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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É possível ter um parto vaginal após já ter realizado uma cesárea?

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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do VivaBem

16/02/2021 04h00

Recentemente, a cantora Simone, que faz dupla sertaneja com Simaria, disse que seu próximo parto terá que ser cesárea, pois ela já tem uma cesárea anterior. Esse é um pensamento muito comum no Brasil, país com segundo maior número de cesáreas do mundo, por isso precisamos falar sobre o assunto.

Após uma cesárea a mulher pode ter um parto vaginal, sim, com exceção para um tipo específico de cesárea, a cesárea na vertical --daí surgiu o mito de que fazendo qualquer cesárea os próximos partos terão sempre de ser cesárea. Antigamente, as cesáreas eram feitas rotineiramente na vertical. Como essa maneira de corte não segue a ordem da musculatura do útero, ao entrar em um próximo trabalho de parto, há um risco maior de a musculatura se romper, por isso não é indicado a mulher que fez uma cesárea na vertical ter parto normal.

Mas essa incisão vertical na cesárea já não é feita de rotina há muitos anos aqui no Brasil. Atualmente, ela é realizada apenas em casos muito raros, como quando o parto é extremamente prematuro, acretismo placentário (quando a placenta está aderida de maneira incorreta) ou se houver alguma obstrução que dificulte a incisão.

Em estudo realizado no Brasil, foi observado que 52% dos nascimentos foram por uma cesariana, sendo que no setor privado o índice foi de 88%. Um valor muito acima dos 15% recomendados pela OMS (Organização Mundial da Saúde). No entanto, 72% das mulheres iniciaram o pré-natal com desejo de um parto vaginal e, no final, 59% delas tiveram uma cesárea, com um detalhe importante de que mesmo fazendo tantas cesáreas o Brasil não esta na lista dos países com a melhor assistência obstétrica do mundo —e isso se reflete até mesmo nos recém-nascidos, pois as taxas de mortalidade neonatal do Brasil não são boas se comparadas com outros países. Não basta realizar uma cesárea se não houver uma assistência adequada.

A OMS recomenda que a assistência ao parto deve ser realizada com o mínimo possível de intervenções, resguardando-se a segurança da mãe e do bebê. Com mais dados, a forma de nascimento tem mudado nos últimos anos, alguns movimentos de humanização do parto vêm ganhando espaço, entre eles está o movimento VBAC (Vaginal Birth After Cesarean) —traduzindo, parto vaginal após cesárea. Esse é um movimento que em alguns lugares do mundo discute possibilidades de assistência e mais acolhimento às mulheres que tiveram uma cesárea anterior, desmistificando o medo de muitas gestantes.

Antes que pensem que sou uma médica contrária à cesárea, não sou e acredito totalmente nas indicações da cesárea. Ela é uma forma de nascimento excelente, que salva vidas, mas também é um procedimento cirúrgico com riscos e, diferentemente de outras cirurgias, coloca a vida de duas pessoas em jogo. Além disso, após cesáreas consecutivas o risco para a gestante aumenta, por isso devemos pensar nela de maneira geral.

Os principais riscos da cesárea são:

  • Infecção materna após o parto;
  • Necessidade e retirada do útero por complicações;
  • Hemorragia;
  • Implantação incorreta da placenta em gestações futuras;
  • Lesão da bexiga;
  • Infecção urinária;
  • Dificuldade de acesso para procedimento cirúrgicos posteriores;
  • Distúrbio respiratório no recém-nascido
  • Prematuridade iatrogênica quando a cesárea ocorre antes do período adequado para o nascimento.

Para quem já tem uma cesárea anterior, as complicações de entrar em trabalho de parto são pequenas quando há um acompanhamento adequado"

As mulheres devem conhecer todas as opções ao decidirem pela via de parto, mas claro que conhecimento não é tudo. As condições também são extremamente importantes: assistência adequada, analgesia de parto e monitoramento devem estar presentes, porque se a opção de uma mulher for entre uma cesárea agendada ou parto vaginal sem analgesia e acolhimento, qual você acredita que será a escolha dela?

Em 2016, o CFM (Conselho Federal de Medicina) publicou a Resolução 2.144, que diz: "É ético o médico atender à vontade da gestante de realizar parto cesariano, garantida a autonomia do médico, da paciente e a segurança do binômio materno fetal." Ou seja, o CFM respalda o desejo materno e dá liberdade ao profissional para realizar o procedimento. Solicitando que o parto seja realizado após 39 semanas de gestação, para evitar uma prematuridade iatrogênica.

Então, tudo bem optar por uma cesárea agendada? Sim, mas essa escolha deve ser consciente, por um desejo da mulher ou por uma indicação pautada no quadro clínico da gestante e do bebê.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para: dralarissacassiano@uol.com.br.

Referências:

LANSKY, Sônia et al . Pesquisa Nascer no Brasil: perfil da mortalidade neonatal e avaliação da assistência à gestante e ao recém-nascido. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro , v. 30, supl. 1, p. S192-S207, 2014;
World Health Organization. Care in normal birth: a practical guide. Geneva: World Health Organization; 1996.
World Health Organization. World Health Organization recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience. Geneva: World Health Organization; 2018.
CALDERON, Iracema de Mattos Paranhos et al . Prova de Trabalho de Parto Após uma Cesárea Anterior. Rev. Bras. Ginecol. Obstet., Rio de Janeiro , v. 24, n. 3, p. 161-166, 2002;
Parecer CFM: https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2016/2144.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL