos anos. Um levantamento mais recente da Universidade Columbia (EUA) mostrou que mulheres que costumam sofrer com a oscilação de peso têm mais chances de desenvolver ou apresentar alterações em fatores de risco para doenças cardiovasculares, entre eles o colesterol alto, diabetes e hipertensão, por exemplo. Ainda segundo a pesquisa, as participantes reféns do vai e vem da balança apresentam maior risco de sofrer infarto ou até mesmo AVC.

Já outra pesquisa realizada na Coreia do Sul, onde estudiosos acompanharam mais de 3,6 mil pessoas por 16 anos, detectou que quem passa pelo perde e ganha de peso está mais exposto a morrer precocemente por doenças cardiovasculares. O estudo ainda apontou que o efeito sanfona está ligado a um aumento de 63% na probabilidade de desenvolver diabetes.

Esse processo de emagrece-engorda constante pode ter um impacto negativo no coração até mesmo entre quem não está acima do peso. A conclusão é de pesquisadores do Memorial Hospital of Rhode Island (EUA), que acompanharam cerca de 150 mil mulheres na pós-menopausa por aproximadamente 10 anos.

Os autores notaram que quem estava com peso normal no início da experiência, emagreceu e depois recuperou os quilos eliminados apresentou uma probabilidade 3,5 vezes maior de morrer por parada cardíaca do que aquelas que mantiveram o peso estável do início ao fim da pesquisa.

E como sei que estou enfrentando o efeito sanfona?

A variação de peso em até três quilos em um mesmo dia, em um fim de semana ou durante um período de festas não é algo anormal. Isso pode ocorrer, por exemplo, por conta dos excessos de consumo ou por uma retenção de líquidos no corpo.

O efeito sanfona se caracteriza com a perda e ganho de peso após uma dieta, ou seja, o ponteiro da balança vai lá para baixo durante período de restrição alimentar, mas volta a subir quando esse processo é interrompido. E não existe um consenso entre os especialistas sobre a quantidade exata de quilos envolvidos. No geral, é considerada uma variação a partir de 5% do peso para cima e para baixo.

A balança e a saúde cardiovascular

Vale reforçar, no entanto, que mais do que o efeito sanfona, a obesidade é um dos maiores problemas de saúde pública no mundo, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde). E como dito, o controle do excesso de peso está diretamente relacionado ao desenvolvimento de fatores de risco para as doenças do sistema cardiovascular.

Por isso, uma informação importante de referência para a obesidade é a circunferência abdominal —que gera o acúmulo progressivo de gordura na parede ou entre os órgãos da região da barriga. Para as mulheres adultas, o valor limite é de 88 cm. Acima disso estará caracterizado o sobrepeso ou obesidade. Para os homens este valor é de 102 cm.

Assim, reforço que é essencial para a saúde do coração manter o controle de peso e ter atenção a circunferência abdominal, mas isso deve ser feito de maneira saudável, sem a adoção de um regime temporário ou radical demais para o organismo. Não existe uma maneira milagrosa de emagrecer rapidamente que não prejudique a saúde. O ideal é incorporar na rotina novos hábitos tanto no que diz respeito a alimentação quanto em relação a atividades físicas.

Mudanças consistentes, como incluir mais vegetais e fontes de proteínas magras, além de regularidade nos exercícios, são o caminho para emagrecer de forma duradoura. É importante ainda investigar a presença de transtornos alimentares, como no caso da compulsão. E tudo isso deve ser feito sempre com acompanhamento profissional, o que permite avaliar o quadro completo de cada paciente, individualizar orientações e estabelecer planos para um emagrecimento saudável e possível de ser sustentado.