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É possível eliminar o câncer do colo do útero

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Luisa Lina Villa

Luisa Lina Villa

Luisa Lina Villa é bióloga, chefe do laboratório de Inovação em Câncer, do Centro de Investigação Translacional em Oncologia, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, docente da Faculdade de Medicina da USP e membro da Academia Mundial de Ciências (TWAS).

04/03/2020 08h50

Estratégias contra HPV podem reduzir em 33% a taxa de mortalidade por câncer do colo do útero nos próximos 10 anos

Em 4 de março é celebrado o Dia Internacional de Conscientização sobre o HPV (papilomavírus humano), que infecta pele e mucosas de homens e mulheres em qualquer idade.

O HPV é considerado a IST (Infecção Sexualmente Transmissível) mais frequente no mundo. Estima-se que mais de 80% das pessoas serão infectadas pelo vírus em algum momento de sua vida.

O papilomavírus humano tem ligação direta com o desenvolvimento de diversos tipos de cânceres, como de colo de útero, vulva, pênis, ânus, boca e garganta. Quando falamos em câncer do colo do útero, o vírus está relacionado ao desenvolvimento de tumores na região em 100% dos casos. E esse é um dos tumores mais frequentes na população feminina.

Mas, resultados apresentados em dois artigos publicados em janeiro deste ano na revista Lancet não poderiam ser mais positivos: é possível eliminar o câncer do colo do útero.

Para tal, devem ser aplicadas as três estratégias propostas pela OMS (Organização Mundial de Saúde), que incluem a vacinação contra HPV, o rastreamento com testes de HPV (uma ou duas vezes ao longo da vida da mulher) e o tratamento das lesões precursoras e do câncer invasivo do colo do útero.

Os modelos matemáticos mostram que a eliminação poderá ser alcançada em 100 anos, salvando a vida de mais de 62 milhões de mulheres, principalmente nos países de baixa e média renda.

É relevante destacar que a aplicação imediata das estratégias preconizadas pela OMS poderá resultar em 33% de redução da mortalidade por câncer do colo do útero nos próximos 10 anos.

Para tanto, se faz necessário que 90% das meninas até 15 anos recebam a vacina de HPV, 70% das mulheres de 30 a 45 anos de idade sejam rastreadas com testes de HPV e 90% das mulheres com tumores cervicais recebam tratamento efetivo.

Há, porém, alguns obstáculos no caminho. A começar pela ausência de programas organizados de vacinação e rastreamento em muitos países de baixa e média renda, justamente aqueles com maiores taxas de incidência e mortalidade por câncer do colo do útero.

Mesmo aqueles que oferecem programas de vacinação para o público em geral, as taxas de cobertura de rastreamento e vacinação são frequentemente baixas. Sem contar o difícil acesso a tratamentos de câncer de qualidade oferecidos em distintas regiões do mundo, particularmente em países de menor nível socioeconômico.

Assim, o ônus da eliminação do câncer de colo do útero, com consequente redução de milhões de mortes, recai sobre todos, governos, sociedade civil, setor privado.

Cada investida dos movimentos anti-vacina pode e deve ser considerada uma ação que impedirá a redução da mortalidade por câncer cervical. Cada omissão de recomendação médica, cada falta de informação adequada, cada atraso no tratamento, tudo interfere para que as metas da OMS de eliminação do câncer do colo do útero não sejam atingidas.

No Brasil, a vacina contra o vírus do HPV é fornecida gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde), por meio do PNI (Programa Nacional de Imunizações) desde 2014.

De lá pra cá, apenas 51% das meninas de 9 a 14 anos de idade foram imunizadas, segundos dados divulgados pelo Ministério da Saúde no final de 2019. E o número entre meninos é ainda menor, de 22%.

Além de crianças e adolescentes, a vacinação é gratuita também a portadores de HIV/Aids, pacientes oncológicos e transplantados de 9 a 26 anos.

É preciso continuar avançando.

**Este texto não reflete necessariamente a opinião do UOL.

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