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Jairo Bouer

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como vencer o burnout sem largar seu emprego

Rocky89/ iStock
Imagem: Rocky89/ iStock
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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

14/05/2021 04h00

Levante a mão quem nos últimos meses não teve a nítida sensação de que não está dando conta do recado. Entra dia, sai dia e parece que estamos sempre devendo! Passamos o tempo recalculando a rota da nossa jornada de trabalho e das tarefas que ainda precisam ser executadas. E fechamos o computador com a sensação que a missão nunca é totalmente cumprida.

Se você se encaixa na descrição acima, pode apostar que você não está só. O acúmulo de tarefas domésticas, profissionais e cuidados com os filhos está deixando muita gente à beira de um "ataque de nervos". Para as mulheres, essa combinação é ainda mais impactante.

A síndrome de burnout (esgotamento físico e mental em função do trabalho) já era um grande problema no Brasil muito antes da pandemia começar e do escritório ter "migrado" para a sala de jantar. Com a distância dos colegas e o aumento das demandas e desafios do momento, há maior risco de tensão nas relações entre colaboradores e líderes.

Segundo dados pré-pandemia da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), a síndrome de burnout pode atingir até 30% dos trabalhadores brasileiros, cerca de 30 milhões de pessoas. Com a pandemia, esse índice pode atingir níveis inéditos no país.

Quais os principais sinais?

O burnout se caracteriza basicamente como uma sensação de exaustão ou esgotamento em função do trabalho, um cansaço que persiste mesmo nas eventuais folgas ou finais de semana. Além disso, o colaborador pode começar a manifestar uma falta de identificação com a empresa, negatividade permanente e uma desmotivação que pode levar a uma queda importante no desempenho.

Os principais fatores de risco para o burnout são carga excessiva de trabalho, pressão extrema por prazos e metas, falta de comunicação e de suporte com colegas e líderes e uma sensação de um tratamento injusto no ambiente laboral.

As condições atuais do mercado de trabalho, depois de mais de um ano de pandemia, podem estar deixando o colaborador em uma situação ainda mais difícil. Com as incertezas que o país atravessa, ele pode ter receio de reclamar e virar alvo do líder ou de outros colegas, o que pode comprometer seu futuro na empresa, com maior risco de punições e até a demissão em um momento tão crítico.

Burnout é doença?

Em 2019, o burnout foi reconhecido como um problema relacionado ao trabalho (questão ocupacional) e não como uma doença pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Embora não seja um diagnóstico médico fechado, ele pode impactar diversos aspectos da saúde física e mental das pessoas. Os principais sintomas são:

-Irritabilidade
-Ansiedade
-Impulsividade
-Dificuldade de atenção e concentração
-Piora da memória e do padrão de sono
-Dores no corpo e de cabeça frequentes
-Problemas gastrointestinais
-Palpitações
-Sudorese excessiva
-Maior risco para doença cardiovascular

É bom lembrar que o burnout é diferente de depressão, embora ambas possam estar associadas. A exposição ao estresse associado à rotina de trabalho que leva ao burnout também pode contribuir para um quadro depressivo com sintomas como desânimo, tristeza, crises de choro e sensação de falta de perspectiva.

Estratégias para evitar o burnout

Uma reportagem recente do jornal The New York Times discute algumas estratégias interessantes para atravessar essa fase complexa de trabalho em casa (ou de trabalho na rua com os riscos associados à atual crise sanitária) sem ter que abandonar o seu emprego. Quer tentar?

1 - Tenha autocuidado

É importante gerenciar sua rotina de trabalho e tentar definir melhor seus limites. Assim, traçar prioridades e metas pode ajudar, bem como determinar um horário para o começo e para o fim das atividades. Alivie sua carga diária e divida melhor suas atribuições também dentro de casa. Arrume brechas na sua agenda para momentos que te façam bem (relaxamento, leitura, atividade física, etc.) e incorpore essas mudanças em sua rotina.

2 - Exerça bondade

Seja mais generoso com você e com os outros. É essencial respeitar oscilações emocionais e limites seus e dos demais colegas. Tem dia que você precisa de ajuda, mas tem dia que pode ajudar quem precisa.

3 - Fale com seu líder

Conversar com seu líder é importante. É essencial dividir sua preocupação com o excesso de trabalho para que todos possam estar jogando juntos, no mesmo time. O diálogo sobre a saúde dos colaboradores pode ser o elemento de transformação nas relações de trabalho.

4 - Se precisar, peça ajuda

Você não precisa estar 100% o tempo todo. Estamos todos mais fragilizados pelas condições impostas pela pandemia. Divida o que sente com colegas e abra espaço para que os outros façam o mesmo. Isso pode ajudar na criação de um ambiente de trabalho que dá mais suporte a todos e na construção de colaboradores mais resilientes. Se você não estiver bem, vença tabus e preconceitos em relação à sua saúde física e mental, e busque ajuda de um profissional de saúde. A vida fica melhor e você aumenta as chances de atravessar essa fase difícil mantendo seu posto. Boa sorte!

Se quiser saber mais sobre burnout e saúde mental, cheque meu site Doutor Jairo Bouer e também acompanhe as reportagens publicadas aqui no VivaBem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL