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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Estamos vivendo uma distopia?

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Imagem: iStock
Lucas Veiga

Lucas Veiga

Lucas é psicólogo e mestre em psicologia clínica pela Universidade Federal Fluminense.

Colunista do VivaBem

28/09/2021 04h00

Uma das definições de distopia no dicionário é "lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação". Outra definição, mais sucinta, é "lugar ruim".

A sensação de habitar uma distopia, tal como nos livros de George Orwell ou Octavia Butler, tem estado presente em nós no contemporâneo de forma mais intensa do que possa ter estado antes. As notícias diárias, por vezes, são tão da ordem do absurdo que nos perguntamos atônitos: isso é real? Isso está acontecendo mesmo? Não seria um pesadelo de uma noite mal dormida? E nos beliscamos para ver se estamos sonhando.

Por falar em sonhos, estes estão muito vívidos e repletos de elementos que compõem o momento em que vivemos. A pergunta "isso aconteceu ou eu sonhei?" aparece em nós como efeito das imagens tão reais dos sonhos e tão, por vezes, inacreditáveis da realidade.

Mergulhados na virtualidade, por onde agora vemos o mundo, as pessoas e até nós mesmos (virtualidade, nesse fluxo contínuo de imagens em frames variados) sentimos uma leve tontura e perdemos pouco a pouco a distinção entre o real e o virtual. O uso constante das redes sociais, inclusive, pode produzir ou intensificar sensações do tipo: a vida do outro é mais interessante do que a minha, ou me sinto em falta quando me comparo com as pessoas que sigo nas redes. Sensações que geram, na maioria dos casos, uma desvalorização de si mesmo, além da perda dos parâmetros pessoais para tomadas de decisão por ficar, de algum modo, submetido às enxurradas de opiniões e perspectivas que inundam as telas de nossos celulares.

Outro efeito deste momento é a mudança na relação com o tempo. Diante da suspensão do futuro ou do seu adiamento, nos sentimos presos a um presente interminável que borra os dias e as horas. Que dia é hoje? Que horas são? Aos poucos essas perguntas passam a não mais fazer sentido. Outra relação com o tempo é instaurada. Os dias parecem não mais terem 24 horas.

Enquanto sentimos o abalo e o desmoronamento de certo modo de funcionamento do mundo e da vida provocados pela pandemia, nos mantermos conectados com aquilo que nos dá chão e direção, com o que enche nosso peito de sentido, é uma pista importante de preservação da saúde mental num cenário distópico. O que o sustenta? O que o alimenta? O que você tem como direção, como desejo de futuro? O que reforça em você o sentido e a beleza de estar vivo? Responda a si mesmo essas perguntas. Não as esqueça. E se concentre nas respostas, porque elas podem guiá-lo na criação de saídas possíveis para o mal-estar constante que nos assola nestes tempos.

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