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Larissa Cassiano

É possível dizer que existe uma gestação "normal"?

Getty Images
Imagem: Getty Images
Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

27/10/2020 04h00

Com frequência, durante o pré-natal, as gestantes me perguntam se está tudo bem na gestação, se o bebê está normal e quais exames conseguem identificar possíveis alterações no feto. Parece uma pergunta muito simples, mas durante meus anos de atendimento e, principalmente porque na maior parte do tempo atendo gestantes de alto risco, passei a entender que essa pergunta tem pontos mais complexos e a normalidade de muitas situações é a própria gestante que irá determinar.

A probabilidade de um bebê nascer com alteração cromossômica é de 0,5% em mulheres com 35 anos e pode chegar a 11% em mulheres com 45 anos, sendo a síndrome de Down a alteração mais frequente, que pode ocorrer em 1 a cada 500 gestações, e após uma gestação com síndrome de Down a probabilidade de uma nova gestação com a síndrome de Down é 1%.

Durante a gravidez é possível diagnosticar as síndromes genéticas pelo ultrassom morfológico, pesquisa pelo sangue materno através de marcadores bioquímicos e pesquisa genética. Quando um desses exames está alterado é possível realizar exames invasivos através da coleta do líquido amniótico ou sangue do cordão umbilical para confirmar o diagnóstico.

O ultrassom morfológico do primeiro trimestre, principal exame para identificação de alterações fetais, deve ser realizado entre a 11ª a 14ª semana de gestação, ele avalia a formação do feto, podendo diagnosticar má formações nos órgãos, anencefalia e etc. Além de medir a translucência nucal, osso nasal e a vascularização fetal.

Quando correlacionados com a idade materna conseguem estimar o risco de alterações cromossômicas.
O que muda no pré-natal de uma gestante em que o feto foi diagnosticado com síndrome de Down é a realização de ecocardiograma fetal, ultrassom para avaliar o coração do feto, pois as alterações cardíacas são mais frequentes no feto com síndrome de Down.

Para ilustrar um pouco de todas as informações que trouxe gostaria de dividir uma história linda que recebi, para mostrar que estatísticas não são verdades absolutas e gestações são sempre uma caixinha de surpresa, a história será narrada pela própria autora: Bia Bombazaro, mãe do Enzo e da Maria do (@crescendocomenzoemaria), duas crianças com síndrome de Down.

"A gravidez do Enzo foi bem complicada, era muito nova, tinha 17 anos e descobri a condição genética dele aos 2 meses de gestação, o ultrassom detectou síndrome de Down por trissomia do 21 livre. A gestação em si foi desafiadora, a aceitação foi difícil inicialmente, afinal não conhecia nada do universo da síndrome de Down.

A aceitação veio logo que o Enzo nasceu, e ele nasceu exalando saúde. Para meu marido, a aceitação do universo novo foi bem mais tranquila, e no geral toda nossa família nos acolheu. Já na gestação da Maria, foi totalmente diferente, foi uma gravidez planejada. Queríamos muito um irmão(a) para o Enzo, nosso projeto sempre foi ter dois filhos, mas confesso que sempre tive medo de engravidar novamente de um filho atípico, pois sabemos das dificuldades.

Entrei de cabeça nessa segunda gestação, tendo em vista que meus exames deram uma porcentagem de 1,6% de uma nova gestação atípica. Aos 2 meses de gestação, dessa vez da Maria, a surpresa! Maria também foi diagnosticada com síndrome de Down por trissomia do 21 livre, ficamos em choque com a notícia. A ficha não caiu logo de cara, mas aceitamos super bem e, diferente da gestação do Enzo, foi uma gestação mais tranquila, afinal já havia vivido essa história.

Confesso que não é fácil ajudar alguém nessa situação, lembro o quanto sofri, por entrar em um universo desconhecido, mas hoje só vejo gratidão por tanta coisa que vivi e aprendi, e falo isso com o coração cheio de amor."

Muitas pessoas criam ideais e acabam potencializando o que é ter um filho com Down. Não é fácil, mas existem singularidades e pontos positivos lindos, sem dúvida teríamos um mundo mais amável e doce se aprendêssemos a amar.

Agora me conte o que você considera normal em uma gestação, é possível dizer que existe uma gestação normal?

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para contato@larissacassiano.com.br.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.